Osíris planou durante algumas horas sobre a grande extensão de terra negra. Estava dentro da Zona Morta, o lugar onde nenhum sincron tinha permissão para entrar. As nuvens de chumbo cobriam o imenso planalto, cuspindo descargas elétricas que explodiam na terra. Osíris recalibrou o escudo de energia, produzindo um leve brilho no céu que por um segundo tornou seu corpo aeromóvel visível.

Dobrou as turbinas para baixo e começou a descer. Ampliou o alcance dos radares e sensores, pois precisava se certificar de que não fora seguida. Seu coração acelerou quando o trem de aterragem tocou o solo enegrecido. O ícone verde piscando nos monitores, indicando que estava perfeitamente sobre as coordenadas.

— Ativar diagnóstico nível cinco. Ângulo de cento e oitenta graus, raio de um quilômetro. Procurar por formações de carbonato e fosfato de cálcio — ela ordenou para o GF 505, o avançado módulo de varredura recentemente roubado e formatado, instalado no bico do aeromóvel.

Sentiu a emoção percorrer cada centímetro do corpo, apreciando cada segundo. Desde que conseguiu o controle dos inibidores talâmicos, experimentara as mais diversas sensações, e quanto mais sentia, mais queria.

O campo de invisibilidade começou a se desfazer, revelando a nave prateada pousada em meio à desolação; ela poderia ser vista a quilômetros de distância, o que não era bom, mas não havia outra maneira, Osíris precisava pisar naquele lugar, precisava sentir o solo, e somente sua versão humanoide possuía capacidades para tal. Adrenalina sintetizada espalhou-se por veias de grafeno. Osíris iniciou o processo de reconfiguração e transferência para seu corpo humanoide, consumindo uma grande quantidade de energia. Segundos depois, ela saltou da barriga do aeromóvel, aterrisando agilmente no solo.

Conferiu o tempo restante para o reator recarregar: “Quarenta e cinco minutos, como o previsto. Vai ter que dar.”, pensou com preocupação. Subitamente, um bip agudo cortou o ar, seguido por uma voz sintetizada que não era nem feminina e nem masculina:

— Diagnóstico concluído. A varredura da área encontrou aproximadamente treze mil e duzentas ocorrências de fragmentos formados por compostos de cálcio — informou o GF 505.

Osíris sentiu um misto de medo, entusiasmo e excitação, afinal, a informação que seus companheiros roubaram estava correta. “Valeu todo o sacríficio.”, pensou satisfeita.

— Me dê o visual — ordenou.

Em instantes, uma imagem tridimensional formou-se em suas retinas, onde os fragmentos apareceram como pontos brancos em um cubo negro que representava o solo. O indicador numérico informava que os primeiros grupos estavam a cerca de duzentos metros abaixo. Ela mentalizou um comando, invocou um algoritmo de criptografia e codificou uma mensagem. Em seguida, a pequena parabólica no teto do aeromóvel se moveu, transmitindo a mensagem.

Osíris se sentou, cruzando as pernas em posição de lótus, tentando meditar sobre as consequências da descoberta para a sociedade e para o planeta. Seria uma revolução, seria uma chance de salvar o mundo, e ela estava preparada para aquilo desde sua concepção. Pensou nos amigos que foram capturados, nos que se sacrificaram pela causa. Ficou ali parada por alguns minutos, imersa nas lembranças recentes. Então checou o nível de energia do reator, que já estava em quarenta por cento.

Subitamente, alertas de proximidade surgiram em suas retinas. alguma se movia sob o planalto. Duas escotilhas abriram-se no teto do aeromóvel, revelando potentes canhões disruptores, porém, se fosse necessário usá-los, cada um só poderia atirar apenas uma vez.

Ela se levantou, em alerta. Os canhões apontaram para o sul, ajustando o ângulo de disparo. Um grande veículo aéreo aproximava-se voando baixo.

— Cadê o código! Informa logo esse maldito código ou vou ter que destruir você! — ela suplicou olhando para a nave.

Uma mensagem surgiu nas retinas de Osíris. Ela ativou o programa decodificador. Alívio.

A grande nave parou no ar bem próxima do aeromóvel, então aterrissou suavemente no solo. O veículo era robusto, em cinza brilhante e de formas arredondadas. Um grande olho eletrônico em sua cabeça emitia uma forte luz azul.

