Como fiz para me livrar de velhos e adotar novos hábitos

André Luís Alves
Aug 25, 2017 · 6 min read

Como muita gente, eu me achava como naquela música antiga cantada pela Gal Costa eu nasci assim, vou ser sempre assim… Gabrielaaaa… Mas, quanta bobagem, né? Acho que agora usei o “né?” da forma correta.

Uma das coisas que falava era que, poxa, eu até queria chegar mais cedo no trabalho, mas não conseguia, sempre me atrasava pela manhã. Nutria aquela falsa sensação de boêmio, que dormia tarde, às vezes só vendo televisão, e aí o corpo reclamava no dia seguinte e o cérebro fingia que não ouviu o celular tocar uma, duas, três, várias vezes.

Até que um dia, um dos meus muitos amigos platônicos, Leandro Karnal, num vídeo no Youtube ironizou: às vezes me perguntam como faço para ler ao menos 3 livros por semana, eu repondo que tenho uma receita mágica: eu pego um livro, me sento, e começo a ler. Funciona. Não foi exatamente isso que ele disse, o itálico foi para dar um ar de “autoridade”, mas foi parecido com isso.

Eu, que mal chego a três livros por mês, pensei: Não é que ele tem razão? Se eu quero acordar mais cedo, talvez eu devesse dormir mais cedo. E, putz, não é que funcionou direitinho? É claro que às vezes ainda perco a hora por um motivo ou outro, mas me atrasar não é mais uma constante na minha vida. E a desculpa do “eu não consigo” já não cabe mais.

Então, beleza, se você está sem tempo — ou não gostou muito do que leu até aqui, em resumo: se você quer mudar, mude! Não fique com a desculpa que você é assim e pronto e aja para mudar. Ou como já disse um ou outro monge famoso do momento: seja a mudança que você quer do mundo.

Mas eu tenho mais para falar — oooops, escrever, e convido a acompanhar a reflexão mesmo tendo sido, como num filme de suspense mal dirigido que já entrega o final de cara.

Ok, mas se você continua aqui por conta e risco, vamos lá!

Uma coisa importante que aprendi na vida é que a gente — erroneamente — assume que tem um ou outro erro que precisa ser corrigido. Ou no máximo sete. Mas como é certo que milhares de pessoas leram livros como O Segredo e Os 7 Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes e descobriram que simplesmente acreditar mais em si mesmo e ter uma rotina mais organizada não as transformaram em pessoas realmente mais felizes e bem-sucedidas.
Por outro lado, como a reportagem de capa da revista Vida Simples: abrace sua imperfeição. Mas não dizendo a si mesmo que é imutável, mas sim que tem coisas que não necessariamente você quer mudar. Sou assim e não quero mudar ao invés de sou assim e não consigo mudar.

E falo isso com alguns exemplos bem fortes da minha vida.

O que achei que não era momento — ou interesse — em mudar era a de ter um hobby coletivo. Gosto das pessoas, mas simplesmente também amo estar sozinho. A maioria dos meus hobbies são para fazer sozinho ou a dois. No máximo, três ou quatro, quando a família está completa. Eu não vejo muito como prioridade de mudar, porque é uma “imperfeição” que eu abraço. Ok?

Ok!

Mas por outro lado, eu havia falado para o meu terapeuta que eu era uma pessoa muito tímida e introspectiva. Ele disse que achava estranho, pois eu tinha uma relativa vida “social”. Como eu poderia ser tííííííimido se escolhi fazer jornalismo? Como poderia ser tão tííííííííimido se volta e meia estou a frente de um público? Como poderia ser tííííííííííímido se me expunha nas redes sociais e blogs, revelando detalhes da vida que muita gente faz de tudo para esconder?

Ele me fez perceber que, na verdade, eu havia transformado minha insegurança na minha “timidez”. E, caraca, são coisas diferentes. E me fez uma proposta de exercício bem simples. Chamar as pessoas pelo nome, pois isso geraria empatia do interlocutor. E aí duas constatações logo de cara: a) como era difícil eu chamar as pessoas pelo nome e b) como eu realmente admirava mais as pessoas que me cumprimentavam me chamando pelo nome.
O exercício está funcionando. Às vezes eu esqueço, mas me esforço e tem dias, como hoje, em que troco o nome de uma colega. E ela me corrigiu.

