Barulho Culto — Quando o Metal vai à biblioteca

No Brasil, alguns estilos musicais são rotulados pejorativamente pelo público leigo. Isso acontece principalmente com a música que não costuma ser muito veiculada na mídia, como o jazz e a música erudita, vistos como elitizados e pouco acessíveis pelo público geral.

O Heavy Metal é um desses estilos, porém, o estigma do Metal é ser música de drogados, baderneiros, antirreligiosos e todo o tipo de pessoa socialmente desajustada. O termo “metaleiro”, nascido na cobertura da TV Globo do primeiro Rock In Rio (1985) é até hoje sinônimo de mau comportamento.

Porém, uma rápida pesquisa mostra que temas como literatura, história e filosofia são constantes nos trabalhos das bandas de Metal, o que gera interesse pelos assuntos para quem ouve a música e também atrai pessoas já interessadas por esses temas a conhecer o som.

Essa relação entre o conhecimento e a música faz com que o adepto do estilo seja, na verdade, praticamente o oposto do estereótipo. O público do Metal — com exceções, é claro — é no geral, bastante culto.

A intenção deste artigo é citar álbuns e músicas de artistas que lançaram trabalhos de qualidade não só musical, mas também em conteúdo lírico. Em outras palavras, música para aprender ouvindo.

História

Iron Maiden — Powerslave (1984)
“My son, ask for thyself another kingdom,
For that which I leave is to small for thee.” — Alexander The Great (Iron Maiden — Somewhere in Time, 1986)

História e guerras têm sido inspiração para o Heavy Metal desde sempre. E quando pensamos nessa inspiração é difícil não lembrar do cenário com temática egípcia e a capa do álbum Powerslave do Iron Maiden, lançado em 1984. A faixa-título fala sobre os rituais fúnebres praticados na morte de reis e nobres e narra o desejo de um faraó de voltar do mundo dos mortos para governar novamente.

No mesmo álbum, merecem destaque também Aces High, que mostra a visão de um piloto da Royal Air Force britânica durante a Batalha da Grã-Bretanha (1940), contra a Luftwaffe alemã, conflito da Segunda Guerra Mundial que foi o primeiro totalmente aéreo da história, e 2 Minutes to Midnight, uma crítica à Guerra Fria ainda durante a mesma.

Em 1996, o Angra lançou o álbum Holy Land, que tem como tema o Brasil de 1500, quando descoberto pelos portugueses. Outra banda brasileira, o Armahda, possui um álbum autointitulado lançado em 2013 em que todas as músicas falam de lendas brasileiras e períodos históricos do país.

Outros trabalhos incluem:

  • The Glorious Burden, álbum do Iced Earth de 2004 sobre a história militar dos EUA;
  • Stalingrad, álbum do Accept de 2012 sobre a Batalha de Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial;
  • Eagle Fly Free, música do Helloween no álbum Keeper of the Seven Keys Pt. II de 1988, que trata sobre a vontade de reunificação da Alemanha;
  • Hammer of the Gods, música do Saxon no álbum Call to Arms de 2011, sobre as invasões dos Vikings na Grã-Bretanha entre os séculos VIII e XI;
  • Angel of Death, música do Slayer no álbum Reign in Blood de 1986, sobre o médico nazista Josef Mengele, apelidado de “Anjo da Morte” por seus experimentos em humanos conduzidos durante a guerra;
  • Vários álbuns e músicas de bandas como Iron Maiden, Running Wild, Sabaton e outras.

Literatura

Blind Guardian — Nightfall in Middle-Earth (1998)
“ Morgoth I cried
All hope is gone, but I swear revenge
Hear my oath:
I will take part in your damned fate!”— The Curse of Fëanor (Blind Guardian — Nightfall in Middle-Earth, 1998)

Também não é incomum encontrar influências literárias em letras de Metal. Um exemplo clássico é o álbum de 1998 do Blind Guardian, Nightfall in Middle-Earth, baseado no Silmarillion, livro de J.R.R. Tolkien composto de contos sobre o início dos tempos na Terra Média, mundo onde se passa a saga O Senhor dos Anéis.

