Seja racional com seus sentimentos

Quando eu era mais novo, eu tinha essa ideia de que eu tinha que ser racional o tempo todo. Pra mim, emoções e sentimentos eram fraquezas que só atrapalhavam a maneira mais perfeira de pensar: a razão. E isso se manifestava de várias maneiras na minha vida. Por exemplo, se eu gostasse de alguém, eu nunca demonstraria isso, pois pessoas perfeitas não permitem que sentimentos confundam a sua razão. Todas as decisões que eu tinha que tomar precisavam ser baseadas em algum tipo de processo racional e analítico. Longe de mim dizer que eu decidi alguma coisa por que eu tive um feeling sobre aquela decisão. A gente cresce com essa ideia de que ser racional é sempre melhor e vai sempre nos trazer o melhor resultado em qualquer coisa na vida.

Existem dois problemas aí. O primeiro é que somos seres sociais. O nosso bem-estar está diretamente relacionado à maneira como nos inserimos nos grupos a que pertencemos. Várias pesquisas, por exemplo, mostram que isolamento social e confinamento têm consequências sérias na nossa saúde mental. As emoções e sentimentos são importantes pois servem para calibrar e ajustar as nossas interações com as pessoas. Nós utilizamos as nossas emoções e os nossos sentimentos para alinhar expectativas e ficar em sintonia com as pessoas com as quais interagimos.

Por exemplo, se uma pessoa está triste e vem falar com você, e tudo que você consegue fazer é evidenciar para essa pessoa que, racionalmente, ela está errada, você não está sendo racional. Está sendo babaca mesmo. É como se uma criança estivesse correndo, caísse e quebrasse o braço, e você ao invés de socorrê-la, começasse a dar lição de moral sobre como é importante tomar cuidado quando estiver correndo. Ensinar é algo racional, mas nesse momento é pura babaquice mesmo. Em termos gerais, pessoas que agem assim são pessoas que não têm o que chamamos de empatia. Pessoas que tentam ser racionais o tempo inteiro tendem a não demonstrar muita empatia.

Empatia é importante. A gente deve entender empatia como uma espécie de chave que usamos para entrar em áreas que não nos pertencem, mas que queremos conhecer e talvez modificar. Se você quer ajudar alguém racionalmente, você precisar entrar no espaço dessa pessoa e pra isso você precisa ser empático. E pra ser empático, você precisa entender e demonstrar suas emoções e sentimentos.

O segundo problema em ser racional o tempo todo é que nossa mente simplesmente não funciona dessa maneira. A gente tem a ilusão de que nossas decisões são deliberadas e racionais. No entanto, isso raramente acontece. Raramente temos acesso a todo tipo de informação necessária pra tomar alguma decisão de maneira racional. E mesmo se tivermos acesso a muitas informações, elas geralmente interagem de maneira tão complexa que nossa cognição simplesmente não consegue entender e manipular todas elas ao mesmo tempo.

Mas ainda assim, nossa cognição consegue sentir toda essa complexidade. E isso é o que chamamos de feeling. Utilizar esse feeling pra decidir alguma coisa é normal. Profissionais fazem isso o tempo todo. Mas a nossa obsessão pela razão faz com que, no final das contas, criemos motivos racionais para justificar toda decisão que tomamos.

Qualquer tipo de relacionamento saudável, seja de amizade ou amoroso, nasce de uma troca constante e equilibrada entre razão e emoção. Se você é uma pessoa extremamente emotiva, você certamente passa uma imagem de uma pessoa instável (nossas emoções são instáveis). Se você é uma pessoa extremente racional, você vai passar uma imagem de uma pessoa insensível que não se importa com os sentimentos das pessoas. Existe um motivo pelo qual nosso cérebro evoluiu com a capacidade de pensar racionalmente, mas também de processar emoções e sentimentos. Favorecer só uma dessas capacidades é o mesmo que se tornar um ser humano muito pequeno e limitado.

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