Não acho que tem essa de ficar elogiando e depois querer apontar erros nesse momento tão delicado.
Coelhion
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Estou postando em um perfil particular, dentro de uma rede social. Não é como se estivesse fazendo uma coluna do Zero Hora ou enviando uma carta de condolências à família anexando um questionamento sobre uma música que o cara fez. Lê quem quer, e numa boa. Eu tampouco estou desmerecendo a obra dele.

Não é “elogiar e apontar erros”. Eu gosto muito dos filmes do Woody Allen, mas não me afeiçoou muito a postura dele em relação a se casar com uma menina de 13 anos que ele criou. Acho que é importante manter uma postura crítica independente do quão apaixonado você é pela obra de alguém.

E, sim, cara, eu acho uma letra que diz ESTUPRO COM CARINHO ofensiva pra cacete. Primeiro, porque ela pode ser consumida por alguém que já foi “estuprado com carinho”. Ironicamente caímos na questão do momento delicado que você citou. Isso não quer dizer que eu não possa achar outras letras dele, como Llobo da estepe ou Ssob um céu de blues boas — e eu realmente acho elas boas letras (isso tá no texto). E, como já disse, gosto muito do Sétima Efervescência (porque estamos andando em círculos aqui, você está irritado porque seu ídolo foi questionado e eu estou repetindo que eu gosto de obras do Júpiter Maçã, mas que pra mim isso não justifica me eximir de pensar a respeito do conteúdo de uma letra que faz apologia ao estupro).

Não sei se ele de fato se arrependeu ou não. Eu questiono isso no texto. E eu torço para que sim. Se eu soubesse, ou achasse que sei, teria afirmado. Levanto a hipótese de que ele se arrependeu porque não ouvi mais letras contendo trechos como “Te estuprar / Por causa da dor”. Também não acho que o MANTO DA ARTE pode justificar se expressar de qualquer forma, acredito que todos temos responsabilidade por aquilo que dizemos. Esse tipo de mensagem se propaga, e pode ser perigoso ou pode incitar crime. Se a ONU pede para que países prevejam como crime o discurso de ódio, dentro do direito de livre expressão, porque não se pode questionar uma letra de música? Do mesmo modo, não acho produtivo um protesto feminista em que um jovem enfia um crucifixo no cu, em nome de “mostrar para os malditos religiosos que o corpo é meu e nele eu enfio até jesus cristo”. Não, não acho bacana. Isso não significa que eu não goste do feminismo, significa que acho essa atitude, que também se propõe a ser transgressora, desrespeitável. Portanto, não acho que ser transgressor é justificativa pra expressar o desejo de violência sexual, por exemplo. Seja você quem for.

Também não sei o que você quer dizer com “arte contemporânea”, embora suspeite que é um termo um tanto quanto vago. Se você puder me explicar o que é a arte contemporânea, e porque falar isso: Eu quero te estuprar / Com muito carinho / Te estuprar / Com muito cuidado / Te estuprar / Por causa da dor / Louca é tua boca / Louca é tua bundinha / Louca é tua boca / Gostosinha é arte contemporânea, seria uma boa. Pra mim isso é apologia ao crime de estupro.

Ainda sobre arte e transgressão, vejo Os Replicantes cheio de contracultura, contra o sistema, movimento punk e transgressão, mas não lembro de letras que sugerissem sexo sem consentimento, estupro ou o tipo de objetificação que a transgressão que o Flávio trazia para algumas músicas do Cascavelletes, e aparentemente largou depois, trazia.

Os pontos de “contexto era diferente” já foram levantados no texto inúmeras vezes. Mas, vamos lá falar disso de novo. Eu não uso um olhar analítico de hoje exclusivo pro Júpiter Maçã não, penso o mesmo do Isaac Asimov, por exemplo, que submetia qualquer representação de personagem do sexo feminino a um mero corpo bonito ou então ao exato oposto que se espera de uma mulher dentro do contexto machista. Em todos os casos, eram personagens geralmente submissos e pouco aprofundados. Asimov era fruto de seu tempo? Sim, mas ser fruto do tempo dele não foi limite na hora de enxergar leis da robótica. Faltou algum desprendimento, interesse ou responsabilidade pra enxergar o mesmo na representação de gênero, por mais que ele estivesse no meio do século 20.

E é isso que questiono no Júpiter Maçã, justamente por considerar ele um precursor musical importante. Isso tudo do porno rock etc eu já sabia (por algum motivo você presumiu que não e achou importante me informar), você não precisa me explicar a história e trajetória dele. A não ser que você tenha conhecimento de algo que saia do âmbito de “informações que se consegue na internet”. E eu percebo que ele fala ‘muita besteira’. Não sei porque reconhecer isso invalidaria o que eu propus a ser discutido.

Vejo muita retórica do que eu estou e o que eu não estou fazendo, mas pouca histórica e concisão no que está sendo defendido por você. E se o post é apenas uma trollada, como você julga ser em alguns momentos, não sei porque perde o tempo aqui se incomodando com isso. Eu só estou propondo uma discussão acerca de uma posição que não vejo porque não pode ser debatida. A própria transgressão praticada pelo Júpiter Maçã surge de questionar determinado valor social que antes era considerado tudo bem.

Agora, justificativa para não se debater alguma convenção social sempre se encontra. Daqui a um ano falariam “mas esse cara até já morreu, deixem ele em paz”. Hoje, dizem “ele morreu ontem”. Enfim, percebe-se muita justificativa mas pouca razão.

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