Em 2005, o Demons and Wizards — projeto paralelo do vocalista do Blind Guardian, Hansi Kürsch e do guitarrista do Iced Earth, Jon Schaffer — lança o álbum Touched By The Crimson King, com músicas baseadas na série de livros A Torre Negra, de Stephen King e obras clássicas como Moby Dick, de Herman Melville (Beneath These Waves), O Mágico de Oz, de L. Frank Baum (Wicked Witch), O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (Dorian) e novamente obras de Tolkien.

Os brasileiros do Sepultura possuem dois álbuns baseados em clássicos da literatura: Dante XXI, de 2006, sobre A Divina Comédia de Dante Alighieri e A-Lex, de 2009, baseado em Laranja Mecânica de Anthony Burgess.

Outras obras incluem:

  • Aqua, álbum do Angra de 2010, baseado na peça A Tempestade, de William Shakespeare;
  • Perry Mason, música de Ozzy Osbourne no álbum Ozzmosis de 1995, baseada no personagem de memso nome dos livros de Erle Stanley Gardner, que originou uma série de TV e filmes;
  • The Mad Arab (Time, 1994) e Kutulu (The Mad Arab Pt. 2) (Into the Unknown, 1996), músicas do Mercyful Fate baseadas no universo de H.P. Lovecraft e no fictício Livro dos Mortos (Necronomicon);
  • The Ghost (T.E. Lawrence), música do Running Wild no álbum The Brotherhood de 2002, sobre o militar britânico mais conhecido como Lawrence da Arábia e seu livro Os Sete Pilares da Sabedoria.

Filosofia

Therion — Sitra Ahra (2010)
“ Deggial tell the truth that man is but a beast
And for the reason of that man is more than God”— Deggial (Therion — Deggial, 2000)

Temas filosóficos são frequentemente abordados por bandas de Metal, principalmente abordagens sobrenaturais ou ocultistas. Nestas abordagens, nenhum artista foi mais fundo do que o Therion. A banda da Suécia escreve suas letras em parceria com o autor de livros e ocultista Thomas Karlsson, fundador da ordem esotérica Dragon Rouge.

A parceria já rendeu álbuns como Theli (1996), que trata sobre a via sinistra ou Caminho da Mão Esquerda dentro da Thelema, sistema criado por Aleister Crowley e a Ordem Hermética da Aurora Dourada (mais conhecida como GD, ou Golden Dawn) e The Secret of the Runes (2001), que trata sobre mitologia nórdica e o uso das runas do velho futhark (alfabeto rúnico) como sistema magístico.

Outro artista a incluir questões filosóficas em seu trabalho é Bruce Dickinson, tanto em sua carreira solo, como no Iron Maiden. Seu álbum Accident of Birth, de 1997 fala sobre temas como astrologia, Jesus Cristo, alquimia e tarot. Chemical Wedding (1999) é totalmente baseado nos trabalhos do poeta e pintor britânico William Blake, além da publicação anônima O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz, de 1616, considerado a base da doutrina Rosa-Cruz.

No Maiden, Bruce introduziu no álbum Seventh Son of a Seventh Son (1988) conceitos como paranormalidade, polaridade moral (bem x mal), clarividência e sonhos lúcidos.

Podemos citar também o Mercyful Fate, com seus dois primeiros álbuns, Melissa (1983) e Don’t Break the Oath (1984) como influenciados diretamente pela filosofia satanista de Anton LaVey, fundador da Church of Satan. Músicas como Black Funeral, A Dangerous Meeting, Into the Coven, Satan’s Fall e Come to the Sabbath mostram forte influência das ideias de LaVey com blasfêmias e satanismo explícito.

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