Amadeus ou a minha obsessão por biografias ficcionais

Ganhador do Oscar® nas categorias de melhor filme, melhor diretor (Miloš Forman de Um Estranho no Ninho e O Povo contra Larry Flint), melhor ator (F. Murray Abraham), melhor direção de arte, melhor figurino, melhor maquiagem, melhor som e melhor roteiro adaptado o longa Amadeus — baseado na peça homônima de Peter Shaffer — é muito mais que uma cinebiografia sobre a vida do compositor Wolfgang Amadeus Mozart, é um filme sobre como lidamos com nossos desejos mais profundos e a sua relação com a fé.

Salieri, o filho de um comerciante italiano, tem o sonho de tornar -se um grande compositor como o prodígio Mozart, mas está destinado a herdar a profissão do pai. Certo dia, em uma de suas preces, o jovem promete sua castidade se Deus conceder a graça dele vir a tornar-se um musicista e parece que seu desejo é atendido: seu pai morre após ter engasgado com um osso de frango. Salieri larga tudo que o prendia em sua cidade, tornando-se, mais tarde, compositor da corte do rei de Viena, Joseph II. Quando Salieri encontra seu grande ídolo Mozart, a decepção e inveja crescem pelo caráter libertino de Amadeus e do grande dom, mesmo assim, lhe dado por Deus.

Abaixo frases do filme que nos faz entender mais sobre biografado, o mundo que o rodeava e seu antagonista:

“Todos são iguais aos olhos de Deus” — Padre

Em Amadeus definitivamente não. Da admiração ao ódio, Salieri nos deixa claro que mais do que lutar contra Mozart, ele quer lutar contra Deus. A genialidade dada a uma “criaturinha de mente suja” e privada a ele, um homem de caráter inquestionável, faz com que durante os 180 minutos do filme pensemos na afirmação acima.

“O homem que você diz ter matado” — Padre

Existem várias versões sobre a morte e Mozart. A aceitável pela maioria dos historiadores modernos é a que ele morreu de uma febre epidêmica, muito comum em sua época.

O mito que Mozart morreu pelas mãos de Antônio Salieri surgiu a partir de dois depoimentos: a) de Constanze (esposa de Mozart) dizendo que seu marido acreditava ter sido envenenado e b) Após confissão de um Salieri, já esclerosado, dizendo que havia matado Mozart.

“Por quê? Você quer ser um macaco treinado?” — Pai de Salieri

Mozart, quando criança, era mais que um “macaco treinado”. Aos seis anos apresenta-se para a imperatriz Maria Tereza da Áustria. Aos oito anos suas primeiras sonatas são publicadas em Paris e aos doze termina sua primeira ópera “La Finta Semplice“.

“Na verdade, ele (Joseph II) não tinha talento nenhum”. Salieri.

O Sacro Imperador Romano-Germânico Joseph II era amante da música, além de um músico sofisticado, não um amador como apresentado no filme.

“Sabe que declarei a peça francesa As bodas de Fígaro imprópria para o nosso teatro?” — Joseph II

Temeroso com os relatos de uma ilustre parente, Maria Antonieta da França, o imperador Joseph II decide proibir a exibição da peça As bodas de Fígaro em teatro vienenses, liberando-o apenas após assistir o ensaio da ópera de Mozart que utilizava essa história como libreto. Na peça escrita por Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais os servos do Conde Almaviva, Fígaro e Susanna, decidem casar-se. O problema é que Susanna, assediada pelo Conde, dúvida que esse irá abolir o chamado “Direito do Senhor” que estabelecia que a serva deveria ter a noite de núpcias não com o marido, mas com seu senhor.

“Um jovem tentando impressionar além de sua capacidade. Floreado demais. Muitas… Notas demais.” — Diretor da Corte Vienense

Mozart foi provavelmente o primeiro compositor real independente. Após a fase de criança-prodígio, na adolescência e vida adulta, teve que trabalhar muito para sua subsistência. Infelizmente a complexidade de suas obras não eram entendidas pelos críticos da época.

Sua obra conta mais de 600 composições, tendo, entre elas, como principais as óperas As bodas de Fígaro, Don Giovanni e A Flauta Mágica; a sinfonia nº40 em Sol Menor; os concertos para piano nº21 em Dó e nº27 em Si bemol e o Requiem em Ré menor.

“No palco estava a figura de um comandante morto e eu sabia, só eu entendia, que a horrível aparição era Leopold, surgido dos mortos.” — Salieri

O relacionamento entre Mozart e Leopold, seu pai, era mais ambivalente que mostrado no filme. O pai era extremamente rigoroso e tratava-o mais como um de seus instrumentos do que como filho. Diferentemente do filme, ele não conhece Constanze em Viena, pois, nunca chegou a voltar lá após a primeira apresentação de Mozart, na qual ele rompe com o arcebispo Colloredo.

“Um homem que merecia um réquiem e nunca teve.” — Salieri

O réquiem, diferente do que é mostrado no filme, não foi encomendado por Salieri, fingindo ser o fantasma de Leopold, mas sim pelo Conde Franz Von Walsegg em homenagem ao falecimento de sua esposa. Mozart morreu antes de completar a obra que foi terminada por seu aluno Franz Xavier Süssmayer.