Para ler a Bíblia — 2 — Como usar uma tradução?

Uma boa tradução é uma ferramenta básica para qualquer pessoa que deseje começar estudos mais aprofundados da Bíblia. Há professores que acreditam que quem deseja ter acesso as escrituras com maior exatidão é preciso ir aos manuscritos em grego, hebraico e aramaico. Contudo esta consulta pode ser razoavelmente auxiliada por uma tradução de qualidade, que possibilite ao estudioso ir aos textos nos idiomas originais apenas em busca de palavras específicas.

Os estudiosos Gordon Fee e Douglas Stuart, autores do livro Entendes o que lês?, que fundamenta esta série, acreditam que estudar a partir de uma [boa] tradução não é algo ruim. É algo, na verdade, inevitável, mas temos de ter consciência que uma tradução é sempre uma interpretação.

Isto quer dizer que tradutores fazem escolhas para expressar as ideias originais nos textos bíblicos. Se usarmos apenas uma tradução corremos o risco de ficar reféns de escolhas exegéticas de outras pessoas.

(Se você perdeu, confira o primeiro texto da série: Para ler a Bíblia — 1)

Neste artigo, enumeraremos algumas das diretrizes dos dois autores sobre a questão da tradução do texto bíblico. Ao final, esperamos que você tenha, no mínimo, as informações básicas antes de comprar a sua próxima bíblia para estudar. Vamos aos pontos:

UMA BOA TRADUÇÃO: FERRAMENTA BÁSICA

1. Devemos estar cientes de que só há uma interpretação para um texto, mas as diversas traduções não deixam isso claro.

2. Traduções trazem opções exegéticas — ou seja, em algum momento, o tradutor do texto bíblico teve de escolher uma palavra em vez de outra.

3. É sempre importante ter uma boa tradução como base para memorizar, mas para estudar é preciso ter várias opções de tradução.

4. É importante ter traduções com pontos divergentes. As diferenças geralmente determinam quais são as passagens que expressam dificuldades exegéticas.

Teoria da tradução

5. Dois tipos de traduções: de caráter textual e de caráter linguístico.

6. Textual: preocupação está na busca de se manter mais próximo possível do texto original, como foi escrito pelo autor);

7. Noções de crítica textual:

a) A crítica textual é uma ciência que trabalha com um controle rigoroso. É necessário fazer escolhas textuais o que para tal se segue algumas evidências: evidência externa (a natureza e a qualidade dos manuscritos) e a evidência interna (ex: os tipos de erros que os copistas estavam sujeitos). Há divergências entre tradutores em alguns casos.

8. A combinação de uma forte evidência externa com uma forte evidência interna deve ser o principal critério para resolver escolhas de interpretação; o problema é quando as duas evidências parecem estar em conflito.

9. Os tradutores descobrem as variantes e analisam o comportamento dos copistas, analisando vocabulário e estilo.

10. A crítica textual não é uma ciência exata, pois ela lida com muitas variáveis, mas não se precisa ficar tenso, caro leitor, as variantes apesar de serem muitas não colocam em cheque a veracidade do texto sagrado.

11. Às vezes, uma letra pode fazer toda a diferença de interpretação; a escolha do texto correto tem a ver com o conteúdo — ou seja, temos de estar atento ao contexto. É como uma atividade de preencher a lacuna na frase “No princípio, era ______ (o verbo ou a palavra)…”.

12. Estudos de tradução (termos):

- Língua-fonte: língua em que está o texto a ser traduzido (no caso da bíblia, hebraico, aramaico e grego);

- Língua-alvo: língua para qual o texto será traduzido;

- Distanciamento histórico: diz respeito às diferenças que existem entre a língua-fonte e a língua-alvo (palavras, gramáticas, cultura, história etc);

- Equivalência formal: Manter o texto traduzido bem próximo da forma do idioma original (palavras, gramática etc) sem perder o sentido e a verdade do texto — base da chamada tradução literal;

- Equivalência funcional: Manter o significado traduzindo de acordo com as expressões da língua-alvo. Conduzida por uma equivalência dinâmica: atualiza linguagem, gramática e estilo.

- Tradução livre: tentativa de traduzir as ideias de uma língua para ideias para a outra língua; até que ponto o tradutor quer preencher a lacuna entre as duas línguas: tendência do texto mais moderno.

13. Ex: O tradutor vai ter de escolher por exemplo entre traduzir “Ósculo santo” ou “aperto de mão fraterno”

14. A melhor tradução bíblica, segundo os autores, é aquela que permanecer fiel o quanto possível à língua-alvo e à língua-fonte, priorizando a última.

15. Não desprezar o significado e a forma do termo a ser traduzido da língua fonte mesmo que ele não tenha tradução direta para a língua-alvo.

16. A tradução literal pode ser uma segunda-fonte a ser consultada para dar a certeza dos termos no hebraico e no grego.

17. A tradução livre pode estimular o pensamento sobre o significado do texto.

18. Sugestão do autor: utilizar a versão NVI (tradução funcional) para estudo e leitura.

19. Problemas de cada tipo de tradução:

a) Tradução Literal: Fica distante dos pontos onde há erros de linguagem e gramática; torna a língua ambígua em alguns trechos nos quais o significado está claro.

b) Tradução livre: Modernização excessiva; impede o leitor de ter acesso a outras possíveis opções exegéticas. Como evitar uma tradução livre demais? Checar as passagens que lhes chamar mais atenção e verificar se contradizem uma boa tradução ou um bom comentário exegético.

c) Altera a estrutura do texto na língua-fonte;

20. Algumas áreas problemáticas da tradução (aconselhamos recorrer ao livro Entendes o que lês e ler devagarinho esta parte):

a) pesos, medidas e dinheiro;

b) eufemismo, em relação a sexo, higiene pessoal;

c) vocabulário: como encontrar a palavra certa é a grande dificuldade da tradução; não é só uma escolha de significados, mas uma escolha de conotações (que podem ser estranhas a língua-fonte); há diferença de significados, palavras intraduzíveis, jogos de palavras quase intraduzíveis, nuances de significados diferentes; etc

d) Jogos de palavras: abundantes nos textos poéticos, difícil tradução equivalente;

e) Gramática e sintaxes: cada língua tem sua própria estrutura gramatical (relação de ideias e palavras nas sentenças); A tradução funcional tende a usar estruturas comuns da língua-alvo.

21. Como estudar a partir de uma tradução:

a) usar várias traduções;

b) ater-se aos pontos divergentes e estudá-los profundamente;

c) checar fontes para averiguar o uso correto de um significado para tal palavra ou expressão;

d) utilizar traduções a partir da TNIV; NIV (NVI, no Brasil);

e) Preparar-se para conferir nos manuscritos originais as variantes problemáticas, consultar um bom dicionário bíblico (grande) e verificar os termos e seus significados dentro do contexto.

Até a semana que vem!


Confira o primeiro texto da série: Para ler a Bíblia — 1

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