os 100 dias de intercâmbio

02.11.15

Depois de 100 dias fora de casa você já sabe que a importância do seus instintos para conseguir fazer tudo que se deve, inclusive essa contagem de 100 primeiros dias. Não tenho ideia de quantos dias fazem que eu sai de casa, mas é alguma coisa perto dos 100.

Depois de 100 dias fora de casa sua vida já tá um tanto quanto mudada. Seu site preferido, promoção de passagens. Seu passatempo mais frequente, procurar promoções no supermercado. Já sabe cozinhar um arroz que não mata alguém, já existe um ingrediente secreto pra fazer alguma receita comum, mas pelo menos com uma cara especial (“ovos mexidos deluxe” ainda vai fazer muito sucesso, MasterChef que se cuide).

Depois de 100 dias fora de casa você já conhece as meias de quem mora com você, já sabe de cor e salteado o seu caminho de casa, do seu quarto e da geladeira. Sabe pra que lado abre a porta do auditório (chega de passar vergonha no meio da aula, já basta chegar atrasado pra caralho), já não se deslumbra tanto em ouvir italiano por um ouvido e alemão no outro, e o seu inglês já é um pouco melhor que o do Joel.

Depois de 100 dias, você já sabe que fronteiras só fazem sentido jogando War. A mistura de países numa experiência dessa é a prova que tem gente de todo tipo em todo lugar. O que muda é só a carcaça. Você também aprende o verdadeiro significado de vida, quando percebe coisas nascendo e se criando todo o tempo, como a pilha de roupa suja e de louça pra lavar. O inverso disso também se faz valer, quando a garrafa de água gelada e a lata de cerveja de anteontem continuam mortas na mesa da sala. E, por fim, se conclui o ciclo dos milagres da natureza com a sua ressurreição, o seu ressurgimento das cinzas, saindo do conforto do sofá pra fazer isso tudo finalmente acontecer.

Mas acima de tudo, 100 dias fora de casa são 100 dias sem a possibilidade de existir 24h sem algo novo. Ao mesmo tempo, o que é velho e realmente importa só se fortalece. Essa ambiguidade é muito mais próxima do que se imagina. Não funciona como um copo d’água, que transborda com o seu contínuo preenchimento. Funciona como uma esponja, talvez: sempre capaz de receber mais, mas se aquela gordura da panela do molho do macarrão de ontem for forte mesmo, vai ficar pregada ali na parte mais grossa da esponja pra sempre. (mas que belíssima declaração de amor!)

Você também já aprendeu o verdadeiro significado de família, e todas as suas variantes. No papel, família mesmo é uma só e isso nada muda. Eles são inalcançáveis, inatingíveis e intocáveis. Mas além disso, também não são nem um pouco egoístas. Emprestam o dom que têm e aqueles sentimentos caseiros únicos e verdadeiros pra alguns que realmente merecem. Depois de 100 dias, já tenho plena certeza que há muito tempo que essas entidades do universo que moram comigo atualmente aprenderam lá no Brasil o manual de como ser uma família pra mim. Deviam estar escondidos na sala de estar ou conversando na mesa de jantar enquanto eu jogava Fifa no quarto, só pode.

Acima de tudo isso, você já aprendeu muito com você mesmo. Já sabe seus limites e a hora certa de ultrapassar todos eles. Sabem que todos eles foram feitos para serem desfeitos. Já se conhece como nunca, e já tem certeza que a vida é uma aula ao ar livre, gratuita e diária. Se pergunta todas as manhãs o porquê de ter esperado sair do conforto pra ter começado, de ter demorado tanto pra se inscrever, mas agradece a cada sol que se põe por ter colocado seu nome nessa lista. Agora sim pode dizer que estar atuando nesse show de verdade.

Certamente, tanto esse intercâmbio, quanto a vida de volta no Brasil quanto esse texto nunca serão suficientes, seja para o motivo que for. Mas 100 dias depois, você segue seu instinto e lembra que aproveitar o agora acima de tudo é muito mais que alguma letra de reggae ou adesivo de carro.

É a verdade absoluta.

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