Costurando a vida

Há uns meses decidi que aprenderia costurar.

Nunca havia pegado numa agulha, nem mesmo para pregar um botão, aliás, hoje preguei vários, e a sensação de abotoar no corpo um botão que você mesmo pregou é fantástica! Ver-se sendo coberto por algo que você mesmo produziu é sensacional, mas falarei disso noutra ocasião.

A idéia de costurar surgiu porque tenho dificuldades em encontrar roupas decentes, simples e belas, não encontrava roupas que fossem minhas, mas sim roupas de outras. O problema é que não sabia como funciona uma máquina de costura, não sabia nome de tecidos, não sabia nem mesmo como pedir ao lojista.

Eis que comprei uns alfinetes, linha, elástico, fita métrica, um tecido bem bonito e fui para casa da vovó. Assisti aulas no youtube, mas sinceramente, lá ensinam a tirar moldes e medidas, e eu, ansiosa que estava, não tive muita paciência com isso e fui logo como dizem os mineiros “fazendo por rumo” “no zói mesmo”.

Imaginei um modelo que fosse eu, queria algo que eu vestisse, olhasse no espelho e dissesse: Enfim agora sou eu! Feito isso, fui logo cortando e alfinetando tudo, minha avó me ajudou, mas ela é muito boazinha e acabou preparando a máquina para mim, e eu acabei não entendendo como monta-la para começar o trabalho. Então lá fui eu, costurei meu primeiro vestido e de quebra ganhei um texto do ilustre professor Carlos Ramalhete falando sobre o costurar. Fiquei toda feliz, entendi o superpoder que é costurar.

Hoje, costurando novamente um vestidinho percebi o quanto a costura fala de quem costura! Fala da moral, dos princípios, fala do carácter, fala do carinho, fala do cuidado. Por quê?

Pense que o lado direito da roupa é você tal como se apresenta para as pessoas, o lado do avesso da peça representa você tal como é, seus defeitos, suas mazelas. Quem costura tem duas opções: Fazer um avesso bem feitinho, como se fosse o lado direito, ou então deixar cheio de linha, com pontas mal cortadas.

Costurar é um exercício de auto-conhecimento, a cada remate que eu precisava fazer, eu me compreendia enquanto pessoa, percebia o valor que dou ao aspecto o qual me apresento e aquele que está em minhas entranhas.

Costurando se aprende a paciência, paciência em lidar com os próprios erros do decurso da vida, erros que muitas vezes estão tão enraizados quanto um ponto reto apertado ou uma costura em zig zag; pra quem não sabe, essas costuras que citei são difíceis de desmanchar, exige paciência e cuidado para não rasgar o tecido; e se rasgar, tem que ter o cuidado de retocar. Assim é nossa vida, existem erros que para serem reparados, exige-nos paciência, tempo, e muito cuidado, pois na tentativa de resolvermos nossos problemas podemos rasgar-nos mais ainda, rasgar o tecido do nosso coração.

Existem alguns erros na costura que são assim, precisa rasgar o tecido para consertar; na nossa vida não é muito diferente, precisamos tocar nas feridas para cura-las.

Acho que toda mulher devia costurar. Não, não digo se tornar uma costureira, mas ao menos fazer a barra da calça do marido, tapar o furinho da roupa dos filhos.

Fazer a barra é compreender que a beleza e o cuidado devem estar presentes em todos as coisas, até mesmo naquilo que se aproxima do chão. Fazer a barra é aprender a dar atenção as coisas simples, naquelas que passam despercebidas.

Tapar um furinho, é compreender que pessoas e coisas passam por nossa vida, e abrem-nos feridinhas, geram probleminhas que ofuscam a beleza de nosso ser; e uma vez compreendido isso, cabe pegar linha agulha e arrumar a fim de que essas feridinhas não se tornem buracos enormes e ofusquem a beleza que há em nós. Uma roupa rasgada não é bonita, uma pessoa com seu ser rasgado também não o é.

Quando eu decidi queria costurar , eu queria uma roupa que fosse minha, que fosse eu verdadeiramente, e costurando acabei descobrindo quem sou eu, conheci meu avesso. Haja coragem. E você? Tem coragem? Tem coragem de amar? ;)

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