Úlcera

André de Carvalho
Sep 6, 2018 · 2 min read

As pessoas vão ao supermercado e ficam ali, com o pacote na mão, olhando informações nutricionais, procurando o melhor biscoito entre os menos calóricos.

“Biscoito de aveia e mel é uma delícia.”

Fazem a transição do refrigerante comum pro zero. Depois só compram sucos com o selo ‘100% natural’, feitos com laranjas selecionadas. O chocolate de escolha agora é o meio-amargo, que tem menos açúcar. O shoyu não entra mais no armário, por causa do sódio. O ketchup, não compram mais, porque além de ter as duas coisas, só acompanha comida que faz mal.

“Ketchup é coisa de criança.”

Passam a abominar tudo o que é gostoso, essa gente que se alimenta bem em nome da saúde ou da boa forma.

“Até o corpo tem funcionado melhor”, dizem. “Meu estômago nunca mais reclamou comigo.”

Pois o meu vive dando chiliques, mas não permito que comande nada além da fome que sinto. Modificar toda uma rotina por que ele se remexe dentro de mim? Ele que se acostume com o que tenho a lhe oferecer.

Outro dia o Bruno, devoto da sacarina, me convidou pra ir tomar café na casa dele. Não tinha açúcar nem pras visitas. Bruno, nem me convide mais.

O Lucas entrou pra academia. Cortou os carboidratos e quer que eu faça o mesmo. Sua pregação é quase religiosa. Vou misturar meu feijão com o quê?, lhe pergunto.

“Ah, você tem que comer mais legumes, mais vegetais, mais frutas, mais…”

Mais menos.

A Carla, moça que trabalha comigo, é uma das maiores divulgadoras da feira orgânica do Bom Fim: “Lá é tudo livre de agrotóxicos, tudo plantado em fazendas sustentáveis, por agricultores felizes e saltitantes”. Ok.

Maldita geração saúde.

“Cerveja dá barriga”. Tem seu charme.

“Fritura faz mal”. Conta uma novidade.

“Queijo é uma bomba calórica”. Porra, o queijo? A vida faria muito menos sentido se eu não pudesse harmonizá-lo com meus vinhos chilenos.

Até no açaí — que achei que gostassem — conseguem ver problema: “Engorda.”

Ah, meus amigos. Vocês estão ficando chatos. Tudo isso é por que lhes falei da minha úlcera?

Parem de me doutrinar, de me acusar com seus olhares. A culpa é desse estômago que não escolhi, que com seus resmungos — não de fome — vive me embaraçando em público. Como suportar tamanho abuso? Como gostar dele?

As vezes pego alface e tomate no buffet, tento fazer sua vontade, porque acho até justo que ele tenha sobre mim alguma autonomia, mas ele nunca se dá por satisfeito. Quer me controlar por completo.

Perdi o medo de suas ameaças borbulhantes, monstro lodoso que habita meu ventre. Quero te ver se contorcendo, só de birra. Insisto em fazer tudo o que você não gosta, só pra testar os limites de sua tolerância. Deus abençoe os produtos industrializados. Eu me farto.

“Você infarta?”

Amigos, assim não dá! Vocês estão mais preocupados com minha úlcera do que eu. Não nasci pra viver assim. Peguem leve comigo, que comer porcaria é um dos poucos prazeres que tenho nessa vida.

André de Carvalho

Written by

Escritor de anti-ajuda, cosmopaulista dos pampas.

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