Silêncio, que se vai sentir o fado

Por Andreia Castanho e Marta Pimpão

É nos bastidores da Casa Senhor Vinho — uma Casa de Fados — que o destino começa. Uma casa acolhedora, pequenina e um tanto antiga. Já ouviu imensos fados e viu muitos destinos traçados; já limpou lágrimas de emoção e já ouviu muitos “Ah, fadista!”; também já sentiu corações apertados e viu sorrisos rasgados rendidos ao fado.

Ana Margarida acompanhada por Rogério Ferreira

Tendencionalmente, o Fado é sinónimo de “destino” ou “sina” — dois conceitos usados para designar metaforicamente este universo musical e os seus protagonistas. Mas poderíamos considerar o Fado como um género performativo que utiliza formas expressivas, verbais, musicais e corporais. Ou, de uma forma mais simples, uma canção popular urbana.

Para José Luís Gordo, um dos donos da Casa Senhor Vinho, o fado não é finito: «O fado não é uma canção de vencidos, mas de vencedores porque o amor vence tudo. E o fado é uma canção de amor. O amor não é passado, o amor é sempre presente. No fado canta-se tudo desde o mal ao bom, da saudade, da tristeza, da mágoa, tudo isso. Mas tudo se resume a uma coisa só: ao amor. E o amor só tem uma particularidade muito grande: é o infinito. O fado é infinito».

O Fado começou a ser praticado em vários espaços populares da capital portuguesa, em particular nas tabernas dos bairros mais pobres, como Alcântara, Madragoa, Bica, Bairro Alto, Mouraria e Alfama e nos chamados “retiros” — casas de pasto da periferia da capital. Mas seria apenas nos anos 20 que a prática do fado se alarga a cafés e a cervejarias do centro da cidade lisboeta.

Mas o cenário não seria sempre “cor-de-rosa”. Foi em 1974, com a Revolução dos Cravos, até 1975, que surge uma polémica ideológica em torno do fado. Durante estes anos, o fado seria banido da rádio e da televisão. E até a Grande Noite do Fado — uma tradição popular profundamente enraizada em Portugal — foi suspensa.

Curiosamente, foi neste contexto forte de tensão política que a Casa Senhor Vinho, sob a alçada de Maria da Fé, António de Mello Côrrea e José Luís Gordo, foi fundada. Para José Luís, fundar uma casa desta natureza não foi difícil, porque sempre foi contra todos e quaisquer regimes. E para si, o fado nunca pertenceu a alguém: «Embora houvesse muita gente que dizia que o fado era fascista, era do regime, o fado nunca foi do regime. Foi sempre contra qualquer regime».

António do Mello Côrrea, José Luis Gordo (fonte: Lisboa no Guiness) e Maria da Fé (fonte:elFado)
Esta música urbana ocupou um espaço na cultura portuguesa. Mas foi nesta Casa que passaram os maiores artistas, como Mariza, Camané, Jorge Fernando e Ana Moura. Tornou-se na Universidade do Fado, formando fadistas que hoje levam este património português além-fronteiras.

As noites na Casa Senhor Vinho são noites únicas, onde o fado é a cereja no topo do bolo. Filipa Gordo, filha de Maria da Fé e de José Luís Gordo, coordena algumas noites nesta Casa, garantindo que tudo ocorre como planeado. Durante a noite, a execução do fado acontece de forma organizada: o espetáculo começa às 21h30m. E tudo se efetua por blocos que vão alternando com o serviço de restaurante. Em cada bloco, cada artista canta normalmente quatro fados, o que dá uma aproximação de 15 a 20 minutos de concerto. São efetuados intervalos entre a atuação de um fadista e outro. Antes de o artista e os músicos se deslocarem ao centro da sala, as luzes diminuem de intensidade e impõe-se um silêncio absoluto — é caso para dizer: “Silêncio que se vai cantar o fado!”.

Vários são os artistas que atuam no Senhor Vinho. É um elenco diversificado, mas com vozes imparáveis.

Aldina Duarte, Ana Margarida e Francisco Barreto (fonte: sr vinho)

É o caso de Aldina Duarte, uma eterna apaixonada pelo fado. Começou por cantar nas “Noites de Fado”, no Teatro da Comuna, em 1994. Já em 1995, cantou no Clube do Fado. Agora faz parte do elenco do Senhor Vinho, onde canta e emociona quem escolhe esta Casa para um bom serão.

Ana Margarida, fadista, herdou o fado da mãe. Desde cedo que a música lhe corre nas veias. Deu os primeiros passos em coproduções com o Teatro da Trindade, onde participou em “Navio”, em 2004 e em “Fungagá da Bicharada”, um ano depois. Mas foi apenas em 2008 que recebe o Prémio Revelação. Ana Margarida foi uma dos muitos artistas que levou o fado para além das fronteiras portuguesas. Atuou em Espanha, França, Suíça e Holanda. Hoje é uma das fadistas que ocupa o espaço central da sala do Senhor Vinho — e fá-lo desde 2013.

