Como a leitura me ajudou a crescer.

Eu praticamente nasci em cima de gibis.

Meus pais compravam centenas de gibis por ano. Era muito gibi. A maioria eram gibis da Turma da Mônica, mas às vezes eu encontrava alguns do Tio Patinhas perdidos naquela montanha colorida. Contando essa história até bateu uma vontade de ler um gibi. Pena que tivemos que doar tudo porque chegou um momento que não tinha mais onde guardar tanto gibi.

O que eu guardo como lembrança dos gibis são as gargalhadas. Não importava quantas vezes eu já tinha lido o mesmo gibi, ainda continuava engraçado e atemporal. Parece um pouco com a sensação que tenho quando assisto um episódio do Chaves. Parece novo, mas é o mesmo que já assisti umas oitenta vezes.

Meu pai conta que, como eu era pequena e ainda não sabia ler, eu o obrigava a contar a mesma historinha da Turma da Mônica milhares de vezes. Imagina a paciência de um pai para isso. Acho que as minhas gargalhadas compensavam no final.

Eu tinha esse aqui!

Minha maior alegria era quando eles voltavam para casa e traziam os gibis. Ainda mais quando eu comecei a entender letras, palavras, depois juntar tudo e formar frases. Imagina só a alegria da criança! O tio Mauricio de Sousa começou a lançar umas historinhas bem grandes, gibis com muito mais páginas, aí era história que não acabava mais. Eu lia, relia, contava a história para os outros… ninguém me segurava!

Lembro que comecei a me aventurar com livros sem muitas imagens bem cedo. Onde eu estudava tinha uma biblioteca pequena, mas com livros incríveis. A tia da biblioteca enchia a minha cartela de carimbos. O que eu mais gostava era uma série de investigação, mas infelizmente não lembro o nome. Eu devorava eles.

Quando eu estava na quarta-série vi minha amiga lendo Harry Potter e a Pedra Filosofal. Eu fiquei encantada com a capa (olha a alma de designer surgindo). As ilustrações eram muito bonitas. Nunca tinha visto um livro assim. Pedi para meus pais comprarem e foi assim que eu me apaixonei pela saga — e ainda mais por histórias.

Livros sempre me acompanharam. Desde pequena tenho essa vontade de saber mais. Estudar assuntos variados é um hobby que cultivo desde sempre. Até hoje durmo rodeada por livros. Muitos eu doei, troquei ou vendi, mas os mais valiosos para mim ainda estão por perto. Não existe coisa mais gostosa do que ler e imaginar um mundo completamente novo, cenários, pessoas e situações que nenhuma imagem consegue representar.

O que me motivou a compartilhar essa história é porque tenho ouvido muito sobre analfabetismo funcional, ou o que meu amigo chamou de preguiça mental. Comecei a refletir sobre o assunto e fui pesquisar para saber mais.

Segundo uma pesquisa do Retratos da Leitura no Brasil feita no ano passado, 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro. Sim, deixa eu repetir. 30% das pessoas nunca compraram um livro. Se a pequena Andressa ouvisse uma coisa dessas ela ficaria intrigada. Como assim as pessoas não lêem?

Infelizmente a situação fica pior. Não só as pessoas não lêem, como têm aquelas que lêem e não entendem o que leram. No Brasil, apenas 8% das pessoas compreendem textos. Ou seja, apenas 8% das pessoas conseguem ler um texto e entender o que está sendo dito. Elas conseguem também opinar e resolver situações que envolvem planejamento, controle e elaboração.

Apenas 8%.

O que me leva a pensar que vários problemas que enfrentamos no nosso dia-a-dia poderiam ser facilmente evitados se as pessoas se interessassem em saber mais.

Uma vez eu estudei com um cara que ele era (ou é) mecânico. Ele dizia que ler era uma perda de tempo. Perguntei se ele não lia os livros técnicos. Ele disse que sim, mas era diferente. Não era uma "viagem igual os livros de ficção". Fiquei abobada. Moço, você lê sim! Ler não significa necessariamente ler Harry Potter. Pode ser a bula do remédio, o rótulo do shampoo, a discussão no Facebook, o último bafafá na política, reflexões de religião ou, até mesmo, funcionamento dos motores. O que importa é que você entenda e se expresse.

O que não pode é justificar que não lê porque não tem tempo ou dinheiro.

Uma vez eu tive aula com um professor muito competente. Muito mesmo. Ele é um verdadeiro exemplo de vida. Quando jovem ele trabalhava como coletor de lixo. Ele buscava o lixo e jogava no caminhão o dia inteiro. Quando chegavam no aterro sanitário ele aproveitava o tempo de descanso e pegava os livros que encontrava e os lia. Hoje ele é um dos melhores professores do Paraná. Para mim, um dos melhores que já tive na vida.

Tempo e dinheiro não foram um empecilho para ele se tornar um mestre.

Este texto é um momento de reflexão. Obrigada por ter lido até o fim. Dá um ❤ ali embaixo e comente!