Quatro atitudes que mudaram minha vida para melhor

Há exatamente um ano eu comecei uma revolução interna que mudou minha vida. Olhei no espelho e o cara do reflexo era alguém que queria que saísse da minha vida. Estava incomodado com a forma de como eu não estava me cuidando, a forma como estava tratando as pessoas a minha volta e como profissionalmente eu estava estagnado.
Vivia há tempos em modo stand by e tinha resposta na ponta da língua para tudo. “Não estou bravo com você, estou bravo com uma situação no trabalho”. “Estou correndo com o carro porque estamos atrasados”. “Não entreguei o relatório ainda porque o assunto é um saco”. “Não é que eu esteja bebendo muito, é que este é o meu passatempo”. “Eu fumo porque gosto, não porque seja um vício”.
Mas na minha mente era tudo diferente: todo dia pensava em parar de fumar, todo dia percebia que estava bebendo além da conta, todo dia via que andava extremamente estressado, ficando ora sem fôlego, ora com as pernas até tremendo de tanta tensão. Evitava contatos pessoais, nem atendia ao telefone e mesmo visitas a familiares eu evitava ao máximo. Não queria contato com ninguém. Só ficar na minha. Sem sair de casa, de preferência.
Mas aí…
A filha foi fazer terapia devido a suas várias alergias, que talvez tivesse também um fundo emocional, e a psicóloga dela logo sacou e conversou com minha companheira: o André tem depressão e precisa de tratamento.
Eu fiquei sabendo disso depois de umas sessões de terapia de casal. Minha cabeça deu um nó. Sabe aquela reviravolta tipo ‘O Sexto Sentido’ em que você percebe que boa parte dos problemas que eu via era porque eu estava ‘morto’?
Reconhecer
Esta talvez tenha sido um dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Reconhecer que eu tinha um problema emocional e que eu estava numa fase muito ruim. E que as desculpas, que não colavam há tempos para quem convivia comigo, também já não serviria mais para mim. E tive que reconhecer outra coisa muito difícil, principalmente para pessoas que, como eu, são um pouco orgulhosas em ostentar que gostam de fazer tudo sozinhas: eu precisava de ajuda. Não ia sair dessa bad vibe sozinho.
Um misto de alívio e vergonha tomou conta de mim. Alívio pela identificação do problema, da máscara ter caído; e vergonha pela percepção dos transtornos causados em família. Escrito assim em uma frase parece que foi até relativamente fácil. Não foi. Foi um dos grandes desafios da minha vida.
Já não tinha mais o que fazer senão ir para a segunda etapa.
Decidir
Ok, eu tenho depressão e negar isso estava prejudicando minha saúde, meu convívio social e afetando meu trabalho. Isso já era o fato. Mas reconhecer é pouco.
Decidi, para o meu próprio bem, e para o bem da família, que precisava mudar. Decidi que, ok, vou continuar com o tratamento da depressão. E decidi que ia aceitar as sugestões da psicóloga e iria trocar velhos hábitos que não faziam bem a minha saúde física e mental por algumas coisas mais práticas e saudáveis.
Como resultado, decidi parar de fumar pela enésima vez, mas agora de forma definitiva. Um ano que parei, apesar de três breves recaídas, como me ensinaram. Encarar como recaída é mais fácil do que encarar como fracasso. Com recaída a gente tem mais ânimo para recomeçar.
Decidi também que ia maneirar o consumo de cerveja como forma de lazer por outras atividades menos calóricas.
Decidi também, ao subir na balança da farmácia que registrou 90 quilos, que eu iria começar a fazer dita e exercícios de forma regular e botei como meta perder 10 quilos em ano. Mas em seis meses consegui perder 13 quilos e tenho mantido o peso nos seis meses seguintes.
Mudar

Decidir é legal. Mas tomamos decisões todos os dias, às vezes de forma errada, às vezes voltamos atrás, às vezes fingimos que esquecemos.
Mas eu decidi que permaneceria decidido. E que faria o possível para manter a decisão. Precisava fazer algumas adaptações. Raspar a cabeça foi uma forma simbólica de me despedir do antigo André. Demorei um pouco para me acostumar, mas agora não consigo me imaginar na mesma aparência calva de um ano atrás.
A mudança física para mim também foi revolucionária. Não tenho um corpo sarado — nem perto disso — mas estou bem comigo mesmo. Tenho mais energia, mais disposição para tudo — PARA TUDO MESMOOOOO — e até fiquei um pouco vaidoso. Como não tinha/tenho grana para academias comecei a fazer exercícios assistindo vídeos no Youtube e depois pelo aplicativo Nike + Training. E sigo o ritmo imposto pelo aplicativo de forma muito obediente. E como não uso equipamentos não tenho nem a desculpa de não ter como fazer. Mesmo em viagens.
Para mudar eu percebi que precisava me afastar também de pessoas e relações tóxicas. Não vou me alongar nisso — já tratei em outro texto -, mas ajuda muito pessoas que tem problemas emocionais parecidos com o meu.
Outro resultado da minha mudança foi ficar mais chato. Kkk. Peraí. Acho que estou mais legal, mas pode ser vaidade minha. Mas estou mais chato com acordos. Palavra dada é compromisso que será cumprido. Horários então, nem se fala.
Aprendi que preciso tratar os outros da mesma forma como eu preciso me tratar. Com seriedade, como prioridade. Mas também com leveza.
Permitir
E aqui entra a última lição que aprendi nesses últimos 12 meses. Permitir e se permitir. Olhar a vida com mais tranquilidade, a respeitar as vontades dos outros, a ser menos exigente comigo mesmo.
Entender que está tudo bem se der algum fora, se eu entrar no espírito da brincadeira das crianças e esquecer que já tenho uma certa idade, que se eu errar eu tenho como (tentar) corrigir. Até por que, na prática, na prática mesmo, quase ninguém repara nisso. E se repara, problema dele. Ou dela.
Também entender que posso me permitir a continuar a ter novas vivências, novas experiências, novos olhares. Ser mais ousado comigo mesmo. Continuar a continuar me conhecendo.
E me permitir ser vulnerável, como todo mundo é. Ser vulnerável e ser fraco são coisas diferentes. Permitir ser vulnerável é entender que é falho e que há dois caminhos: tentar resolver ou aceitar a falha. Às vezes dá para fazer uma coisa, às vezes, outra.
E por fim me permitir a ter os meus momentos, curtir minhas escolhas e comemorar as pequenas e as grandes conquistas. Este texto é meu presente de aniversário do início das minhas mudanças, de quando percebi que precisava cuidar da minha saúde mental.
Um ano, não de um ‘renascimento’, mas de uma nova versão de mim.
