
A geração que descobriu a consequência de muitas escolhas: muitas dúvidas
Será que você deveria ler este texto? Ou deveria ir fazer uma das inúmeras opções certamente melhores que essa, ou um dos milhares de textos melhores, mais interessantes e mais bem escritos que este aqui no Medium?
Bom, é uma pena que você só saberá a resposta se acabar lendo. Porque só podemos entender e perceber se uma experiência vale a pena, vivendo ela. Pensando assim, então, não seriam todas as experiências válidas de se viver? A consequência de não vivê-la é seguir a vida sem saber se deveria ter vivido. A consequência de vivê-la é o oposto: poder avaliar. Saber até mesmo tirar os poucos acertos, se todo o resto parecer negativo. Talvez um cobertor com alguns furos seja melhor do que cobertor nenhum em uma noite fria.
Acho que foi Hemingway que disse que a melhor maneira de descobrir se você pode confiar em alguém, é confiando. O único modo de tirar uma experiência da própria experiência é experienciando ela. Um conceito tão imbecil que se torna fácil de esquecer.
A questão é que, quanto mais experiências você tem, mais dúvidas se acumulam. Porque experiência gera aprendizado, e aprendizado gera questionamento. Você pode ler o poema Instantes, do Borges [EDITADO: acabo de ficar sabendo pelo leitor Paulo Cezar Mello — talvez de uma forma meio ríspida demais, hehehe, enfim — que Borges não é o autor do poema. Obrigado pela informação, Paulo!], por exemplo:
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo
Aquele maldito arrependimento póstumo. Podia ter feito tanto, mas realizou tão pouco.
Mas você pode se debruçar na parábola que Nietzsche constrói no Eterno Retorno. Se você viver sua vida e for visitado por um demônio que avisará que você viveria infinitamente a mesma vida, você viveria todos os dias sem desejar mudar um pensamento ou uma atitude sequer. Você simplesmente repetiria tudo, para todo o sempre.
"O maior dos pesos — E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem — e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira!’. — Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?‟, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela”
Estranhamente busquei essas referências das quais já havia visitado antes após assistir uma supostamente descompromissada série de humor do Netflix, escrita pelo humorista Aziz Ansari. Porque a série me fez refletir tanto sobre a maldição da escolha, que talvez essa seja mesmo a principal angústia da nossa geração. Se já passamos por uma geração que se sentia sem um propósito por estar vivendo em um mundo que abandonou a dicotomia absoluta de uma causa ou outra — da luz ou das trevas — então possivelmente vivemos não só essa carga, como também a de "mas como não sei qual causa escolher se tenho acesso a todas?".
De repente, ter acesso ao mundo todo se tornou um problema. Nos foi entregue a dádiva da escolha infinita e, como em uma boa tragédia grega, adotamos sem perceber a dúvida infinita também. Porque agora temos tantas opções e possibilidades que nem mais lembramos por quê um dia vislumbrávamos cada uma delas.
Enfim. Se você é um jovem de 20 a 30, 30 e poucos, assista Master of None. Garantia de que seu tempo será investido porque, enquanto você assiste a série e se pergunta se deveria assistir alguma outra das centenas de séries do Netflix, Aziz Ansari estará falando justamente sobre essa angustiante dúvida diretamente para você.