A gente nunca morou na mesma cidade
São 12 anos. Muito e pouco tempo. É relativo. Pra mim é tudo que eu sei da vida. Tudo mudou depois do encontro. A gente fala que é alma gêmea. Antes disso, nunca havia pensado. Não gosto mesmo de gastar energia com isso. São definições muito conceituais pra alguém que é cético.
A gente fala que é alma gêmea. Eu queria encontrar nas palavras uma boa forma de explicar. Mas como discorrer sobre o que só se sente? E como sente. A gente já cansou de achar provas. Hoje em dia nada assusta mais. Falamos a mesma coisa na mesma hora. Ou falamos o que o outro tá pensando e não disse. Duvida? Eu também duvidava, até acontecer comigo.
Posso pensar em mil situações, mas que só cabem à gente. O que eu quero mesmo é falar sobre algo nessa relação. Em todo esse tempo, a gente nunca morou na mesma cidade. Até ensaiamos. Uma vez ele foi morar bem perto. E foi quando mais nos distanciamos, pode acreditar. Culpa minha, eu sei. O momento não era bom e me arrependo. Mas tinha que ser assim. A história se escreve, a gente queira ou não.
Já conversamos até ver o sol nascer. Já curtimos muito só a nossa companhia , sem ter nada pra fazer. Já moramos um na casa do outro por alguns dias e dividimos o guarda-roupa. Já fizemos muitas loucurinhas. Sem grana, sem dramas. Só pelo prazer hedonista de ir além, só mais um pouco. Não aceitamos muito bem o fim das coisas. Eu sou ele e ele é um pouco de mim também.
Já dividimos angústias e muitas lágrimas. Várias vezes eu sofri muito pela impotência de não poder aliviar seu sofrimento. Queria arrancar com a mão. Eu também sofria. A injustiça com ele. Ele não merecia muita coisa pela qual passou. Mas sempre estivemos juntos, nos melhores e piores momentos da vida. Compartilhamos segredos também. Não precisamos esconder, afinal, o outro já sabe. Ele também sente. E esconder algo dele é esconder de mim também.
E isso tudo sem estarmos perto fisicamente. São raros os encontros, agora ainda mais. Talvez por isso a intensidade se faça necessária. Temos tão pouco tempo, sempre. Eu preciso tanto aproveitar. Lembro que no momento mais obscuro da minha vida, só contava com ele. Já saí de casa de pijama pra ir no orelhão da esquina só pra falarmos.
Como tudo na vida, teve um início. Tão despretensioso, eu me lembro. Eu, já um pouco embriagada durante uma festa de aniversário, recebo um convite de um amigo: “Vamos ali na pracinha comigo buscar o Cezinha, ele acabou de chegar na cidade”. E, sem pensar muito, fui. Sem saber o quanto aquele encontro mudaria minha vida.
Santa Rita do Sapucaí. Cidade onde crescemos, sem nos conhecermos. Ali ele ficou o fim de semana e eu o encontrei novamente em sua partida, na rodoviária. Trocamos poucas palavras. O suficiente pra iniciar o contato virtual.
Isso foi no fim de um novembro. Eu poderia esperar até chegar a data pra postar esse texto, mas tá gritando aqui dentro. Vontade de mostrar pro mundo a sorte que eu tenho em encontrar minha alma gêmea. Ou, geminha, como carinhosamente nos chamamos. E por que esperar? Ele diz que o que move a gente é o agora.
Mais tarde, após as festas de fim de ano, eu iria viajar pra casa da minha tia, numa cidade vizinha a dele. Pensei: por que não tentar encontrá-lo lá? E a gente se viu. Uma, duas, três. Muitas vezes. A semana inteira. Todas as minhas férias. E o resto da vida.
No início, o encantamento da descoberta em achar tudo em comum. Começou com Legião. A paixão intensa e todos os significados das músicas. Já mandamos tantas letras que hoje não sou mais capaz de escolher uma trilha sonora pra gente.
Eu voltei dessas férias muito muito apaixonada. Paixão em amizade é ainda mais forte. A gente não quer mais largar. E não precisa viver os jogos e as perturbações de um amor romântico. Eu sei que muita gente não entende, até hoje. Que quando a gente tá junto, pode ser insuportável. Desculpa, é um mundo só nosso mesmo.
A gente se entende no olhar. A gente precisa muito um do outro pra viver. De longe, arrumamos maneiras de estarmos perto. E essa, com certeza, foi apenas mais uma.

