Um instante de saudade e dor

Partilhar, Rubel e o comercial de Dia dos Pais da Imaginarium

Eu prometi que não iria escrever nada. Não queria mexer com profundidade nisso. Ainda é cedo. Meu primeiro Dia dos Pais sem ele. Não que isso signifique muita coisa, porque o velho nunca foi muito das datas. Testemunha de Jeová, né?

Mas eu fui completamente tocada por um comercial da Imaginarium hoje e tudo que estava guardado veio com muita força à superfície. Aí, já viram, né? Não é mais a gente que escolhe. Não há poder de decisão. As palavras simplesmente escapam.

Capitalismo, data comercial, que seja. Mas os 30 segundos de publicidade me chamaram muito a atenção. E nem sei se somente pela data. Talvez seja mesmo a música…

Partilhar, Rubel

A penúltima faixa de Casas, novo disco do artista carioca, sempre me soou como um hino do amor romântico em sua forma mais intensa. Aquele obsessivo, que tira o fôlego com total exagero, como mostra muito bem a primeira estrofe:

Se for preciso eu pego um barco, eu remo por 6 meses
 Como peixe, pra te ver
 Tão pra inventar um mar grande o bastante
 Que me assuste, que eu desista de você

No show de lançamento que Rubel fez no Cine Joia, ele chegou a comentar que se arrependia um pouco de ter colocado tanto desespero, que hoje enxerga que as relações amorosas podem, sim, ser mais tranquilas e saudáveis, sem esses desespero todo.

No entanto, no vídeo da marca, toda essa intensidade se revela como forma de encontro entre pai e filho. A mensagem final: “O tempo passa. Passe um tempo com seu pai” é a perfeita tradução do que quer dizer partilhar. E aí acontece a resignificação, a gente atribui um novo sentido e não consegue mais olhar do mesmo jeito.

É tudo que eu queria agora, chegar mais uma vez no chalezinho, encontrar o velho sentado na varanda e dizer “eu vim te ver”. Mas sei que não posso. É só um instante de saudade e dor. O que me conforta é saber que pude partilhar muita coisa. Fui privilegiada.

Meu pai nasceu no mesmo ano de Gil e Caetano. Embora sua vida não tenha sido marcada pela música ou pelo protesto, ele também foi um artista. Projetou casas, maquetes, máquinas, motores e brinquedos para mim.

Me ensinou a ler e a entrar no universo da leitura. Me fez imaginar um mundo melhor, por meio dos exemplos de sua integridade e de seu esmero. A vida nem sempre foi boa com ele, apesar de tanta dedicação. A injustiça das pessoas que tanto amou e lhe viraram as costas. O fruto do seu trabalho tirado, por eles e pelo governo.

Sem poder dar um abraço sequer, só desejo que ele esteja finalmente descansando como sempre sonhou. Abaixo, uma lembrança de uma carta de um Dia dos Pais qualquer.


Deixa eu cuidar de você. Pare, hoje não. Hoje eu vou te proteger, deite aqui. Descanse os pés, relaxe. Tire o peso das costas e as preocupações da cabeça. Já pensou demais: fez cálculos, projetou coisas incríveis. E viajou… quilômetros. Me fale das estradas e me conte dos hotéis e você conheceu, nem sempre a passeio. Escolha uma música: um jazz, ou somente o som dos instrumentos. Se quiser, coloco Ray Charles ou Nat King Cole. Se eu puder escolher, vou de Beatles, somente pra te agradecer por essa influência.

Feche os olhos, vou te contar uma história, também sei inventar. Temos a imaginação em comum. Tanto tempo já se foi e, da infância, só lembranças. Como herança, essa paixão pelos livros. Minhas letras… queria tanto que lesse minhas palavras. Mas, sua visão já é falha. 
 
 Então deixa… deixe-me contar algumas aventuras pra você. Quero te fazer sonhar, com animais falantes, como os tucanos professores. Já sei, vou ligar a TV, afinal, você sempre se rendia à magia dos desenhos animados.

Você, sempre criança. Vivia com brincadeiras o tempo todo, mas também não tinha medo de levar as coisas a sério. Talvez fosse uma maneira de encarar a vida, tão dura e injusta com você. Esse são meus referenciais, que levo por todo lugar, mesmo que longe. Mas, hoje que estou perto, só quero aproveitar você, esta noite. Antes que durma…