O cão negro

- Você tem depressão e será preciso acompanhamento psiquiátrico. Só terapia não vai adiantar.

Ok, a fala da psicóloga foi dita de forma mais delicada, mas não foi como soou para mim na hora. O primeiro soco na cara. Era para ser terapia de casal, porque achava que o problema era o relacionamento em si. Que ousadia dizer que eu “era” o problema. Sem graça, mas com certa raiva por dentro, disse que estava aberto a aceitar que eu tivesse depressão, mas que psiquiatra estava fora de questão. Convença-me primeiro!

É claro que não precisava. Era evidente, eu desconfiava, sabia no meu íntimo. Mas queria me convencer que não. Fiquei a navegar por sites e canais do Youtube a ver quais eram os sintomas. Me identificava com quase todos. Não queria acreditar. Fiz vários testes. Caraca, em todos dava que sim. Depressão, você me tinha e eu tinha você. Não dava mais para esconder de mim mesmo.

Um estranhamento me invadiu ao perceber que todo aquele sentimento de vazio, de desânimo, de irritação em alguns momentos, de algumas dores físicas, de vontade de sumir no mundo e deixar tudo para trás eram sintomas de depressão. Muitas vezes sem forças para levantar ou ficar horas parado em frente à televisão, sem prestar atenção no que estava vendo, eram momentos de crises que vinham ficando cada vez mais frequentes e com duração cada vez maior.

Até que vi um vídeo da Organização Mundial de Saúde — OMS sobre um certo Cão Negro. Metáfora criada pelo escritor inglês Samuel Johnson no século 18 e popularizado por Winston Churchill, primeiro-ministro conservador do Reino Unido durante a II Guerra Mundial.

Foi a melhor descrição sobre a depressão que vi e entendi que eu não era um azarado no mundo, mas sim mais um dos muitos milhões de pessoas que sofrem disso. Outros milhões sofrem de outras doenças, tem outras deficiências e lidam com a vida. Porque não encarar assim? Muitos médicos e a própria OMS alertam que é uma epidemia mundial da vida pós-moderna. Ok, lá fui eu me olhar no espelho e ao invés do meu reflexo, não é que tinha um cão negro no meu lugar? Sr. Deprê, sinto muito, você vai ter que sair daí.

Passado o susto inicial e encarando de frente o problema, comecei a seguir os conselhos da psicóloga. Avaliar minha vida, anotar meus sentimentos, escrever uma “biografia” para ajudar a entender o que se passa comigo. Fui além, parei de fumar pela enésima vez (agora vai), passei a fazer exercícios (coisa que eu achava que era de gente chata e narcisista). Ir me reconhecendo foi animador.

- Sim, doutora. Vamos ao psiquiatra.

E lá vou eu tomar um remédio para tratar da depressão, com muito receio dos efeitos colaterais. Em parte, pelo estigma que esses remédios tem e como soa para muita gente palavras como “psicólogo”, “psiquiatra” e “terapeuta”. Coisa de louco. Em parte, lembrava de cenas de filmes como Réquiem para um sonho. Coisa de louco pela segunda vez. E os primeiros dias foram muito estranhos, mesmo. Me sentia meio embriagado, meio eufórico, corpo tremia, sei lá, achando que talvez não fosse dar certo.

Mas os dias foram passando e ao me olhar no espelho já comecei a me ver. Claro que ao meu lado Sr. Deprê estava lá. Passei a escrever mais, a ter mil ideias, a me inscrever em (e fazer) cursos, as pessoas ficaram mais legais, os familiares, o trabalho, tudo ficou melhor. Até minha timidez reduziu.

Semanas depois, a terapeuta me deu alta. O remédio fazendo efeito. O cachorro negro estava em seu lugar, na coleira, preso no quintal.

Engano meu. Passadas algumas semanas comecei a me sentir exagerado, como se eu, mais do que estar melhorando, estava me tornando outra pessoa. Quando vi, o cachorro tinha se desamarrado, entrou na sala, ficou aos meus pés novamente, querendo subir no meu colo.

- Ah, moleque, sai daí.

Não saiu. Me senti dividido. Uma alegria de ser uma nova pessoa, mais animada, mais engajada, mas com receio de ser efeito colateral do remédio. Resolvi trocar de psiquiatra. Ela manteve o remédio, mas recomendou outro terapeuta.

Menos arredio, lá fui eu. E poucas sessões depois outro soco na cara. Esse cão não chegou há pouco tempo. Achava que tinha vindo há uns cinco anos, quando, sem mais nem menos, eu tinha emagrecido uns 20 quilos e não tinha me dado conta.

Não, ele me acompanha há mais de 20 anos, ou toda minha vida adulta. Fez muito sentido, ao me lembrar de várias situações. Segundo soco na cara. Quantas interpretações erradas, quanto desgaste, quantas vezes magoei pessoas próximas a mim com explosões de irritação sem mais nem menos. Era como o Hulk. O monstro verde, ou o cão negro agressivo, poderia surgir a qualquer momento.

Isso me fez revisitar ainda mais minha vida, meus relacionamentos, meus trabalhos… a olhar fotos antigas e pensar: — quem é esse cara que aparece nas poucas fotos que tenho? Não sou eu. Não me reconheço nelas. Esse cachorro de fato estava lá há muito tempo.

Estou descobrindo que essa minha vitalidade é um sentimento de eu estar dizendo que eu sou dono do cachorro e não o contrário. Pela primeira vez em muito tempo estou tomando as rédeas da minha vida e não sendo levado, arrastado, dizendo sim para tudo querendo ou não e dizendo não para as coisas que tinha vontade, mas pouco me animava. Ou, que pela primeira vez em muito tempo, é o meu “eu” que está se sobressaindo e não o “eu” camuflado pela depressão.

Tenho a consciência que provavelmente o Sr. Deprê vai me acompanhar por toda a vida, andando ao meu lado, mas bonitinho, comportado, adestrado como um bom pastor alemão capa preta. E que de vez quando ele tentará tomar meu lugar novamente. Mas não vou deixar.

Escrever esse texto fluiu muito fácil, pois estou pensando nele há dias. Relatar esse processo, apesar de me aliviar, também me causa um certo constrangimento. Mas faz tempo que sentia essa necessidade de fazer isso e pronto. Não como um pedido de desculpas, mas como uma explicação. E com isso, estou sentindo aqui nos meus pés o cão me encarando novamente com um olhar triste.

Peraí, Sr. Deprê. Vou pegar sua guia. Vamos dar uma volta!

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