Criar playlists é um ato político
Ouvir não basta. É preciso compartilhar. É preciso mostrar pro outro aquilo que nos faz sorrir. São músicas que fazem lembrar da pessoa. São trilhas sonoras pra ocasiões e histórias. Acompanhando a evolução tecnológica, hoje não preciso mais gravar mídias naqueles cds piratas. Olha que já fiz muito isso e dava um trabalhinho. Agora é bem mais fácil. Com os serviços de streaming, basta criar uma playlist e ir arrastando as músicas ali.
Fácil, fácil. Difícil mesmo é escolher. Cada música, um significado. Nada em vão. A gente também se mostra naquilo que a gente ouve. Oferece a alma ali, nua, sem precisar nem explicar. Por que esta música aqui? Talvez só queira que você ouça e pronto. Talvez queira dizer algo pela letra. Talvez queira saber o que você sentiu. É tudo intencional. Ou não.
Tenho algumas playlists e ideias para tais. Aquela mais misturada, que reúne um pouco tudo que eu gosto e venho ouvindo na caminhada pro trabalho. Uma só com as minhas preferidas da Legião Urbana. Uma pra quando receber amigos em casa. E assim vai. Mas duas delas na minha lista foram feitas especialmente para alguém. Planejadas em tudo. E numa recente conversa, pude entender como essa simples concepção pode se tornar um verdadeiro ato político.
De alguma forma, criamos regras. Um tema em comum que vai permear todas as músicas que ali estiverem. São propostas com um tipo de organização própria. Só a gente entende. E tem o título, que também pode dizer muita coisa.
“Curadoria” foi feita meio despretensiosa. Ainda naquela descoberta deliciosa, quando surge uma nova amizade. E nova mesmo. A diferença de idade traz a curiosidade em saber o que será que a outra pessoa ouve, será que conhece minhas referências, mais antigas ou atuais. Tem muitos clássicos. Eu lembro que eu só queria mostrar Arcade Fire e acabei me empolgando.
“Degustação” já foi mais planejada. Com regras definidas desde o começo. Nem tão bem definidas assim, mas a gente tenta. Eu e minha alma gêmea, meu amigo da vida toda, agora estamos separados por muitos quilômetros. Condição ingrata da existência. E essa foi uma das formas encontradas para estarmos pelo menos um pouquinho mais perto um do outro.
Eu coloco, ele coloca. É colaborativo. Mas só podemos por duas músicas de cada artista. Eu sei, já disse, é muito difícil escolher. Em comum, o que há de novo. Novo pra mim, novo pra ele. Artistas novos, músicas novas. Novas versões em outras vozes. O novo é um conceito muito relativo, eu sei. Mas a gente se entende. É importante que ele saiba o que estou ouvindo. E eu também adoro saber o que ele achou. E amo mais ainda quando ele coloca música nova ali, vou correndo ouvir. E a gente discute. Fala das impressões. Completa falando sobre outras músicas, discos, clipes.
Isso vai além de achar que o outro pode gostar de algo. É algo mais sobre referências. Um compartilhamento cultural. De um jeito só nosso, é possível dividir nossa visão de mundo com alguém que a gente ama.