Mas o fado não é apenas feito de mulheres. Encontramos Francisco Salvação Barreto neste elenco vasto. Francisco começou a cantar com 14 anos. A convite de várias embaixadas, participou em inúmeros eventos nacionais e internacionais, com o intuito de promover o fado enquanto expressão da Cultura Portuguesa. Aos 29 anos, foi considerado a “voz revelação” do ano 2011, pela Rádio Amália. Atualmente podemos ouvir a sua voz na Casa Senhor Vinho.

Aos fadistas juntam-se as guitarras portuguesas — instrumentos únicos que com o seu nível de afinação e construção tão própria e diferente, tocam o fado. São os músicos Paulo Parreira e Rogério Ferreira que os acompanham.

Paulo Parreira e Rogério Ferreira (fonte: sr vinho)

Paulo Parreira começou a tocar aos 6 anos. Foi o pai que lhe ensinou. Já acompanhou vários fadistas, desde Maria da Fé, Beatriz da Conceição a Kátia Guerreiro. Foi o guitarrista principal do palco “Fado”, na Expo 98: «Quem tinha a sequência do palco era o Carlos do Carmo e eu era guitarrista dele naquela altura. Toquei todos os dias no Palco do Fado para todos os fadistas que lá fora»”. Enquanto solista, conta com vários álbuns editados.

Já Rogério Ferreira começou a tocar viola de fado muito novo por influência do pai: «Por volta dos cinco anos e meio, o meu pai saía para tocar à noite. O meu pai sempre teve duas violas. E eu tinha o hábito de, quando o meu pai saía, abrir a caixa da viola, e tocar a viola». Tornou-se profissional e acompanha várias vozes do fado, como Maria da Fé ou António Zambujo. Participa ativamente em espetáculos nacionais e internacionais.

Francisco Barreto acompanhado por Paulo Parreira e Rogério Ferreira

Em 2011, víamos o Fado a ser considerado, pela UNESCO, Património Cultural Imaterial da Humanidade. Tratava-se de um reconhecimento em grande escala, que tanto enaltecia a cultura de um estilo musical e de um país. Aliado a este, esperava-se um reconhecimento por parte do povo que ouve e sente o fado na língua que é tão sua: os portugueses. Mas isto não aconteceu. A aparência sobrepôs-se ao gosto — “hoje em dia, é chique ir aos fados, o que não quer dizer que as pessoas gostem”, refere Paulo Parreira, músico no Senhor Vinho.

A arte de cantar histórias chamou os povos longínquos. A sonoridade da guitarra portuguesa e a intensidade da interpretação convenceram pessoas de todos os cantos do mundo. Torna-se clara a interculturalidade existente numa sala como é a do Senhor Vinho e como são tantas outras.

O turista — que não entende nem fala o português — vai a casas de fado pela curiosidade. Fecha os olhos, escuta as palavras e sente o que não sabe com a intensidade que a fadista permite. Ana Margarida, fadista, revela que «o turista estrangeiro diz:eu não sei o que senti, mas gostei e quero mais”».

Na opinião da mesma fadista, quem hoje assiste ao fado é, maioritariamente, o turista — que constitui cerca de 80% do todo. E isto faz com que nunca se saiba que esperar.

«Os públicos diferem de cultura para cultura. Por exemplo: o público asiático é muito atencioso e silencioso, respeita e sabe apreciar. Por outro lado, o público inglês e o público espanhol já não são assim. Isto tem que ver com a cultura musical que cada país tem. No caso do público espanhol, este está habituado a interagir com a pessoa que está a atuar e isto é algo com que os fadistas não ficam muito contentes», revela Rogério Ferreira, músico da mesma casa.

Com a afluência de turistas a casas de fado, também a escolha das letras a cantar é feita de forma diferente. Isto porque o português entende a palavra, enquanto o estrangeiro não o consegue. Ana Margarida reforça esta ideia: «quando cantamos para portugueses, há um cuidado especial de escolher fados mais tradicionais, mais castiços. Quando cantamos para turistas, temos de ter cuidado para não ser algo pesado ou enfadonho. Temos de balançar o tradicional com algo mais alegre.»

“As always it has been a great pleasure. The only and warm atmosfhere. Usually and attentive service and of course the beautiful “fados” make very evening here a memorable one. Até à próxima! Com os melhores cumprimentos, Embaixador da India”
Lisboa, 11 de Fevereiro de 2006

Não se trata apenas de reservar uma mesa, com dia e hora marcados, de sentar-se em cadeiras e de jantar numa mesa preenchida por velas que iluminam, subtilmente, o rosto de quem canta. Trata-se de observar, de colocar em reflexão, de questionar. As questões são várias, mas quando perguntamos a Rogério Ferreira qual a mais frequente, a resposta é imediata: «perguntam muitas vezes: “que instrumento é aquele?” Nunca sabem que é uma guitarra portuguesa. E dizem sempre que a minha viola é uma guitarra clássica, que não é.» Na verdade, aquilo que difere a guitarra clássica da guitarra portuguesa é somente uma coisa: as cordas e, consequentemente, o som que delas provém. A guitarra clássica é uma viola com cordas nylon. Por outro lado, a viola de fado tem cordas de aço, partilhando com a guitarra clássica o número de cordas e a afinação. Segundo Rogério Ferreira, «é uma mistura entre a viola clássica e a viola folque.”

