Olha que coincidência!

Eu perdi, recentemente, uma pessoa muito importante na minha vida. E como é de se esperar, quando se perde alguém que a gente gosta muito, a gente acaba passando muito tempo pensando na pessoa. O mais interessante é que, coincidentemente, tudo a sua volta parece estar relacionado a essa pessoa. Por exemplo, eu fui ao dentista e a recepcionista tinha o mesmo nome da pessoa. Seria o universo conspirando contra mim?

É óbvio que essa é uma pergunta retórica. O universo não só não conspira contra a gente, como ele nem liga pra nossa existência. Mas de onde vem essa fascinação que temos por coincidências? Por que sempre percebemos essas co-incidências como sendo algo tão peculiar que acabamos atribuindo a elas uma causa especial (i.e., só pode ser o universo)?

Pra entender isso, é preciso saber duas coisas básicas sobre a cognição humana:

Nossa memória está intimamente ligada ao nosso sistema atencional: Quando estamos com o nosso foco de atenção voltado para algo específico, o nosso sistema cognitivo "pré-ativa" tudo aquilo que está diretamente relacionado a esse algo. Deixa eu dar um exemplo: se você estiver dirigindo por uma estrada que nunca dirigiu antes, seu foco de atenção estará na estrada. Seu sistema cognitivo vai "pré-ativar" coisas tipo placa de trânsito, sinais de trânsito, pontos de referência, etc. E ele faz isso para facilitar que sua atenção se volte rapidamente para esses itens e não para coisas não relacionadas ao trajeto (ex.: a cor do esmalte da pessoa que está sentada ao seu lado).

No entanto, a nossa memória tende a registrar aquilo que se destaca de alguma forma. Por exemplo, se você tiver um pressentimento que alguém morreu e, ao ligar pra essa pessoa, você descobre que ela não morreu, sua memória vai tratar isso como normal e não vai registrar. A partir do momento que o seu pressentimento sobre a morte co-ocorre com a morte de fato de alguém, sua memória vai registrar isso como algo especial, saliente e improvável. Mas por que?

Seres humanos são péssimos no processamento de probabilidades: No decorrer de uma semana, acontecem milhares de coisas na nossa vida. Milhares. Algumas mais previsíveis e prováveis que outras. No entanto, não conseguimos perceber ou entender essa probabilidade que subjaz os acontecimentos do dia-a-dia. Existem vários exemplos que mostram como somos ruins no que diz respeito a pensar intuitivamente sobre probabilidades. O mais clássico deles talvez seja o Paradoxo de Monty Hall. Em termos bem gerais, o paradoxo é assim: imagina que eu te apresente três caixas (A, B e C). Dentro de uma delas tem um celular Samsung Galaxy S8 no valor R$ 4.000,00 e dentro das outras duas tem somente um panfleto com a foto do Donald Trump (vou deixar você estimar o valor desse panfleto).

Daí eu te peço pra escolher uma caixa. O que estiver dentro da caixa será seu. Você escolhe uma caixa (ex. A). Antes de eu te mostrar o que tem dentro da caixa que você escolheu, eu vou te mostrar o que tem dentro de uma das duas caixas que você não escolheu (ex. C). Tem uma foto do Trump dentro dela. Depois de fazer isso, eu te pergunto: você quer continuar com a sua escolha original (a caixa A), ou você quer trocar e escolher a outra caixa que sobrou (a caixa B)? O que você faria? Trocaria para a caixa B ou continuaria com a caixa A?

A maioria das pessoas seguem a intuição que diz: "não faz diferença se eu trocar de caixa. Só tem duas, logo 50% de chance pra cada uma". No entanto, se você trocar, você praticamente dobra a sua chance de ganhar o celular de R$ 4.000,00 (dê uma olhada aqui se quiser entender o porquê).

O que é importante levar em consideração aqui é que o nosso processo de tomada de decisão necessariamente mistura razão e emoção/intuição. Sabe quando a gente "sente" que é o certo fazer alguma coisa? Esse "sente" é a parte intuitiva que permeia o nosso processo de tomada de decisão. O nosso sistema analítico/racional está intimamente ligado ao nosso sistema emocional. E essa ligação é tão forte que na maioria das vezes não conseguimos separar um do outro quando queremos.

Uma consequência clara disso é que o nosso sistema cognitivo acaba tornando saliente (por intuição) aquilo que a gente não esperava que fosse acontecer, mesmo não percebendo que as vezes o nosso sistema está "pré-ativado" para reparar certas coisas e outras não. No exemplo do dentista, como eu estava pensando na pessoa que eu perdi, meu sistema cognitivo já estava "pré-ativado" a notar tudo aquilo relacionado a essa pessoa (o nome, o jeito, seus gostos, suas manias, etc). Se nesse dia eu não estivesse pensando nela, mas estivesse pensando em bolo de bolacha e não visse nenhum bolo de bolacha, o meu sistema cognitivo não iria falar "olha que legal! Você não viu bolo de bolacha apesar de estar pensando em bolo de bolacha". Só vai pra memória (i.e., se torna saliente) aquilo que a gente vê mas não esperava ver (e não aquilo que a gente não vê quando se esperava ver).

Coincidentemente ou não, a minha última postagem aqui foi no dia 11 de maio. Hoje é dia 22 de junho. Sabe o que isso quer dizer? Isso mesmo. Nada!