Carapuça da mediocridade

É finado o erro. Após três derrotas consecutivas a incerteza dos nossos rumos nesta C paira na bancada do Almeidão. Nem o mais lúcido dos cronistas, nem o mais racional dos torcedores tem uma explicação fácil e singela sobre o fracasso recente. Impossível de explicar, mais difícil ainda de digerir.

O futebol apresentado nos três reveses não foi dos piores. Criamos jogadas, levamos perigo ao adversário. Fizemos gols. Itamar armou o time ofensivamente. As exibições do meio do 1º turno deram uma esperança. Apesar da incerteza de como terminaremos 2017 após o fracasso tríplice, o botafoguense assimilou: nosso elenco é bom. Mas a partida que se avizinha é uma decisão.

Se não for o melhor, o elenco de 2017 é um dos melhores dos últimos anos. Dispomos de bons jogadores em cada um dos setores (as laterais fazem parte do setor defensivo, antes que a laranja voe). Mantivemos uma base da defesa destaque da temporada anterior, nos pilares Plínio-Djavan, e conseguimos montar um ataque indiscutivelmente superior ao de 2016. Nosso meio-campo não faria feio em nenhum time da B.

Perdemos os três últimos jogos por razões diferentes, detalhes talvez. É preciso entender que no futebol, assim como na vida, cada momento é único e por mais que seja visto como idêntico, cada partida reserva um singularidade irreproduzível. Cada derrota, cada cotejo, guarda uma história diferente, única e plena.

Embora reféns da singularidade, as derrotas mostram que nos apequenamos por demérito próprio. No léxico futebolístico, perdemos para nós mesmos antes de fracassarmos perante os adversários. Faltou manha nas derrotas fora da Parahyba. Sobrou misericórdia na fatídica derrota do Almeidão. Repito, somos capazes, estamos no páreo, mas vestimos a carapuça da mediocridade.

Até o mais cego botafoguense enxerga o pavilhão desbotado nos onze que entram em campo. A última partida é sintomática: subimos ao gramado derrotados! Antes do apito do juiz, antes da bola rolar, o placar moral apontava a derrota. Antes fosse por falta de qualidade, foi falta de espírito. Obtuso é quem acredita que somente poder financeiro e qualidade técnica ganham jogo. O imponderável mora no espírito de luta.

Espírito coletivo vale mais que folha alta. Num campeonato onde a disparidade técnica é quase imperceptível e o equilíbrio é o regente. A força de vontade inabalável conduz qualquer time à vitória. Ou ao menos acalenta os torcedores na derrota. Não queremos espetáculo, não pedimos nada além do que vocês podem dar em troca: raça.

Que nenhuma derrota seja aceita passivamente e que toda vitória passe pela entrega irrestrita do grupo.

Reprodução: facebook.com/cuiabaec

Assim como a chance de errar, as desculpas acabaram. Não adianta buscar melhora no prejuízo do apito, no gramado encharcado, na bola que acertou a trave. O resgate do time que nos fez sonhar tem que partir de dentro. A torcida vem fazendo sua parte. Os presentes são os fiéis, com quem o maior da Paraíba pode contar, sempre, sob chuva, sob pedras.

O fim da instabilidade passa pela diretoria. É preciso chamar a responsabilidade, honrar o trabalho bem feito até esta altura da temporada. Assumir a coparticipação nos erros. Cobrar do grupo, reforçar o que representa a competição para o futuro do time e o que o clube representa para a cidade, para o estado, para o nosso povo. É hora de instigar a torcida, bajular os fiéis e convocar os venais, simpatizantes. O fim da sequência negativa começa por um Almeidão pulsante.

A vitória na noite de sexta depende brutalmente dos jogadores e da comissão técnica.

Atravo-me a cravar: SOMENTE DELES.

Michel precisa decidir se é o goleiro das defesas salvadoras ou das saídas do gol bisonhas e das falhas juvenis. Não cabem os dois goleiros em uma pessoa só. Nosso miolo de zaga reconhecido nacionalmente por ser pouco vazado, pode ter esquecido, mas não desaprendeu a jogar. O meio de campo, dos toques rápidos, dos passes certos, rasantes, não é de enganadores. Tenho certeza. Nosso ataque, o diferencial nesta temporada, tem a obrigação de sustentar a fama.

Do concreto, aos gritos e cantos, seremos o incentivo. Estaremos na nossa casa para apoiar o campeão do estado, o time que mais levantou troféus por essas áreas, o único campeão brasileiro da Paraíba. O time derrotado antes de jogar, o minúsculo com alma de covarde e o estandarte da mediocridade é um filme que vimos por três vezes a contragosto e que não queremos ver de novo.

Não iremos ver de novo.

Somos gigantes, sejam também.

Não joguem por nós.

Joguem como um de nós!

Foto: tvtorcedor.com.br