Inescapável tristeza de ser roubado

André Resende
Jul 10, 2017 · 3 min read
Foto: Cógenes Lira

Quem foi ao Almeidão na tarde chuvosa de domingo assistir à derrota contra o Sampaio Corrêa foi vítima. Não escapou uma alma botafoguense entre os 8 mil presentes. Todos nós fomos roubados. E os outros milhares ao pé do rádio, presentes em coração, se não foram assaltados, foram testemunhas do crime.


Foi o maior roubo coletivo da nossa história recente.


Um crime escandalosamente colossal, comparável somente a um assalto ao Banco Central. Absurdo. E nós, inertes e inebriados, mesmo estando ao lado da Central de Polícia, não fomos prestar queixa. Mas como se queixar se o culpado não era unânime? Como praguejar se o assalto foi concluído em vários atos com a nossa passividade?

O bandeira errou, mas não perdeu os gols. Itamar não fez do time uma concessionária de carros, como de costume. Vanderlei falhou o pênalti, mas foi inocente por estar ausente no primeiro tempo.

Foi justamente por não saber a quem culpar, com o pavilhão preto e branco encharcado e a estrela encarnada pesando, que voltamos para nossas casas com a inescapável tristeza de quem foi roubado. Com o grito de injustiça entalado na garganta e o vazio da perda no peito.

Muito foi cobrado pela torcida no início desta temporada, quando o resultado vinha (ao menos no estadual), mas o futebol deixava a desejar. Sabíamos que para voltar a brigar pela ascensão, precisaríamos de um jogo mais competitivo, mais variações, mais imponência com a bola nos pés. E finalmente, quando conseguimos, como visto nas últimas partidas do primeiro turno da C, o resultado teimou, ao menos duas vezes, em não vir.

A derrota fora contra o ASA já havia sido um acinte. A derrocada dentro do Almeidão para um time bisonho como este Sampaio Corrêa, após a nossa avalanche, é de uma escárnio indescritível. Mesmo que os objetivistas insistam que justiça no futebol é bola na rede. Mesmo que os resultadistas defendam que o importante são os três pontos. É de uma cegueira vil e de uma insensibilidade atroz não tremer de indignação diante do resultado deste domingo.

Longe de ser uma justificativa ou a defesa aquilo que não é passível de ser atenuado. Somos gigantes e temos capacidade suficiente para não sermos passageiros dos dissabores da bola.

Somente os displicentes se dobram à vontade que guia o futebol. Invariavelmente, abrem mão de traçar o próprio rumo, relegam a posição de protagonistas e assumem a de coadjuvantes, quando não a de antagonistas…

Foto: Cógenes Lira

Nem as vitórias nos fazem melhores, nem as derrotas nos tornam piores. Frase de cabeceira de Vilar e que faz parte da literatura futebolística. A despeito da complexidade da análise da qualidade de um time somente pelos resultados, há uma reserva na derrota que é impossível no triunfo: a chance de uma análise verdadeiramente crítica. Somente no fracasso é que a gente consegue, após recobrar a racionalidade, buscar uma lógica no erro, detectar as entrelinhas do percalço, antecipar correções em situações análogas.

Por ser um revoltado inveterado diante das injustiças do mundo, tento erraticamente com estas linhas retomar minha lucidez. A sensação de impotência de quem foi roubado persiste. Em verdade, pelo vazio que faz e pela escassez das explicações deste texto, desconfio que nem o acesso ao final do campeonato vai me fazer esquecer a tarde chuvosa, quase chorosa, de um domingo de julho. O dia em que o Almeidão foi palco de um roubo coletivo a mando do futebol.

André Resende

Written by

Jornalista de internet, escritor marginal.

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