Aspirador de pó, música paraense e criatividade

Eu lembro da época que saber falar inglês era “o diferencial” na carreira profissional de qualquer pessoa. Se você quisesse um emprego melhor, ou a oportunidade de trabalhar em uma grande empresa multinacional, você tinha que saber falar inglês. E pra conseguir isso, você só precisava se matricular em um curso de inglês. Com esforço e dedicação, em apenas alguns anos você já conseguia navegar no mundo business.
Hoje em dia sabemos que falar inglês não é mais um diferencial. É uma obrigação. Em tempos de start-ups, ciência e tecnologia, o diferencial é ser criativo e inovador. No entanto, diferentemente da tarefa de “aprender inglês”, a tarefa de “ser criativo” é um pouco mais obscura. Em outras palavras, a maioria das empresas exige criatividade de seus funcionários, mas a verdade é que pouca gente sabe o que é de fato ser criativo. Tem como aprender a ser criativo, ou criatividade é uma capacidade que a pessoa já nasce com ela? Se criatividade é uma coisa que a gente pode aprender, por onde devemos começar? Existe curso pra aprender a ser criativo?
Pra começar, a noção de criatividade do senso comum é um pouco torta. De acordo com o senso comum, uma pessoa criativa e inovadora é aquela que tem uma idéia que ninguém teve antes, ou que inventa algum produto ou serviço que ninguém pensou antes. Uma análise mais cuidadosa da mente das pessoas que julgamos criativas mostra um padrão um pouco diferente. Para ilustrar essa diferença, vou usar um exemplo que o professor Art Markman conta no seu livro Smart Thinking.
No final dos anos 70, James Dyson percebeu que toda vez que ele usava um aspirador de pó, ele tinha que parar no meio do processo de aspiração para esvaziar o recipiente onde a poeira ficava acumulada. E isso era chato. Ele percebeu que quando esse recipiente estava muito cheio, o poder de sucção do aspirador de pó diminuia. Ele então percebeu que serrarias industriais usavam um mecanismo conhecido como ciclone industrial que tinha como objetivo aspirar a serragem do chão. E esses ciclones industriais faziam isso sem ter um recipiente gigante pra sugar essa serragem. James Dyson então resolveu utilizar essa mesma ideia dentro de um aspirador de pó (um mini ciclone industrial) e com isso ele tem hoje seu próprio negócio que tem um valor estimado em 4.9 billhões de dólares.
Notem que Dyson não teve uma ideia que ninguém teve antes. Ele simplesmente reutilizou uma ideia já existente, mas que fazia parte de um outro domínio. Para o domínio em que Dyson atuava, essa solução que já existia foi uma solução criativa.
Criatividade não consiste em ter ideias que ninguém teve antes. Isso é só parte do conceito. Criatividade consiste na reutilização de ideias de maneira nova, cruzando domínios do conhecimento. Pra ser capaz de fazer isso, você precisa sim ter conhecimentos diversos, de áreas diferentes e não apenas da sua área específica de atuação. O famoso “pensar fora da caixa” é isso. Curiosidade é a característica número 1 de pessoas criativas. Quando elas decidem aprender algo novo, elas não necessariamente aprendem esse algo com o intuito de utilizar esse conhecimento no futuro. Pessoas criativas (e curiosas) aprendem por aprender. É aquele famoso “só pra saber mesmo”.
Mas para ser criativo basta saber um tanto de coisa sobre um tanto de área diferente? Obviamente não. Para ser criativo, é preciso mudar o mindset do que é ter conhecimento. É necessário quebrar as barreiras que artificialmente dividem as áreas do conhecimento. Mentes pouco criativas geralmente acham estranho que um físico se interesse por literatura. E acham ainda mais estranho quando um psicólogo fala de matemática e programação.
No entanto, diversas pesquisas mostram que o cerne do pensamento criativo está na capacidade de pensar analogicamente (i.e., saber fazer analogias entre áreas do conhecimento distintas). Pense comigo: a nossa mente é uma só. A mesma estrutura mental que pensou nas teorias psicológicas ou que sistematizou as leis da física, é a mesma estrutura mental que criou Mrs. Dalloway ou compôs João e Maria. Pessoas criativas entendem isso e, consequentemente, conseguem pensar em soluções abrangentes e holísticas.
Promover pensamento criativo é extremamente complexo, mas é possível começar através da promoção da busca de conhecimento. Conhecimento pelo conhecimento, e não conhecimento para produzir alguma coisa. Se você é um gestor de uma empresa de tecnologia, ofereça cursos de Design Thinking para desenvolvedores e engenheiros. Ofereça cursos básicos de programação para os designers e pesquisadores de usabilidade. Se você é alguém das ciências humanas, se aventure pelas ciências exatas. Leia sobre física, química e biologia. Se você é de biológicas, leia sobre tecnologia e sistemas operacionais. Leia um livro de poesia, ouça o Nerdologia e escute música paraense.
Tudo isso pode parecer “inútil” no começo, mas uma dia você vai conseguir perceber que esse nó na garganta que você sente quando ouve Negro Sol é resultado de uma reação química que ocorre no seu sistema límbico e que pra eliminar essa sensação, uma coisa que você pode fazer é se engajar em trabalho voluntário. Isso sim é uma forma criativa de pensar no mundo.