Os minutos

Naquele jardim rodeado de flores, repousa Virginia, profundamente adormecida na relva, molhada por seu pranto. Tem o braço recurvado sobre a testa, a outra mão apoiada contra o peito, como para comprimir os batimentos de um coração fechado a quaisquer confidências, oprimido pelo pesado fardo do descontentamento. Cansada da vida, embrulhada em um espesso casaco de linho castanho desatentamente abotoado, desfaz-se de um amor que não tinha sido para ela mais que serragem e cinzas.

O sol delicado de abril iluminava o amontoado de papéis espalhados no casarão enterrado no oeste da enfadonha Sussex, enquanto Virginia descrevia absorta em seus desvarios poéticos as nuances da efêmera natureza humana. De vez em quando, uma voz chamava pelo seu nome, quebrando o silêncio que ela tanto necessitava e que tanto a amargurava. Os clamores de seu marido Leonard para que saísse de casa e aproveitasse o calor do dia e suas vantagens, não surtiam efeito algum. As palavras se dissolviam na fumaça de cada nova baforada de sua cigarrilha.

Naquela manhã, uma mão tocou seus ombros fazendo com que seus pulmões inchassem e esvaziassem pesadamente, levantando seus olhos apáticos que reluziriam ao ver aquelas formas que combinavam ao mesmo tempo a força de um homem e a graça de uma mulher. Leonard, queria apresentar-lhe os novos vizinhos, o senhor Nicolson e a senhora West.

Continue com os olhos bem fechados, Virginia! Permita que a massa prateada das nuvens desça da altura dos incontáveis sonhos de fuga da tua existência solitária e enevoe os lábios para que não tornes a pronunciar o nome de tal criatura novamente:

“Vita Sackville-West, aquela que inclina-se como o Diabo no portão, e sorri quando as crianças choram”. “Virginia Woolf, aquela com o estranho poder de vibrar os nervos da gente, como se fossem cordas”, retrucaram-se. E sorriram maravilhadas por dividir o mesmo tempo e espaço, pisando em folhas secas como se pisassem em ovos.

Enquanto Leonard e Harold sentados sob os pinheiros dividiam a fumaça dos cachimbos e criticavam os erros gramaticais dos novos escritores, suas mulheres se distanciaram.

O senhor Nicolson não aprecia muito tais passeios, ainda mais se tratando do meu jardim; ele insiste que desperdiço muito tempo por lá, comentou Vita. Ah, os homens, por vez, não tem a sensibilidade da apreciação das flores, a não ser que estejam em dívida com sua esposa ou para levá-las ao seu túmulo acompanhado pela substituta, ironizou Virginia. “Venha, quero te mostrar!”, disse a paisagista empolgada pegando a escritora pela mão.

Os vários tons de verde e terra, o âmbar das asas das borboletas, os raios furta-cores dos beija-flores e os outros pássaros cuidadosamente construindo seus ninhos, tocaram Virginia que há muito tempo não sentira o frescor de um dia de primavera. Por isso, durante os dias e semanas seguintes, elas se encontravam no viridário para escrever, descansar e cuidar das plantas. A conversa era amena e a prova era que ambas não se importavam que o silêncio imperasse. A aproximação e admiração mútua brotava e florescia naquela​ terra fértil.

“Não te mexas”, disse Vita. “Por quê?” Perguntou a escritora, imóvel. Porque seu perfil assimétrico e longilíneo é tão magnífico quanto uma pintura realista para os meus olhos!

Continue assim, Virginia. Não sabes o que te espera. Apenas imagine que as águas geladas do rio te tomam e te afundam com o peso de tuas dores e das pedras nos bolsos do teu casaco; te sufocam!

Enquanto ela permanecia ali, Vita, com as mãos sob a mandíbula e empurrando suavemente o queixo para cima, trouxe seu olhar para junto ao dela. Os lábios se tocaram e umedeceram todos os frisos da carne tornando aquele coração antes frio e nebuloso, agora iluminado e otimista. “Você destruiu minha solidão”, sussurrou Virginia. “E eu, percebo que um poema é feito com o som da tua voz”, declamou Vita, deslizando os dedos que desabotoavam as costas intocadas da escritora. O poder feminino multiplicado por dois e somado à força de todas as subjeções que pairavam agora no ar, faziam balançar as folhas e galhos ao redor.

E, assim, como no Éden, mordeste a maçã. Como a mulher e a serpente, te desfizestes. Agora, caída, dormente e mortalmente ferida, continues aí. Fostes avisada de que o pecador é punido; que o pecado de amar deveria permanecer oprimido.

Enquanto afiavas os minutos à espera de tua amante, respirando o ar que entrava e saía desesperadamente de tuas narinas, sonhavas que o amor tornar-se-ia palpável ao ponto de espremê-lo entre as mãos e deixá-lo escorrer pelos dedos. Mas, a amada que te despira e te arrebatara, no ápice de teus sentimentos, distanciou-se como um animal selvagem que não se domestica e volta assustado rangendo os dentes para o mato de onde saira, sem perguntar-lhe ao menos sobre teu sofrimento.

Naquele jardim rodeado de flores, repousa Virginia, profundamente adormecida na relva, molhada pelo seu pranto.