Não se preocupe, ninguém é substituível!

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Se tem algo que me arrepia até a alma são os ditados. Sempre desconfio deles. As certezas lacradoras geralmente são falta de reflexão ou puro conservadorismo. Mas a gente carrega muitos deles na vida, mesmo assim.
Um deles, que ainda me lembro que ouvi da boca de um colega da adolescência era que ninguém é insubstituível. Um amigo muda de cidade, outro preenche o lugar. Nada mais certo, certo? Errado!!!

Fugimos da vida agitada da modernidade — ou da cidade, fugere urbem — desde o poeta Horácio, há 2 mil anos, mas adoramos metáforas robóticas. Substituir pessoas, como quem substitui peças de uma grande engrenagem (olha outra referência sobre a nossa mecanização da vida) é algo completamente impossível.

Cada pessoa tem uma personalidade e se relaciona com a nossa daquele momento. Nós mesmos mudamos — não só fisicamente — mas intelectualmente. Ainda bem que não sou mais aquele cara de 20 anos atrás. Ufa!

Aí, me atrevo a dizer que cada pessoa é única e cada qual com quem nos relacionamos tem um significado único em nossas vidas.

Mesmo quando falamos de colegas, amigos, familiares, amores. Um novo “melhor amigo” não vai substituir o antigo “melhor amigo”. Será outro.
A ideia de substituição pode parecer simpática a algumas pessoas mais possessivas, como se tivesse destronado o antecessor, seja num cargo, numa amizade, ou nas paixões. Eu não consigo pensar assim.

Lembro que há poucos dias conversava com alguns colegas e comentei que a mulher da minha vida conheceu uma amiga minha, com quem tive um longo relacionamento anos atrás. Alguém comentou que era bacana, porque na verdade era “só“ uma amiga.

Não!, ponderei. Não é. Nunca será! É uma amiga, sim, mas mais especial que a maioria das minhas outras amizades. E falo isso sem hipocrisia, e com a certeza que a mulher com quem vivo teve suas paixões, seus amores e que eles não são “apenas” amigos. Sempre serão “algo mais”. E que bom isso!
Ter e reconhecer esse sentimento do coração me faz me sentir mais tranquilo, inclusive. Não “tomei” o lugar de ninguém, estou conquistando o “meu” espaço.

E assim como recuso o pensamento robotizado da substituição de peças, também recuso o pensamento matemático de que somos a soma das nossas experiências. Nós somos tão mais complexos que isso que seria impossível que duas pessoas que passassem pelas mesmas experiências fossem muito parecidas por isso. Não rola!

Somos o que somos, inclassificáveis, já avisava Arnaldo Antunes quando começou sua carreira solo.

Não somos peças, não somos parte de uma equação de uns e outros. Somos o que somos, figurantes, atores secundários, ou absolutamente ninguém na vida da maioria das pessoas.

Mas, deveríamos ser — isso sim — o protagonista das nossas vidas. E assim fica a certeza de que você não substitui ninguém. E também ninguém substitui você!