solidão solar

Pelo menos uma vez por século o Brasil podia sofrer um inverno daqueles de Game of Thrones. De fazer Zeca Pagodinho acreditar que cerveja gelada não precisa de geladeira. A gente nem se dá conta, mas ostentamos, e muito, ano após ano, um dos bens mais preciosos e apreciados pelos gringos: o Sol.

Por aqui eu fui testemunha de um dos invernos mais brandos dos últimos tempos. Sem Natal Branco, sem tempestades avassaladoras. Alguns ousavam dizer que tava quente. Não posso garantir que disseram isso de fato, já que a minha audição tava prejudicada pela quantidade de tocas, capuzes (capuz tem plural?) e cachecóis que eu usava no momento. Além da interferência sonora do bate-bate do meu queixo, que deixava qualquer timbalada no carnaval de Salvador parecer um cochicho.

Por aqui eles disputam a tapa uma única frestinha de sol entre as nuvens que arranham os céus. Fazem fila indiana em frente a faixa de pedestre, aproveitando aquele pouquinho de brilho resistente no frio matinal, rezando pro céu abrir e o sinal continuar fechado.

Por aqui, prestam atenção até na previsão do tempo. Não por educação ou respeito a umidade relativa do ar — calma, isso não é mais uma daquelas cartas abertas do meu coração aberto ao gringo-perfeito-queria-ser-gringo, muito pelo contrário. É só uma questão de necessidade. Precisam do Sol, e dão valor porque não têm. Muda rotina, muda humor, muda tudo quando ele se perde no caminho e acaba visitando o lado de cá por engano.

E ele, tão insistente e carente por aí, voltando dia após dia de trabalho árduo, clamando por atenção, não imagina o sucesso que faria por aqui. Tomara que não leia isso e descubra o seu verdadeiro potencial. Tomara que não descubra que o amor dele por nós muitas vezes é platônico. Nós não nos lembramos de corresponder, e várias vezes, acabamos nos queixando, trocando de mal, bloqueando, não respondendo no Whatsapp e deixando aquele certinho duplo azul tão azul quanto o céu tirar a sua paz.

Não é justo. Mas enquanto for assim, sem realizarmos que — não só por isso — nosso papel é o do invejado e não o invejoso dessa história, seguiremos dando atenção pra quem não merece.

Assim como o Sol.