Antigamente seria o suficiente para eu querer entrar numa ostra e sumir no mar, que está a mais de mil quilômetros daqui. Mas hoje serviu — pelo menos para mim — o meu pedido de desculpas pela mancada. E eu me sinto muito mais como um cara da turma do fundão do que aquele nerd esquisito que todo mundo cumprimenta por educação, mas fala — não muito bem — quando ele não está. Mas claro, continuo tímido, mas sem tantos íííííííís para reforçar.

Outro hábito que mudei, quase sem querer, foi ver televisão. Fui perdendo o interesse, elencando outras prioridades e quando vi… não via mais TV. Nem aberta e nem fechada. Claro que não sou a pessoa mais radical do mundo. Ainda vejo um programa ou outro, uma reportagem pelo Youtube ou pelo site das emissoras — seja por indicação de amigos ou por necessidades profissionais. E em casos um pouco menos raro, quando estou em algum lugar em que a TV está ligada.

Mas percebi que era um hábito que eu realmente tinha detonado quando minha filha caçula certa vez perguntou o que era novela, ou como nessa semana em que ela pediu para ligar a TV e eu percebi que a bichinha estava há tempos fora da tomada.

Para ver como é

Inspirado pelo psicólogo Adam Grant, autor de Originais — como os inconformados mudam o mundo, achei interessante uma dica: tire cinco minutos do seu dia para ajudar alguém. Para mim foi relativamente fácil, pois às vezes me sinto como em uma das derradeiras músicas de Raul Seixas: O meu egoísmo é tão egoísta que o auge do meu egoísmo é querer ajudar. Não quero dizer que ajo como o escoteiro do longa de animação Up — Altas Aventuras, mas sempre que tenho oportunidade, gosto de ajudar alguém.
E caramba, isso faz bem em três sentidos. O mais óbvio, claro ajudar alguém ajuda a resolver o problema de outra pessoa. Mas também te deixa mais empático perante as pessoas a sua volta. E você se sente mais à vontade de estar com elas. E por fim, é recompensador. Faz bem para nossa “alma”, para nosso ego, para olhar no espelho “eu sou o cara”. Nem tanto, vai, mas você entendeu.

Para ir encerrando, o novo hábito que estou tentando incorporar a minha vida é o de ficar mais tempo offline. Confesso que olhava como se fossem alienígenas alguns colegas que não tem nenhuma rede social — só o whatsapp, mas não olham os status das pessoas, ou que usam uma ou outra rede, mas sem regularidade.

Não que eu admita que esteja viciado nos aparelhinhos, mas foi justamente por ver pessoas que admiro não desgrudarem do celular em momentos de lazer ou de descanso que me toquei que estava na mesma vibe do mal.
Não quero — por enquanto — chegar ao cúmulo de ficar offline durante o final de semana, ou a partir de certo horário, mas não leio mais e-mails tarde da noite e nem respondo — se não for muito urgente — mensagens pelo whatsapp que tenham a ver com trabalho.

Tenho aprendido que o mais importante da nossa vida, talvez até mais do que saber começar, é saber terminar. Com maus hábitos e com más escolhas!
Porque tem hábitos que carregamos à toa. Não porque precisemos ou imposição, mas pelo bel prazer de expor uma característica nossa que achamos relevante, mas de fato, não é.

E geralmente essa característica é a de parecer ocupado, preocupado, antenado, mas na prática, mesmo, essa característica gera mais um esgotamento mental do que a sensação de realização.

A gente trabalha, em última instância, para ter ócio. Mas, por que não se dedicar quando ele está em aí, bem ao seu lado?

)

André Luís Alves

Written by

Jornalista inquieto e cinéfilo. Escrevo por trabalho e por prazer. Autor de "Esqueça o que te disseram sobre amor e sexo"

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