Por que a Ciência não convence ninguém?

Fatos são fatos. Aquecimento global é real e vacina não causa autismo. A ciência está aí pra mostrar isso. Ainda assim, existem pessoas que acreditam que aquecimento global é um exagero, e que vacinas causam autismo. A nossa tendência é achar que essas pessoas são burras, ignorantes e idiotas. Elas deveriam apenas aceitar os fatos cientificamente comprovados como verdade e pronto.

No entanto, isso não acontece. É fato. Apenas apresentar dados e falar que é ciência não convence ninguém a mudar de ideia. É só passar 20 minutos no Facebook pra ver como isso acontece. Se a mãe de uma criança de 2 anos acredita que uma vacina de gripe pode deixar o filho dela autista, não vai ser um artigo científico que vai convencê-la de que ela não deveria pensar assim (apesar de a gente achar que deveria ser assim).

Mas por que isso acontece? Por que até mesmo com dados não conseguimos mudar a opinião das pessoas? A mente humana é muito complexa. Se queremos convencer alguém a fazer alguma coisa, é preciso entender um pouco como a mente funciona. Aqui estão alguns fatos sobre a mente humana que pode te ajudar a entender como essa danadinha é complicada.

Todos nós temos o famoso viés confirmatório: implicitamente, nós temos uma tendência (e até mesmo uma certa facilidade) de processar dados e informações que confirmam aquilo que já acreditamos. E consequentemente, não processamos tão bem assim os dados e informações que contradizem aquilo que já acreditamos. Se você acredita que seu marido ou esposa te traiu, todo e qualquer fato que comprova a não traição vai ser naturalmente descartado pelo seu sistema cognitivo.

Nosso sistema cognitivo não está preparado para tomar decisões difíceis: sempre que temos que tomar alguma decisão que envolve um nível de complexidade maior, nosso sistema cognitivo vai "procrastinar" e inventar um monte de desculpas para não ter que lidar com essa decisão difícil. Sabe quando você tem que estudar pra prova de Bioquímica mas ao invés disso você começa a fazer um monte de coisa "importante", tipo organizar as toalhas na gaveta da cômoda, colocar as séries do Netflix em dia ou organizar os livros didáticos que você usou no ensino médio? Pois então. Tudo isso pra evitar enfrentar aquele capítulo sobre a hidrólise alcalina de um éster. Nosso cérebro é assim também. Decidir o que fazer para contribuir com o desaquecimento global é difícil pois envolve mudanças de estilo de vida, envolve abrir mão de algumas coisas, etc. Logo o cérebro começa a inventar desculpas pra não ter que lidar com essa decisão. Uma delas é colocar em cheque a veracidade e credibilidade das pesquisas que mostram que aquecimento global é real.

Dissonância cognitiva é foda: A gente gosta de ser coerente o tempo todo. Mesmo que seja uma coerência só cognitiva. E isso pode causar padrões de comportamento um tanto bizarros. Um exemplo: imagina que você esteja em um relacionamento que não está muito bom. No fundo, você quer mesmo é terminar. Mas você sabe que a outra pessoa gosta muito de você e que se você terminar, ela vai sofrer demais. Como você tem a crença de que só pessoas más causam sofrimento de outras pessoas, e também tem a crença de que você não é uma pessoa má, você tem agora um impasse cognitivo: não sou uma pessoa má, mas quero fazer uma coisa que pode me fazer parecer uma pessoa má. O seu sistema cognitivo vai tentar "corrigir" esse impasse criando situações que te permitam terminar com a pessoa e não ser uma pessoa má ao mesmo tempo. Ele vai começar, por exemplo, a ver problemas em coisas que não deveriam ser problemas (e.g., você vai brigar com a pessoa por que ela não te respondeu no WhatsApp depois de visualizar a sua mensagem e vai usar isso como justificativa pra terminar o relacionamento).

Uma boa mãe é aquela que protege o filho e não coloca a sua saúde em risco. Se ela não tem conhecimento suficiente da ciência que explica que vacinas não causam autismo, ela vê a vacina como um risco. Eis um impasse cognitivo que, muitas vezes, é resolvido com argumentos que conciliam ser boa mãe e não vacinar a criança.

As emoções têm um papel importante na nossa tomada de decisão: quando minha mãe queria que eu não fizesse alguma coisa, ela logo lançava uma ameaça que me deixava com medo (❤ se você sair na rua, eu quebro suas pernas ❤). Apesar de não saber disso explicitamente, mamãe já manjava dos paranauê cognitivo. Medo não é uma boa estratégia pra convencer alguém a fazer alguma coisa, mas serve muito bem pra fazer com que alguém não faça alguma coisa. O discurso das pessoas que acreditam que vacinas causam autismo geralmente é um discurso que amedronta (ex.: quando Donald Trump diz que a dose de uma vacina é dose de cavalo).

Mas como convencer alguém a fazer alguma coisa? Essa não é uma tarefa fácil. Algumas pesquisas sugerem que o importante é trazer a pessoa que você quer convencer para o mesmo estado mental que você. Por exemplo, se você está muito triste e eu te conto uma piada, provavelmente você não vai achar essa piada muito engraçada, mas se antes de eu contar essa piada, eu fizer alguma coisa pra te deixar mais feliz, certamente a maneira como você vai processar essa piada será diferente. O problema do discurso científico é que, geralmente, os cientistas falam de um lugar diferente da audiência que esperam atingir. Isso, em si, pode ser um problema.

Nesse sentido, se os cientistas querem ter uma chance de convencer as pessoas que não sacam nada de ciência sobre a veracidade e credibilidade dos fatos científicos é essencial que todos eles desçam do pedestal da arrogância e falem do mesmo lugar das pessoas que eles querem convencer. Algumas pesquisas chegam até a sugerir que quando você coloca a sua audiência no mesmo estado mental que você, até mesmo as atividades cerebrais (áreas do cérebro que são ativadas durante a fala) são as mesmas entre você e sua audiência, sugerindo uma sincronia de ideias e processamento. Esse tipo de empatia cognitiva faz com que o processamento dos dados que você apresenta seja mais fácil e haja uma maior probabilidade de impacto na opinião das outras pessoas.