Guitarra Clássica (fonte: quebranotas) e Guitarra Portuguesa (direcaocultura)

O português que hoje vai a uma casa de fado não é aquele que ia há 40 anos. Antes, existia uma disponibilidade e possibilidade maiores do que as que existem atualmente. Concentrado nos 20%, o público português que hoje assiste ao cantar de histórias no Senhor Vinho fá-lo por conhecer a casa, os fadistas e aquilo que ali consegue trazer ao nível das emoções. Alguns vão todos os meses, outros uma vez por ano e, noutros casos, trata-se de clientes que vivem no estrangeiro e que, quando voltam a Portugal, passam por lá. São turistas na própria cidade e vivem tudo aquilo que esta tem para oferecer.

“Restaurante Senhor Vinho, meus sinceros cumprimentos e a maior homenagem pelo excelente serviço, além de uma noite maravilhosa com os melhores cantores do tradicional “FADO”.
Como brasileiro, admirador de LISBOA e de sua generosa população, a nossa honra e alegria pela hospitalidade e carinho. Que Deus abençoe a todos.”, Presidente da CBF, ex-Governador de São Paulo-Brasil
Lisboa, 26 de Maio de 2014

Mas por que razão não existem mais portugueses a visitar as casas de fado? A resposta é simples. Não se trata de algo monetariamente facilitado e a população tem vindo a despender cada vez menos dinheiro na cultura e em tudo o que esta envolve.

Com isto, o turismo vai ganhando terreno em salas rodeadas de velas e pratos típicos portugueses. Na verdade, é isto que tão bem caracteriza Portugal: os aromas, os sabores e a música; e, na verdade, é disto que os turistas tanto gostam.

“What an evening! The songers are just wonderful! As a parish attitudes with a slave soul, I can apreciate and the feelings of “fado” in Lisbon! Keep going!
Save a “Fado” soul forever! Myself and my Copilot Christian we were extremely happy to hear such beautiful songs, sad and happy at the same time! Continue like this! You are the “best”!!
Bravo!”
Wojclech Mirsru (Around the world pilot) and Cristian Mignot (Copiloy).

O fado é uma poesia audível em qualquer canto do país. Sempre tipicamente português e nunca estrangeiro, mas o que é tão típico do fado é a indumentária. Tornou-se norma, os homens fadistas aparecerem de fato escuro com (ou sem) gravata e as mulheres, a partir de Amália, com o vestido e o xaile pretos. As origens do uso deste tipo de roupa são difíceis de decifrar, principalmente nas fadistas. Para Ana Margarida, o xaile pode ter significados diferentes para cada um: “Acho que inicialmente o xaile era mais para o abrigo, até porque algumas letras antigas falam do xaile como agasalho. Acho que foi ficando como um símbolo, como parte da tradição, não é que seja obrigatório. Hoje em dia há muitas fadistas que não usam xaile. Há ainda quem diga que é para ter algo a que se agarrar e fazer força. Acho que vai um pouco de cada um”.

A postura, no momento em que se canta, é bastante acentuada. Geralmente, a atitude base do fadista é solene, reforçada pelos códigos da indumentária: os homens muitas vezes têm as mãos num ou nos dois bolsos das calças e as mulheres seguram as pontas do xaile, esticando os braços; em ambos os casos, os artistas alongam, contraem ou vão passeando o corpo pelo espaço onde o momento musical se desenrola, fazendo-o ao ritmo do destino.

Os portugueses são capazes de ouvir, sentir e interpretar o fado, tendo assim uma carga emocional forte. Já os estrangeiros, não entendem a língua, mas sentem-no. E no momento em que o público fica imóvel, havendo um silêncio religioso, é caso para dizer: “Silêncio, que se vai sentir o fado”.

Uma música urbana. Uma simples e única canção que é tudo. Canta todos os temas. Pode ser o último baluarte de uma tradição nacional que identifica as suas raízes históricas e sentimentos universais, como é o caso do amor. O fado vê-se a si mesmo. Para José Luís, “O fado é chão, é terra, é vento, é sol, é mar, é estrela” e “se não tiver terra e chão, não presta”. O fado nunca perdeu visibilidade nem o seu lugar já tão conquistado. Não deixará de ser português. Não faltarão vozes para cantá-lo e, por isso, José Luís dita a sina: “o Fado nunca morre. Só morre quando morrer Portugal”.

Para informações adicionais acerca do Senhor Vinho, poderá consultar o site: www.srvinho.com e consultar o mapa abaixo

Indicações geográficas do Senhor Vinho
Like what you read? Give Andreia Castanho a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.