Quando o reflexo desaparece
Olhar para si mesmo em fragmentos ainda é uma vantagem que se tem antes do reflexo sumir por completo. Enquanto antes haviam partes que lhe faziam acreditar que existia algo bom, capaz ou belo em você, suas qualidades são substituídas por rótulos que tornam sua identidade uma indicação de defeitos, tal qual uma peça a ser substituída, reformada, corrigida. É possível entender essa construção de estar errado dentro de padrões, quando alguém lhe mostra que pode facilmente buscar novos produtos em um mercado abundante de escolhas para quem se enquadra em estereótipos que você admira, ao passo que os mesmos fazem você se odiar.
A dicotomização dita que você é sucesso ou fracasso, rico ou pobre, feio ou bonito, gordo/magro ou atlético, popular ou um pária das redes sociais. Nessa construção, a pessoa que você tanto luta ou lutou para construir uma imagem frente ao espelho se torna borrada e começa a desaparecer. Até o momento em que você não passa de uma corda que deixou de fazer som em um piano quebrado. Era preferível ter ficado no escuro e nunca ter sido visto do que um dia ter experimentado o gosto de ver a si mesmo, que agora desaparece em uma tentativa que torna-se cada vez mais desesperada por validação externa através de entorpecentes como o cigarro na varanda que deixa de resolver assim que a cinza cai no chão, a taça de vinho no sofá que perde o efeito assim que esvaziada, o sexo com algum desconhecido que você não vai lembrar o nome em uma semana, ou talvez não saiba nem enquanto o faz.
Quão fundo é este oceano em que se afogam sonhos, em que monstros nos tomam pelo pescoço e rugem que não somos bons o suficiente para um mundo com expectativas que carregamos como cintas de cilício amarradas na alma. Nestas horas o mundo não nos sorri e o espelho continua vazio. As palavras são ferro em brasa nas mãos daqueles que convergem para as obrigações de uma sociedade em que o “inadequado” é estigmatizado, posto em uma cruz dourada e exposto em todo sua intimidade para que não esqueça os dogmas aos quais não se curvou.
O inadequado vê com pena a si mesmo, não por auto-piedade, mas porque reconhece sua incapacidade e dificuldade em não ser único, quando tudo a sua volta cobra pelo padrão. O inadequado não é e nunca será parte das “cool kids” que se encaixam, ele será aquele que assiste ao fundo com um livro escondendo o rosto e também o coração. Ele pensa nas vantagens que teria em ser invisível ao invés de alguém que um dia foi visto, não por suas qualidades, mas por aquilo que tem vergonha e por aquilo que lhe dizem, e ele acredita, ser errado.
Assim como o reflexo desaparece, desaparece também o amor, o brilho nos olhos, a força de espírito e os sorrisos, que são trocados por uma taça de Martini na mão direita, um Gudang na mão esquerda, um sorriso sarcástico curvado para direita e um surrado Crime e Castigo sobre a mesa que lhe faz achar que a única pessoa que lhe entenderia e poderia lhe acompanhar no Martini é Dostoiévski.
