“Deus é Amor, mas também é Justiça” — amor e ódio Cristão no Sinédrio Digital

Assistindo à coluna digital do Pastor Henrique Vieira sobre proteção às crianças e adolescentes, exposições, pedofilia e coisa e tal (http://bit.ly/2ySIhnV), ele constrói bastante na sua fala a perspectiva do amor cristão, da inspiração do Cristo, do respeito ao outro, à diversidade, à dignidade humana. Nos comentários (que apesar das recomendações contrárias eu sempre os leio pra mapear nuances e entender fluxos de consciência e discursos na rede) está lá aquela turba de cristãos execrando o pastor Henrique (que é progressista e filiado ao PSOL), dizendo que a sua fala mansa é coisa do Diabo e de falsos profetas que sussurram nos ouvidos ingênuos. Isso, claro, utilizando um entendimento perverso sobre o pastor para o colocar na caixinha da perversidade que esses próprios cristãos carregam em seus inconscientes.

Tenho tentando algum entendimento sobre essa conexão entre o amor cristão X o impulso de destruição da diferença, de busca pela eliminação do que se enxerga como errado ou pecaminoso mesmo enaltecendo a misericórdia divina (algo na linha do que o Moysés Pinto Neto meditou dia desses em seu facebook — aqui, para recalibrar o uso do termo fascismo).

Um dos comentários lá na coluna do Pastor Henrique falou algo que pode ser uma chave pra compreender como surge a filiação ao amor Cristão enredada com a propagação do ódio ao Outro. Um discurso tecido entre a narrativa bíblica e a negação da capacidade de amor do Outro. A sentença do comentário era a seguinte:

“Deus é Amor, mas também é Justiça”

É como se essa perspectiva da cultura moral e jurídica judaico-cristã se transfigurasse metafisicamente para se perpetuar no tempo e no espaço. Uma transposição quase mágica entre o Sinédrio estabelecido em Jerusalém nos tempos do Cristo e o Tribunal do Facebook nos dias de hoje. O Sinédrio era uma espécie de Côrte Suprema onde se realizavam os julgamentos, se definiam delitos e se determinavam as penalidades.

Ilustração do Sinédrio

Definição do Sinédrio no site do Opus Dei: “O Sinédrio (Sanhedrim) era a Corte Suprema da lei judia, com a missão de administrar justiça, interpretando e aplicando a Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés), tanto oral como escrita. Exercia, simultaneamente, a representação do povo judeu perante a autoridade romana. De acordo com uma antiga tradição, tinha setenta e um membros, herdeiros, segundo se supunha, das tarefas desempenhadas pelos setenta anciãos que ajudavam a Moisés na administração da justiça, além do próprio Moisés. Desenvolveu-se, integrando representantes da nobreza sacerdotal e das famílias mais notáveis, possivelmente durante o período persa.

“Deus é Amor, mas também é Justiça”

A partir desta sentença é possível delinear essa transposição tempo-espacial do ritual do Sinédrio de Jerusalém em que Jesus Cristo foi enviado por Pilatos para ser julgado por Herodes Antipas, para a sucessão de xingamentos e espalhamentos de ódio em redes sociais. A passagem, no novo testamento, em que se narra a sessão do Cristo no Sinédrio está no livro de Lucas, no Capítulo 23, versículos 2–11:

E começaram a acusá-lo, dizendo: Havemos achado este pervertendo a nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei. E Pilatos perguntou-lhe, dizendo: Tu és o Rei dos Judeus? E ele, respondendo, disse-lhe: Tu o dizes. E disse Pilatos aos principais dos sacerdotes, e à multidão: Não acho culpa alguma neste homem. Mas eles insistiam cada vez mais, dizendo: Alvoroça o povo ensinando por toda a Judéia, começando desde a Galiléia até aqui. Então Pilatos, ouvindo falar da Galiléia perguntou se aquele homem era galileu. E, sabendo que era da jurisdição de Herodes, remeteu-o a Herodes, que também naqueles dias estava em Jerusalém. E Herodes, quando viu a Jesus, alegrou-se muito; porque havia muito que desejava vê-lo, por ter ouvido dele muitas coisas; e esperava que lhe veria fazer algum sinal. E interrogava-o com muitas palavras, mas ele nada lhe respondia. E estavam os principais dos sacerdotes, e os escribas, acusando-o com grande veemência. E Herodes, com os seus soldados, desprezou-o e, escarnecendo dele, vestiu-o de uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lo a Pilatos.

Jesus, o Cristo, calou-se diante daquela Corte demasiada humana, excessivamente política e corrompida. Em Mateus 19:24, Cristo havia dito a seus discípulos: “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”.

Naquele dia quente na Paestina, Cristo calou-se no Sinédrio. Recebeu a zombaria e a ignomínia de Herodes e de seus soldados: com escárnio vestiram ridiculamente a Jesus com trajes de Rei. Desta forma o enxotaram de volta para Pôncio Pilatos. O final da história é bastante conhecido.

Aquele talvez tenha sido o momento de maior coragem do Cristo durante sua trajetória: o silêncio diante da mesquinhez e da calhorda. De cabeça erguida o Cristo encarou a humilhação e resistiu para não legitimar as farsas do Sinédrios. Uma grande lição do Cristo para esses dias de Tribunal de Facebook…

Uma das questões que me perturba é a seguinte: como pensar sobre essa chave que conecta a ação jurídica dos Sinédrios e os sentenciamentos morais praticados por Cristãos dentro de um ambiente de redes sociais digitais? Há conexões possíveis a serem feitas sobre esse fenômeno do Julgamento popular, da prática do Sentenciamento e da determinação do Inimigo e sua consequente busca pela eliminação?

Não é muito simples, mas medito neste sentido: apesar de geografias totalmente diferentes e tempos absurdamente diversos, o Bicho é o mesmo: o bicho humano que edificou uma metafísica sustentada na sua distinção com a Natureza, na negação de seu fundamento Animal, na construção de códigos morais e no seu trabalho incessante de imposição dessas suas regras morais na base do sangue, da tortura, da humilhação e da morte.

É a imagem do Cristão que evoca em comentários pela rede: “A missão de perdoar bandidos pertence a Deus; a missão da polícia é promover o encontro

Um fundamento de ação oposto ao amor de Cristo. Afinal: “Deus é Amor, mas também é Justiça”.

E a Justiça são “Eles”: os pretensamente Escolhidos.