As crianças estão contra o sorveteiro, o sorveteiro está contra as crianças

Em um dia desproporcionalmente quente de outono, em um contexto político que passa longe da coerência, é impossível não levar em conta um dos desenhos que ensinou como poucos o poder de relativização, Hey Arnold.

Não estou de sacanagem. Se estivesse, usaria o Power Rangers como parâmetro.

Veja bem: em um episódio de calor extremo — o dia mais quente de todos os dias mostrados do universo de Hey Arnold — Gerald e Arnold saem em busca de alternativas pela cidade. O ar condicionado do cinema se rende e pifa bem no dia de maior necessidade; a piscina do clube público está lotada e “até mesmo a água está quente”, segundo um dos banhistas que encontrou um dos últimos espacinhos ali antes de Arnold e Gerald; não há mais sacos de gelo para vender nos supermercados.

Sufocadas com as altas temperaturas, as crianças se desesperam e conclamam quando passa o sorveteiro. O sorveteiro quer cobrar um pouco a mais pelo sorvete, aproveitando que a alta demanda não permitiria com que todas as crianças comprassem um picolé. Meninos e meninas então, revoltados e estressados pelo dia descomunalmente quente, se revoltam com o sorveteiro e decidem atacá-lo. O empregado se tranca no caminhão, que se rejeita a dar a partida, e as crianças tiram proveito para tentar virar o caminhão.

Arnold, até então, está contaminado pela revolta. Mas, provavelmente por estar a alguns passos atrás dos demais envolvidos fisicamente na ação, ver toda aquela grande imagem, todo aquele contexto, muda sua forma de pensar.

Ao invés de Arnold se unir com as crianças que querem derrubar o caminhão por uma atitude (de fato) mesquinha do sorveteiro, ele percebe que o grande motivador de tudo aquilo não é o sorveteiro em si. Há um contexto para resultar em tanto rebuliço, e a proposta do sorveteiro é apenas um vidro de pepino em uma relação conjugal cheia de questões obscuras não trabalhadas.

Arnold, então, faz diferente. Após seu receio em pegar o impulso inicial, acaba subindo no caminhão e pedindo para as crianças pararem. Arnold pergunta se elas não veem que o dia estressantemente quente as deixou assim. A falta de opções para lidar com um problema que não tem solução imediata e o sentimento de impotência fez com que elas se revoltassem com o sorveteiro, o mesmo a quem elas sempre recorreram em dias de paz e harmonia. Arnold diz que “o calor está fazendo isso. O calor está tornando as crianças contra o sorveteiro, e o sorveteiro contra as crianças”.

O nosso problema é que o Arnold é uma figura fictícia. Ele não existe. No entanto, se a ficção tem algum valor, acredito que seja em nos ensinar interpretação.

Nós não precisamos de um Arnold. Nós precisamos ser um pouco mais Arnold.