O cinema


Hoje, enfrentei o desconhecido. Fui a um cinema qualquer, em um lugar qualquer e que poucas vezes havia ido. Pode não parecer, mas isso é sair da zona de conforto. Cada pessoa tem a sua. Sair da minha zona também consiste em ir a lugares desconhecidos com pessoas desconhecidas. Aconteceu. Como o Bauman, que infelizmente só conheci o trabalho após sua morte, afirma: vivemos tempos líquidos. As relações são líquidas, não foram feitas para durar.

Eu fui para um lugar em que meu pensamento estava divido em querer estar ali e querer estar o mais longe possível dali. Pensamentos opostos, dicotomias que, de certa forma, se completavam. Era eu, ela, minha desconhecida-conhecida-virtual e seu amigo, que eu nem sequer soube seu nome. Começamos esquisitos já. A superficialidade de um encontro, de um momento, tem-se feito presente na maior parte das relações que presencio. E é curioso, pois são as nossas vidas. É a minha vida. Eu deixei de estar o mais longe possível dali para dedicar o meu tempo às pessoas até então desconhecidas e a uma experiência de vida diferente.

Enquanto escrevo isso, penso que a experiência tenha sido inútil, mas espero reencontrar esse mesmo texto daqui há algum tempo e perceber que foi algo útil ao meu crescimento. Seguimos. Fomos comprar nossos ingressos para então adentrarmos na sala desconhecida. Em meio àquelas poltronas já surradas, havia ali, no máximo, sete pessoas. Desde a hora que cheguei, durante o momento em que o funcionário ajustava o foco na grande tela branca, até o final, em que fiquei sem reação por alguns segundos, eu era como se fosse um invasor. Era como se eu não pertencesse àquele ambiente, àquelas pessoas. Por outra, eu era um mero espectador. Não do filme, mas da minha própria vida.

Saímos do cinema e fomos para um bar logo ali pertinho. Do cinema até o bar, do bar até minha casa. Sim, eu era ninguém. Eu era um desconhecido tentando conhecer desconhecidos. Eu era um desconhecido me esforçando para mostrar o que, em algum lugar, tenho para oferecer. Um desconhecido que também buscava receber coisas em troca. Mas nessas horas, quando se é um desconhecido, o incômodo bate. Será que minha presença estava agradável? Será que gostaram de mim? Será que me tornei um incômodo? Bem, é verdade que a questão do “olhar do outro” sempre me incomodou, mas nesse caso, parece que voltei à escuridão. Digo, a escuridão como sinônimo de indiferença. Foi difícil de me imaginar olhando para um espelho e ver o meu próprio reflexo dizer “eu espero ter contribuído na vida dessas pessoas de alguma forma”. Foi difícil porque nossas relações estavam superficiais. De novo, eu me vi como um espectador.

Os relacionamentos são como uma câmera fotográfica: deixe a abertura da lente pequena e você verá que entra pouca luz. A luz é o que as pessoas têm para compartilhar. Mas hoje, parece difícil encontrar uma lente clara. É visível (palavra irônica, não?) que as lentes disponíveis no mercado da vida não permitem muita entrada de luz. A gente leva um baque, mas faz de conta que se conforma.

As pessoas têm vivido anestesiadas, mas ou não perceberam ou não querem demonstrar isso. Este último, acho que é um dos sintomas da anestesia. Nós estamos nos acostumando a viver sentimentos rasos. Você sabe do que eu estou falando: abra qualquer rede social e verá a felicidade ali estampada de diferentes maneiras, nas mais diversas fotos e descrições. É a felicidade entre família, entre amigos, até entre desconhecidos, em mostrar a fotografia da taça de vinho no final do dia de suor e afirmar que “melhor companhia que a própria não há”.

E é nesse ponto que eu chego em casa. Chego sozinho e percebo que as pessoas não estão mais comigo. Elas sumiram. Essas mesmas pessoas, que até antes eram desconhecidas, continuarão desconhecidas e poderão se tornar mais desconhecidas ainda, pois é rotineiro fingir apertar o botão delete na vida. Concluo que não tive a abertura para compartilhar a minha luz. E, sem luz, não há uma boa fotografia para se guardar.

Eu não as culpo porque me conforta (de uma maneira esquisita) poder imaginar que elas tenham pensado essas mesmas coisas de mim. Que elas também tenham chegado em suas casas, sozinhas, e pensando que quem não deu abertura para elas fui eu. Conforta porque, pensar assim, por mais torto que seja, faz com que eu imagine que, uma hora, alguém irá perceber que também está sendo espectador de si mesmo.