sem descaso pro acaso

22.09.16

Se tem uma coisa que eu não entendo é como algumas coisas exigem um pouco mais de tempo do que o esperado para se compreender o que significam. Bicicletas profissionais, pro exemplo. Aquele pneuzinho fino não parece assustador, até o momento que você monta nela como aquele experiente entregador de jornais de filme americano e cai logo de cara. É impossível andar nisso. mas por algum lance de sorte, já aprendi, e esse está sendo meu meio de transporte há umas 3 semanas. As quedas são só pra pregar no corpo o que a memória não guarda. (Tentativa falha de poetizar a dor da canela roxa)

Aqui na universidade existem alguns alunos um tipo de uniforme. Lembra Hogwarts. Ou zorro, talvez. O fato é que a capa e o chapéu de mosqueteiro dao um ar de século passado para as salas de aula. E eles se orgulham muito disso. Usam a mesma roupa, todos os dias. Faça chuva ou faça chuva. Mas a parte boa disso é que é fácil identificar os alunos até mesmo quando não estão na univseidade, já que eles vão a todos os lugares vestidos assim.

Semana passada, a terça feira foi de 24h de chuva. E além disso, o primeiro dia que tive que ir pra aula de ônibus. Não estava certo de qual eu deveria pegar, mas logo que cheguei no ponto de ônibus, vi o Harry Potter sem varinha e logo defini que o ônibus que ele pegasse seria o meu. As chances eram grandes, mas não 100%, já que até pra praia eles devem ir vestidos daquele jeito. Mas graças JK Rowlling, ele foi mesmo pra universidade e eu acertei o caminho sem grandes problemas. No trajeto, fui observando aquela roupa e a quantidade absurda de broches que carregam, com os mais variados temas. De Pokemom a escudo de time de futebol. é um currículo ambulante, praticamente. Vai entender.

Hoje fui pra aula pela segunda vez de ônibus, mas resolvi usar outro trajeto. “Qual foi a ultima vez que você fez algo pela primeira vez?” e esse tipo de espírito. Intercâmbio também é um exterminador de clichês de Facebook. Sol a pino, camisa preta no corpo (a menos amassada do armário) e alguns minutos monitorando o ônibus pelo aplicativo do celular (sim, isso existe). O ônibus 87 tinha como destino final o hospital da cidade, e tava marcado para as 13:35. 13:40 ele passa, justamente no momento que eu viro as costas e tinha comecado a executar o plano indigesto de ir a pé pra faculdade. Me virei, vi o 87 fazendo a curva, olhei pro céu e pensei “papai do céu tá cuidando, valeu!”. Entrei no ônibus todo faceiro e moleque, já que tinha dado tudo certo. O ônibus iria parar em frente a universidade, e pronto.

Aquela checada no instagram e em um instante eu estava no hospital. Que diabos eu tinha na cabeça pra achar que ele passaria na universidade? Ainda acho que eu ouvi isso em alguma mesa de bar e fiquei com o 87 na cabeça, e no mapa fazia sentido. Errou rude.

No hospital? Tantos outros riscos e motivos que eu ja passei aqui nesse um mês pra me fazer parar no hospital e eu vou lá pela primeira vez de ônibus? Pegando a linha errada? Mass e cadê a porra da universidade? Depois desse meio segundo desses pensamentos, o motorista olha pra mim e diz “esse é o ponto final, amigo”. Olhada pro lado, eu era o único restante lá dentro. E ai eu, a inocência e a falha ao usar o Google Maps em pessoa, pergunto “mas e a universidade? é pra lá que eu vou!”.

Um senhor de uns 70 anos era o motorista. Posso afirmar que a dentadura dele está em perfeitas condições, tamanha risada que ele deu ao ouvir isso. Estava no ônibus errado, ou se quisesse chegar na universidade, tinha que ter descido antes. Tinha que ter perguntado antes. Tinha que ter ido andando. Tinha que ter ido de bike. Tinha que ter ficado em casa dormindo mais. Mas eu tava na porta do hospital, com uma rodovia na minha frente. 5 minutos faltavam pra aula, e entrar atrasado não é uma opção pros parentes do Cristiano Ronaldo. Peço um taxi low cost, que chega em cinco minutos e me leva 3 euros numa facilidade que nenhuma cerveja ainda teve nesse tempo aqui. Mas tudo bem, pelo menos chegaria a tempo.

Se tem uma coisa que eu sou acostumado é com os carros parando na faixa de pedestre. Assim como Brasília, aqui os carros sempre param. Dentro do táxi, prestes a descer, uma faixa de pedestres cheia de estudantes, zorros e não zorros. Ao passarem na frente do carro, reconheço um dos fantasiados. O único rosto que eu já tinha registrado que carregava um chapéu era o cara que me ajudou, sem nem saber, no ônibus da semana passada. O mesmo, no meio de um monte de aluno correndo pro almoço, na minha frente. Atravessou e seguiu sua vida, sem nem saber o tamanho da sua participação nesse reality show.

Se tem alguma coisa que eu não entendo é o motivo desses acontecimentos. Não significam muito, significam praticamente nada. Mas ao mesmo tempo, dão a impressão de que tudo se trata de um teatro de fantoches, onde os mesmos personagens reaparecem seguindo um roteiro. Justamente no momento que eu chego a salvo na universidade depois de um parto de caminho, o mesmo cara passa na minha frente. Provavelmente eu nunca mais verei ele na vida. Não sei que que ele faz, sei absolutamente nada sobre ele, além do fato de escrever um Z em troncos de árvores nos intervalos das aulas. Mas apesar disso, foi o suficiente pra me fazer tentar entender como isso tudo funciona.

E se tem uma coisa que eu ainda tento entender é o porquê de um texto tão grande pra uma história tão sem pé nem cabeça. Vai entender, um dia quem sabe eu aprendo.

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