
O dia em que passei muita raiva
A carne da mão logo após o dedo mindinho pulsava acompanhando os degraus transpassados com a velocidade do meu ímpeto de incompreensão. O meu sangue fervilhava como se meia resposta fosse algum tipo de panela de pressão. Mas, sim, você queria saber sobre como eu cheguei na rua Fernandes Vieira, não é? Por causa do assassinato e tal. Aham.
Bem, eu saí do prédio da minha (então) namorada surpreso por já saber antes o que aconteceria assim que eu entrasse naquele prédio. Sim, eu sei que é confuso. Sabe, acho que namorar é mais como viajar pra um outro país do que mudar de casa. Quando você vai para um outro país você não tem a expectativa de se sentir em casa assim que põe os pés na área de desembarque do destino. Leva algum tempo. Porque você não está em casa, é normal se sentir assim.
Um namoro é a mesma coisa. Uma relação, a mesma coisa. Você tem alguma afinidade e algum tipo de curiosidade te levou até lá — até aquela pessoa — mas você não fala ainda exatamente o idioma dela. Sabe quando você pode dizer que está afeiçoado a uma cultura estrangeira? Quando você entende as piadas daquela gente. Aí você pode dizer “sim, estou contextualizado como deveria; estou tão contextualizado quanto você. Vamos rir juntos”. Você está apaixonado quando o olhar é mútuo. Quando um comentário engraçadinho de sua autoria recebe a réplica no mesmo nível, tão rápido que te surpreende. Um casal apaixonado não faz comédia para o outro rir. Um casal apaixonado faz comédia para que o outro possa complementar. Porque eles já falam a mesma língua e já se sentem em casa.
Mas o problema é confundir a sua casa com a sua metade, você sabe o que quero dizer? Tá, não faz essa cara de entediado, eu sei que você quer saber como eu cheguei na Fernandes Vieira. Mas deixa eu terminar isso que é importante. O problema de confundir sua casa com a outra pessoa é que quando tudo acaba — e tudo vai acabar porque tudo acaba, sempre — é que você se sentirá como um mendigo. Não é engraçado? Sim, é um pouco trágico também. Claro.
A mudança de casa ocorre quando você foi tão impactado por aquele país em que visitou que precisa renovar o seu ambiente. Completamente. Tanto a ponto de pegar a conta de luz e sentir prazer pelo endereço que está escrito ali. O poder do endereço nas contas da sua correspondência estão constantemente reafirmando um senso de pertencimento. Eu pago essa luz e com ela eu posso esquentar uma lasanha no micro-ondas. Isso é importante. Mas, entende? Essa mudança ocorre após você visitar o país. Não durante. Não logo depois. Porque você teve esse contato transformador com uma outra cultura e ela remodelou o seu ponto de vista, e até o ato de olhar pela janela do avião faz com que você enxergue formas diferentes nas nuvens. Por que? Porque sua perspectiva mudou. Existem momentos na vida em que as nuvens são legais de se enxergar como o solo de um reino no céu, e em outras vezes elas servem para você observar do chão, mesmo. Do asfalto quente da sua cidade. E aí elas parecem gigantes viajando do ocidente pro oriente, do oriente pro ocidente. Do sul pro norte, do norte pro sul. Já percebeu?
Eu tinha saído do prédio com pena dela, mas descobrir o real motivo me irritou muito mais depois. Talvez na época a mentira tenha servido bem. Eu teria ficado mais arrasado porque é difícil misturar tristeza, incompreensão, incompetência e raiva. Se você tira só a raiva, fica um pouco mais fácil. Sabia que raiva é o sentimento que dura menos tempo? Ah sim, claro, ele pode ser o mais intenso. Dá pra morrer de infarto tendo um ataque de raiva, mas é mesmo mais difícil que isso aconteça se você estiver tomado pela angústia. Mas a raiva passa rapidamente. Não morra no pico da raiva de ataque cardíaco que em breve o corpo manda aquela sensação de “ufa”. Mas eu tinha ficado um pouco com raiva sim, admito, por toda a incompreensão. Pensei “porra, como assim, você tá terminando comigo porque seu pai vai morrer?”. Quem diabos iria querer afastar uma pessoa que gosta porque outra pessoa que gosta está morrendo? As coisas são mais coerentes ao contrário, você não acha? Pois é. Eu também! Eu também acho. Por isso foi meio escroto. Mas eu não tenho um pai que tá morrendo — atualmente não tenho tido muito de nada, pra ser sincero — então não me cabia julgar, sabe como é? Eu não tenho como saber. Então só respondi “se é o que você quer”. Ainda me senti culpado por sentir como se estivesse a abandonando. Era como se ela se sacrificasse para me proteger de uma dor que eu não precisava participar. Como se ela sacrificasse a própria pele para impedir que eu fosse atingido por algo mortal.
Mas quando eu descobri que “pai morrendo” era basicamente uma analogia para “saindo com outro cara”, aí sim eu fiquei incomodado. Fiquei incomodado porque quem não ficaria? Ao mesmo tempo, tudo fez um estranho sentido. Isso apaziguou um pouco a raiva, sabe? Essa coisa de fazer sentido é muito dúbia. Às vezes ele é a causa da loucura, às vezes ele é a cura milagrosa. Depende da ordem em que as notícias acabam vindo. Mas talvez eu quisesse um motivo, e provavelmente perceber que eu não era um parceiro tão adequado me soou mais coerente do que sentir como se eu estivesse sendo poupado de uma situação difícil. Porque eu sei que saberia lidar com a situação de dar algum apoio para quem precisa lidar com a finitude da vida, nisso eu tenho alguma afinidade. Mas, de fato, “você não é tão bom assim em nada”, tinha sido mais dificil de discordar, hehehe. Eu nunca me namorei e provavelmente não o faria. Então soa coerente.
Ah, não, isso era em um sábado de manhã. Estava ocorrendo algo lá no parque da Redenção, então eu caminhei pra lá. Até chegar na Fernandes Vieira e ver que ela estava fechada. Um cara levou um tiro na cabeça ou algo assim.
O que? Não sei se tinha, tinha? Pois é, os policiais e os agentes de trânsito já tinham fechado toda a rua. Não vi se tinha alguma mulher junto do cara que morreu.
Ah, ele era você? Bem, faz sentido. Hehehe. Tava cansado de desviar o olhar desse buraco na sua testa.
Bom, pelo menos não deu tempo pra você sentir raiva.