Old Man’s Journey — Quais histórias as suas mecânicas contam?

Tecnicalidades:

Desenvolvido pela Broken Rules, Old Mans Journey foi lançado para PC, Android e iOS no dia 18 de Maio de 2017. Durante este texto alguns paralelos são traçados com obras do Jonathan Blow (Braid e The Witness), que por coincidência é um dos fundadores do Indie Fund, uma organização criada por desenvolvedores de jogos independentes para ajudar financeiramente estúdios que possuam projetos de jogos que apresentem algo diferente ou novo ao meio, como foi o caso de Old Man’s Journey.

aboutme.txt:

Este texto faz menção a temas, mecânicas e enredo do jogo, portanto sua leitura deve ser feita preferencialmente após o término da obra.

Trailer:

O jogo:

Old Man’s Journey começa de forma direta, sem tutoriais ou diálogos. O protagonista, um sujeito de idade avançada, está em sua casa na beira do penhasco e aprecia o mar até o momento em que um carteiro chega e lhe entrega um envelope. A cara do velhinho ao ler a mensagem traz um ar de preocupação, ele logo entra na casa e sai dela com uma mochila de viagem e uma vareta que usa como bengala.

As mecânicas são claras: o jogador interage com as montanhas, esticando-as e as movendo de forma a criar uma perspectiva onde elas se encostam, permitindo que o velhinho magicamente salte de uma para a outra, por mais que isso pareça um feito impossível no mundo real.

Monument Valley (2014)

Pode-se dizer que tal mecânica é parecida com a utilizada em Monument Valley, onde o jogador altera o cenário de forma a navegar com um personagem de um ponto A ao ponto B utilizando-se de perspectivas forçadas, entretanto as semelhanças com o jogo inspirado nas obras de M. C. Escher não é apenas essa, ambos os jogos utilizam seus cenários contemplativos, quebra-cabeças (puzzles) e principalmente: a solução dos seus quebra-cabeças como forma de contar histórias.

Ao decorrer da sua caminhada o protagonista passa por cenários, momentos e situações que desencadeiam suas memórias, como conheceu sua esposa, sua filha, sua paixão pelo mar e todos os eventos que desencadearam na sua solidão no tempo presente. O jogo então intercala entre sessões de interação e sessões de contemplação.

Old Man’s Journey (2017)
Braid (2008)

Assim como Braid (2008) se utilizava dos quadros para deixar ao jogador sua interpretação dos eventos, Old Man’s Journey faz o mesmo com as memórias do protagonista, a linguagem corporal é expressiva, porém surgem lacunas na cena que funcionam tanto para instigar o jogador a descobrir a história do velhinho como também projetar seus sentimentos. Há o cuidado sonoro de fazer a trilha do jogo ficar parecida com a de uma radiola antiga e distante, mas o que mais salta aos olhos é a beleza da cena e também um esmero:

As lembranças voltam como ondas

As lembranças apresentam um leve movimento, camadas e profundidade, que trazem uma sensação de alívio se comparada à parte interativa, que por necessidade traz a câmera para um ponto de vista que permita a solução do quebra-cabeça. O que poderia ser um recurso fácil e preguiçoso (uma imagem bidimensional) passa a trazer sensações vívidas. É a principal forma que o jogo tem de contar a sua história, porém não a única.

Old Man’s Journey não apresenta muitos desafios ou variações dentro de suas mecânicas, há as cachoeiras pelas quais o velhinho escorrega e se desloca para outra plataforma, as ovelhas que bloqueiam a sua passagem e por último os muros, que precisam ser destruídos utilizando barris que rolam pelas colinas. Em alguns momentos o protagonista está dentro de um trem ou caminhão, e precisa conectar os trilhos para manter a viatura em movimento (a temática de meios de transporte está presente durante toda a história), contudo as mecânicas se mantém as mesmas.

Apesar da sua simplicidade mecânica, há uma sutileza nos elementos escolhidos de forma a enriquecer a história. A mecânica de mover montanhas contrasta com o seu amor pelo mar e o preço que isso teve em sua vida, trazendo uma carga de redenção à viagem, as ovelhas [sheeps] podem ser vistas como uma alegoria aos navios [ships](que também aparecem mais tarde na fase no fundo do mar) e os barris que rolam as colinas retratam sua relação com a bebida, presente em vários flashbacks, podendo ser vistos como uma solução para um problema, porém de forma destrutiva e irreversível. As cachoeiras retomam o elemento água, sua grande fraqueza, e tal mecânica é usada em um dos momentos mais emotivos dentro da história, onde após uma longa queda o protagonista é transportado ao fundo do mar, onde descendo cada vez mais (o estranhamento de andar e respirar embaixo d’água sobressaltam o tom onírico) ele finalmente encontra uma caverna trancada com um cadeado, a memória que se sucede é a antiga casa que dividia com sua mulher e filha, completamente destruída.

Após tal queda e reflexões o velhinho então resolve se redimir, mas para isso se faz necessário uma abstração das mecânicas apresentadas pelo jogo.

A parte lógica do jogo pode ser representada de forma minimalista por grafos ou estados, o cenário e seus obstáculos podem ser simplificados da seguinte maneira:

Seria o mesmo que:

Para caminhos mais complicados:

Para as cachoeiras, que forçam o posicionamento para outra plataforma:

Pode-se reduzir os obstáculos para:

Olhando para tais representações é possível imaginar que não há muitas variações que o jogo poderia ter feito sem ficar inflado e vazio (sua duração beira entre uma e duas horas). Porém assim como em Braid e The Witness, é atribuído um valor simbólico (ou mesmo metafórico) na solução do puzzle que retrata partes da narrativa ou então o tema sendo abordado. Voltando para as representações, pode-se então questionar: o que mais pode ser criado?

A → B → A → B

É guardado então para após a grande queda na cachoeira e as lembranças de sua casa o momento mais simples e também impactante na história do velhinho, a sua retomada à última parte da jornada, feita utilizando apenas duas montanhas.

É algo que poderia ter sido feito logo no começo do jogo pois não envolve qualquer outro elemento como cachoeiras, ovelhas ou barris, porém tal solução é guardada para este momento em que a mecânica do jogo conversa tão bem com a sua narrativa, permitindo ao jogador presenciar essa ascensão, sem muito o que pensar, seguro como o personagem principal após toda sua travessia e reflexões.

Old Man’s Journey é uma daquelas experiências narrativas interativas que pela simplicidade podem esconder sua grandiosidade, onde dentro de seu escopo consegue atribuir um leve significado narrativo a cada uma de suas mecânicas de forma impactante emocionalmente, não sendo possível diferir o quê veio antes: o meio ou a mensagem. E após ajudar um idoso não só a atravessar a rua, mas um país inteiro, fica ainda uma última reflexão do velhinho:

Quais histórias suas mecânicas contam?

Links de interesse:

Outros jogos da Broken Rules:

And Yet It Moves

And Yet It Moves

Secrets of Rætikon

Secrets of Rætikon

ps: para desenvolver tal ideia o texto também foi estruturado em A → B → A → B, intercalando entre as montanhas do gameplay e da narrativa ;D

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