Quando a trilha não é original

Uma das partes mais importantes de uma produção cinematográfica é a trilha sonora. O uso correto de uma música dentro do contexto de um filme pode despertar diversas sensações no espectador, desde o medo até a curiosidade e o desconforto.

Muitas vezes nos deparamos com produções cuja trilha sonora inclui músicas consagradas da cultura pop, como é o caso da franquia "Guardiões da Galáxia" (Guardians of the Galaxy, 2014 e 2017), de James Gunn, com clássicos dos anos 1970 e 1980.

Mas por que exatamente os criadores e diretores optam por usar músicas já existentes em vez de uma trilha original?

Muitas vezes, a música escolhida contribui de alguma forma para a mensagem e o sentimento que determinada cena pode transmitir. Um exemplo dessa situação é a famosa "cena do túnel" em "As Vantagens de Ser Invisível" (The Perks of Being a Wallflower, 2012), de Stephen Chbosky. A personagem de Emma Watson se coloca para fora do carro com os braços abertos, ao som de "Heroes", de David Bowie. Tanto a letra como a parte instrumental da canção dialogam com a sensação de liberdade transmitida ao público.

Cena com trecho da canção Heroes, de David Bowie

Outro exemplo é a icônica cena em que Ferris Bueller (Matthew Broderick) sobe no carro alegórico e coloca o bairro inteiro para dançar com sua performance de "Twist And Shout", no filme "Curtindo a Vida Adoidado" (Ferris Bueller’s Day Off, 1986), de John Hughes. A clássica faixa dos Beatles contribui para a atmosfera de diversão e curtição que essa parte do filme busca transmitir.

Ferris Bueller Curtindo a vida adoidado

E como não lembrar da sequência de abertura de "Apocalypse Now" (1979), de Francis Ford Coppola, em que vemos horríveis imagens de guerra e devastação ao som de "The End", do The Doors? Quem conhece a faixa sabe que ela é triste, melancólica e pessimista, representando muito bem a mensagem da sequência de abertura do longa. Além disso, "The End" foi composta por Jim Morrison no mesmo contexto histórico em que o filme se passa.

A música também pode ser usada como uma forma de aliviar a tensão em uma cena forte e agressiva. Um exemplo disso pode ser visto em "Kingsman: Serviço Secreto" (Kingsman: The Secret Service, 2014), de Matthew Vaughn, na cena da luta na igreja. A canção "Free Bird" (Lynyrd Skynyrd) deixa o cenário de matança e conflito mais leve e, de certa forma, cômico.

Luta ao som de Lynyrd Skynyrd

Em todos esses contextos, a música também pode ser utilizada para dialogar e criar familiaridade com o público. Ao usar uma canção famosa e popular na trilha um filme, o diretor permite que os espectadores se identifiquem e simpatizem com aquilo que estão vendo. Na década de 1950, por exemplo, muitos cineastas passaram a utilizar a música popular, mais especificaente o rock, como uma forma de se comunicar com a juventude da época, como afirma Gabriela Ramos de Almeida em seu artigo intitulado"De O Cantor de Jazz a Easy Rider: a canção popular no cinema nas décadas de 1920 a 196".

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