O segredo para ser feliz talvez seja deixar de buscar a felicidade

Por mais estranho que possa parecer, cada vez estou mais convencido do que o que estraga a gente de ser feliz é a nossa incessante busca pela felicidade. Desde criança somos envolvidos em histórias de felicidades que mesmo sabendo que não é bem assim, quando adultos contamos aos nossos filhos e netos.

Desde aqueles contos da carochinha, oooops, contos de fadas que a princesa bela, recatada e do castelo dorme um sono profundo e é acordada pelo beijo de um príncipe que tinha um cavalo branco, ou uma Ferrari vermelha, e viveram felizes para sempre. Como o para sempre é muito tempo e difícil de comprovar, a gente para a história por aí. Vai que a história dos contos de fadas se parece mais com as do Shrek que as canções açucaradas da Disney.

Mas não é só no casamento essa história de felicidade, não é? Por que não basta ser bem casado, tem que ter um bom emprego. Um bom emprego exige uma boa formação, bons estudos. Novamente, ou ralamos para caramba para chegar até onde estamos, ou contamos muito com a família que economizou até o que não tinha para que um ou outro filho ou filha chegasse lá. Diploma, canudo, bom emprego, mas… no fim do arco íris até que tinha um pote de ouro. Mas era um ouro de tolo, como na música de Raul Seixas:

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

A felicidade é um horizonte, não o prêmio

Mas este não é um texto para nos botar para baixo. Muito pelo contrário. Ouvi esses dias um palestrante que falou que a felicidade é como uma utopia e se dermos mil passos em direção a ela, ela irá se afastar mil passos também.
Achei isso bonito, mas também limitado. E por isso acho que a ideia do horizonte seja até mais completa até que a de uma utopia. O horizonte a gente vê, sabe que não existe na prática, pois por mais que a gente ande a gente não consegue alcançá-lo. Mas, acredito que poucas pessoas deixarão de concordar comigo quando eu disser que há muita alegria em contemplar o horizonte.

Não é preciso ter, chegar lá, conseguir isso, conseguir aquilo para “ser” feliz. 
É claro que não estou dizendo para passarmos a vegetar e pronto porque nada vai adiantar, como aquela hiena desenho antigo Oh, céus! Oh, vida! Oh, azar! Isso não vai dar certo! Mas também está longe de ser uma receita que você tem um bom emprego, casar com a pessoa certa, ter filhos. Claro que ter bons amigos é importante, cuidar da saúde e viajar sempre que bem planejado e dentro do orçamento. E finalmente, uma ou outra loucura porque ninguém é de ferro.

Mas se essa fórmula tão batida — e meio óbvia — é tão simples porque não funciona lá muito bem?

Lugar de ser feliz não é supermercado

Como disse Zeca Baleiro, mas de outra forma, felicidade não é um produto que a gente pega na prateleira do Extra, passa pelo caixa e leva para casa. Ao julgar assim, estamos estragando o nosso bem-estar.

Esse não é o Zeca, mas também não está muito feliz no supermercado!

Ou, de outra forma, não basta casar para viver feliz para sempre. Em mais da metade dos casos no Brasil não tem o “para sempre”. E nos outros talvez não deve ser tão fácil assim encontrar o “feliz”.

Assim como não funciona fazer a inscrição na academia e esperar para emagrecer. Sabemos que não funciona e aí desistimos. Ou fazemos a dieta maluca do ovo do momento ou a salvação da lavoura com o suco verde detox ou o sal rosa do Himalaia.

Chega bem aqui pertinho e lê baixinho que eu estou sussurrando: não vai funcionar direito.

E o que funciona?

Tem funcionado para mim algumas coisas bastantes práticas. Talvez tenha alguma utilidade para outros. A primeira é que não adianta olhar a grama do vizinho e achar que a dele é mais bonita. Ou cuide do seu jardim com o mesmo cuidado ou pare de olhar o que tem do outro lado da cerca. Às vezes funciona uma coisa, às vezes funciona outra.

Não acredite em milagres. Não estou falando do lado religioso. Estou falando do lado místico que a gente dá as coisas mesmo. Não é o que você faz ou o que você compra que te faz feliz. É saber do que você precisa.

É o acolher os outros, mas acolher também a si mesmo. Até porque vamos entender melhor as outras pessoas quando começamos a nos entender melhor. Ou quando a gente para de reclamar daquela nossa amiga hippie de boutique ou daquele marombado que vive postando selfies malhando ou dos pratos veganos. Ao invés de olhar a foto no Instagram e pensar que pessoa chata que fica postando essas bobagens talvez devêssemos pensar: se isso a faz feliz, o que me faz feliz?

O que me faz feliz é um monte de coisa, é minha família, minha profissão, meus estudos, meus amigos, meus pequenos e grandes prazeres. É o beijo de bom-dia, é buscar a filha na escola, é dar o boa-noite para o filho, é contar aquela piada que ninguém acreditou que teria coragem para os colegas, é fazer o trabalho bem-feito, é ajudar alguém, é ser ajudado, é cantar a música da Anitta que não sai da cabeça, é ver um filme legal no cinema, é botar o despertador no modo soneca para tocar novamente dez minutos depois e uma lista quase infinita que não vou colocar aqui mas você sabe muito bem do que estou falando. Ou não!

Mas TENTO não depositar em nada nem em ninguém a responsabilidade de eu estar bem comigo mesmo. Quando consigo, estou bem. Quando não consigo, tento rever meus conceitos.

Eu sou o responsável pela minha busca e pela minha realização. E a realização, muitas vezes, está em sentar e ver o pôr-do-sol, lá no horizonte.

E saber que amanhã a gente pode começar de novo!