O nosso extremismo de cada dia

Por só falarmos de como vencer guerras, nunca conheceremos a paz

Hoje, depois da aula, parei em uma roda de conversa que discutiria a Democracia e a Mídia. Um assunto pertinente visto o nosso cenário político atual e, se tratando de uma Universidade, com professores de alto nível e alunos com cabeça aberta, era provável que saíssem boas ideias.

Mas me assustou que, apesar de surgirem boas ideias, foram as falas com mais extremismos que se tornaram hegemônicas. Dividirei esse texto em tópicos para ficar mais claro, já que para entrelaçar um assunto em outro eu precisaria de muitas linhas e nem eu conseguiria escrever e nem vocês conseguiriam ler.

Fascismo

Essa é uma palavra que tem surgido muito durante as leituras de conjuntura. O uso da palavra é uma forma de simplificar o debate e acionar emoção nos ouvintes. A cada vez que falamos de Fascismo nós despertamos no outro a recordação da imagem de Mussolini — ou até Hitler.

Não nego — é impossível negar — que entre a nossa Extrema-Direita e o Fascismo existem algumas relações. Mas dizer que tudo é Fascismo é um jogo sensacionalista tão grande quanto chamar o Partido dos Trabalhadores de comunista.

Respeitemos as vítimas do Fascismo. Nós precisamos abrir os olhos da população para o momento de hoje e não despertar emoções e medos passados. Novas doenças não são curadas com os mesmos remédios antigos.

Ps.: Discursos de medo e que tocam nas emoções do ouvinte é uma das características dos governos autoritários.

O Jornalista

No protesto pro-democracia, 18 de março, uma parcela dos manifestantes tentou agredir fisicamente um repórter da Rádio Itatiaia. Oras, que a Rádio Itatiaia é tucana nós sempre soubemos, mas os ataques devem ser realizados à Rádio e não ao jornalista.

Devemos lembrar que jornalistas são seres humanos e funcionários de uma empresa (que atendem os interesses de seus patrões) e, como mostram os atores da Rede Globo, o funcionário pode divergir das ideias da corporação. Vocês se esquecem o quão difícil é um emprego na Comunicação? Destilar o ódio que você tem em relação à empresa de comunicação em cima dos seus funcionários, que muitas vezes ganham uma miséria de salário para alimentar a sua família, é tão desumano quanto apoiar o golpe.

Ps.: Agredir jornalistas que estão exercendo a profissão é uma característica de governos autoritários.

Democratização da Mídia

O povo não é bobo, nós sabemos. Mas é preciso acreditar nessa sentença que é gritada há tantos anos. Muitos de nós repudiamos a forma como a Rede Globo realiza o seu jornalismo e, por isso, defendemos a Democratização dos Meios de Comunicação.

Porém, é necessário entendermos que a Democratização da Mídia é, olhe só, Democrática. Ela não pode ser usada como uma arma para dar fim a uma empresa de comunicação. A Democratização da Mídia tem como objetivo principal romper o monopólio das 12 Famílias e abrir espaço para que novos meios sejam criados.

Ao defender a Democratização como a bala de prata contra a Globo estamos tirando o direito constitucional da Direita se expressar. Acreditemos que o povo não é bobo e que em competição justa, sem monopólios, ele saberá separar o joio do trigo. É difícil, mas devemos garantir à eles os direitos que eles não nos deram em nenhum momento, isso é ser democrático.

Ps.: Caçar e fechar meios de comunicação, deixando apenas o lado que se julga ‘certo’, é uma característica dos governos autoritários.


Por fim, queria concluir dizendo que esse texto não vai chegar em nenhuma conclusão muito clara. Queria apenas dizer que gritar “Fascismo” contra o outro lado é despolitizar a discussão. E que agredir repórter de uma emissora, ou desejar o fim desta, é cercear a liberdade de expressão. Assim como fazem com nós.

A esquerda aprendeu a ficar na defensiva. Mas a competição e a guerra são frutos da Direita e nós não podemos deixar que o ódio nos atinja a ponto de repetirmos o que fez o opressor. Porque se não, nos tornaremos tão autoritários quanto aquilo que é o nosso pesadelo.

Ao invés disso, vamos falar da paz. Do perdão sincero que é encontrar uma saída e ver o outro como igual, por mais diferente que suas ideias possam ser. Do contrário, a história continuará a se repetir.