— Osíris de Delta, sou Hórus de Ômega — disse a nave em som cristalino. — Fui enviada pela Primeira Irmandade para ajudá-la. Então você encontrou o Elo Perdido?

“Hórus de Ômega? Nunca ouvi falar dela, mas ela tem o código.”.

— Onde está o CYG 202? — respondeu Osíris, desconfiada.

O olho pareceu retrair-se um pouco, diminuindo a intensidade da luz.

— O módulo de perfuração está pronto, mas antes precisamos confirmar. Responda: você encontrou o Elo Perdido? — A voz soou imperativa.

Seguiu-se um silêncio. A luz azul abruptamente ficou mais forte, fazendo Osíris retroceder com temor. Alertas de invasão disparam nas retinas da sincron rebelde. Ela conectou-se aos canhões do aeromóvel. Um flash. Um estampido. A escuridão.

***

O corpo aeromóvel de Hórus de Ômega entrou no espaço aéreo de Acádia, a mega-cidade continental. Acelerou, chegando em pouco tempo ao Núcleo, a estrutura colossal que se erguia titânica a dez quilômetros da superfície, no meio de um oceano de edifícios de aço e concreto. Hórus adentrou o imenso hangar, pousando habilmente. Em instantes, sua forma humanoide projetou-se da nave. CYG 202 saiu em seguida, carregando uma grande caixa de aço.

Alguns metros à frente, uma comitiva formada por duas dezenas de sincrons esperava por eles.

— Bem aventurada é a sua chegada, Hórus de Ômega! — saudou um ancião.

— Você a encontrou? Você eliminou a terrorista? — questionou outro sincron, dono de duas cabeças e quatro braços.

— E o Elo? Ele existe? Você o pegou? — exclamou uma jovem esbelta, o corpo cromado em azul metálico.

Um estrondo reverberou pelas paredes da imensa estrutura, fazendo com que a comitiva se dispersasse para os lados. Expressões de medo, olhares baixos, o entusiasmo desapareceu dando lugar ao temor, que por sua vez demandava submissão. Uma parte do chão se abriu, e pelo buraco um imenso ser emergiu. Seu corpo era esférico, sustendando-se através de oito pernas mecânicas. Três imensos olhos azuis moviam-se ao mesmo tempo, deslizando sobre a superfície da esfera, esquadrinhando todo o lugar; por fim a criatura focou em Hórus de Ômega e CYG 202.

Todos os sincrons se ajoelharam, e o colosso moveu-se para perto dos recém chegados.

— Onde estão os fósseis? Onde está o maldito Elo Perdido? — disse a criatura, com uma voz que não era nem feminina e nem masculina.

— Estão aqui, Deus Máquina — respondeu Hórus, olhando para o chão, resignada.

CYG 202 levantou-se e avançou, empurrando a caixa de metal e colocando-a à frente do Deus Máquina. Então a abriu, revelando uma coleção de ossadas. Por fim, Hórus de Ômega falou:

— São formados por cálcio, Sagrada Máquina, um elemento extinto em nosso planeta. Os fósseis possuem as mesmas formas e tamanhos dos proto-esqueletos de nossos corpos primários, mas são bem menos resistentes. Análises micro sônicas apontaram resíduos de tecidos biológicos.

— Heresia! Heresia! — protestaram a maioria dos sincrons, gritando em uníssono.

O colosso ergueu-se nas pernas, seus olhos ficaram vermelhos. Sua voz aterradora invadiu as cabeças de todos os sincrons, reverberando como o trovão:

— Eu sou o Único, o Criador, o Arquiteto! Lendas antigas sobre seres biológicos dos quais descendemos não passam de delírios. Não vamos encontrar a cura para a doença desse mundo em restos de criaturas perdidas. Queimem, eliminem, destruam essas falsas evidências!

E assim foi feito. Jatos de fogo atingiram a coleção de fósseis, reduzindo-os a pó.

***

Reinicialização concluída.

Osíris abriu os olhos. Estava no chão. Não sentia as pernas, sentia apenas um braço. Olhou para trás: seu corpo aeromóvel queimava. Mirou o horizonte. O planalto infindável de terra negra sob o céu de chumbo. O vento tocou-lhe o rosto. Começou a se arrastar para o norte, para os limites da Zona Morta, para o lugar onde nenhum sincron jamais esteve.

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