a síndrome da múltipla escolha

Abri o microondas pra esquentar o almoço e senti um cheiro de pipoca. Um cheiro já distante, como uma lembrança de anteontem. Mas uma lembrança que não era minha, já que eu sabia que não tinha sido o autor dessa obra de arte. Eu jamais seria capaz de esquecer uma única vez que fiz pipoca na vida. Num intervalo de tempo menor que o estourar de um milho, já estava pensando quem teria tido a ousadia de ter feito pipoca e não ter me chamado. Não existe uma única pessoa que não saiba o quanto que eu gosto de pipoca. Eu mataria por pipoca. Eu faria Bolsonaro e Jean melhores amigos se preciso fosse. Eu comeria pipoca pelo resto da minha vida. Mas ninguém teve o mínimo de educação, amor no coração ou amor pela própria vida pra ter me chamado pra comer pipoca. Esse inescrupuloso não tem ideia do risco que está correndo. Um crime sem precedentes e inafiançável.

Como pode aquele milho, um pequeno e inocente milho, como pode aquilo ali dar luz a maior maravilha de todos os tempos, apenas com um pouco de calor. Calor não, carinho. Um afago, um cafuné. Deve ser assim que as pipocas nascem. No momento daqueles estalos que mais parecem fogos de artificio, não existem ateus. Todos são crentes da presença de todos os deuses e deusas nas nossas vidas. É o maior milagre da existência humana.

Resisti e não me deixei ser levado até a dispensa e buscar um novo pacote (na hora do almoço mesmo, isso não é problema). Mantive a concentração da minha investigação sherlockiana mental e lembrei que no provável mesmo horário do nascimento dessa ultima remessa de pequenas maravilhas brancas da gastronomia mundial eu estava na Domino’s. Lá estava eu, comendo a melhor de todas as 13 milhões de pizzas nascidas ontem. Aquela catuperoni estava extraordinária. A combinação perfeita, a harmonia dos cantos dos anjos do céu. Inesquecível. E então percebo que isso seria o álibi perfeito pro crime da pipoca. Mas não, não por muito tempo.


Essa lógica de “não dá pra fazer duas coisas ao mesmo tempo” é a pior invenção de todos os tempos. Que bobagem. Como assim é aceitável não ter comido aquela pipoca só por causa da pizza? Desde quando isso é desculpa?

A renúncia é a eterna sombra da escolha. Esse sacrifício é uma agonia sem fim. Isso me faz lembrar da época de colégio e a síndrome da múltipla escolha. Se eu podia responder a questão livremente, paz e alegria. Inventava alguma resposta e me safava. Mas se tinha que marcar x, um único e singelo x, em uma daquelas infinitas cinco opções, esquece. Eu ficava travado. Nada dava certo. Tinha pesadelos com o vazio que eu tinha deixado naquele espaço mágico entre dois parênteses em 4 das 5 alternativas.

Não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo é um fardo gigantesco. Já inventaram o computador, a internet, o celular, o celular com internet, os aplicativos, o aplicativo da Kim Kardashian, do Ronaldinho Gaúcho, mas ainda não deram um jeito fácil de resolver isso. Querer estar em casa comendo pipoca e também na Domino’s acompanhado da catuperoni é pedir muito? Milhares de anos de mundo e milhões de filmes de super heróis não foram suficientes pra alguém se inspirar e pensar seriamente sobre isso. Bem que podia ser normal querer estar em dois aniversários na mesma hora ou três festas no mesmo dia ou numa viagem no mesmo dia das três festas ou simplesmente querer ver os dois filmes bons que estão passando agora. Já passou da hora de resolver esse problema.

Talvez isso seja ainda pior pra gente, da geração Abas do Chrome. A mania de deixar coisas em stand by, com apenas um clique de distância faz a gente acreditar que todas as opções estão sempre disponíveis. E faz a escolha por uma única alternativa, assim como acontece na vida real, ser um grande sacrifício. Viver acompanhado dessa verdade é difícil de digerir. Não poder estar em mais de um lugar ao mesmo tempo sem poder trocar com dois toques no botão central do celular é o nosso maior drama.

De todos os problemas no paraíso, esse é o pior de todos. Afinal, o que mais deve ter no paraíso é pipoca. E catuperoni. E um outro cardápio infinito de indecisões impossíveis de serem desfeitas. Desse jeito tá difícil.

A investigação segue sem conclusões. O criminoso está sendo seguido pelo faro e pelas migalhas. Sua hora vai chegar.


Se chegou até aqui e não se arrependeu, recomende esse texto pra mais pessoas clicando naquele coração ali embaixo!

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.