A cultura do elemento positivo




No estudo do design, uma das primeiras lições que se aprende diz respeito à importância da oposição entre forma e espaço, os elementos positivo e negativo de uma composição estética. A percepção do elemento positivo só se dá em função do negativo. Ou seja, para que os animais acima sejam percebidos como tal, precisam do espaço e do contraste entre as cores. Do mesmo modo, na fotografia, essa é a razão pela qual muitos retratos têm o fundo/segundo plano desfocado, possibilitando que o assunto principal, em primeiro plano, torne-se mais evidente e seja, afinal, entendido como o tema da foto. Essa é também a razão pela qual quadros são colocados em grandes paredes brancas em museus e galerias. É a condição para que sejam contemplados da forma ideal.

Mas esse não é um conceito aplicado somente à estética. A música está repleta de exemplos nesse sentido, onde o elemento negativo, ou seja, a ausência, acontece na forma de silêncio. Mais que isso, o que define as notas musicais é o espaços entre elas. Beethoven, Mozart, Debussy, Villa-Lobos e Miles Davis, para citar apenas alguns, usavam o silêncio em suas composições porque sabiam que ele próprio é música. Ele suspende para prolongar. Evidencia o que vem depois dele. Pense nas trilhas de cinema dos filmes de suspense. Sem o silêncio que precede o susto, este não seria tão intenso.

Na literatura, o mais importante é a ausência, sempre aquilo que não é dito, que está no espaço em branco das entrelinhas. Espaço é tão importante quanto forma. Ou seja: há coisas que só são percebidas na ausência de outras. É uma relação universal de oposição e interdependência, imprescindível para produzir conhecimento.

Porém, tudo indica que esse é um processo cada vez mais esquecido, posto que o que parece vigorar é uma espécie de cultura do elemento positivo, onde as formas superpopulam os espaços, anulando-os. Parece haver uma aversão, uma dificuldade de assimilar o “vazio”. É a velha história do cliente que sempre pede para aumentar sua logomarca no layout, não entendendo que aumentá-la a ponto de não deixar espaço ao seu redor, ironicamente, a tornará menos evidente na composição.

A era da suposta democratização da informação também trouxe a superexposição a ela, matando os espaços ao seu redor, essenciais para seu entendimento. Não há respiro para interpretações. No intuito de explicar o máximo possível, acaba-se com o elemento negativo, a ausência. É como se recebêssemos o quebra-cabeças todo montado, as palavras cruzadas todas feitas. Um processo que está atrofiando cérebros e criando sujeitos incapazes de estabelecer conexões entre aquilo que absorvem.

Precisamos desses espaços, de lacunas, para participarmos do processo, caso contrário, somos apenas expectadores, passivos. Essa é uma das razões porque David Lynch é um dos meus cineastas preridos. Em seus filmes, ao menos em boa parte deles, há brechas, pontas soltas para que você faça suas próprias interpretações. Conheço muitas pessoas que se frustam e se irritam com os filmes de Lynch, por chegarem ao final do filme sem um entendimento concreto da trama, que traga respostas, início, meio e fim. Como comentei em um post anterior, estamos mal acostumados: somos preguiçosos e queremos tudo que exija menos esforço intectual. E não é questão de condenar essa “cultura de massa”, mas sim, o fato de consumir-se apenas ela. Em certos momentos não há nada melhor que pegar a pipoca e se entregar a um bom blockbuster. Mas entendê-los (e seus equivalentes em outras áreas de cultura) como a única opção é que é nocivo.

Essa cultura está acabando com a relação de oposição entre espaço e forma. São como as pessoas que tatuam todo o corpo, às vezes até o rosto. No final, é como se não houvesse tatuagens, pois elas passam a ser espaço ao invés de forma. A própria urbanização extrema segue a mesma lógica. Por essa razão, viajar de carro, para mim, é inspirador. Ao trocar o cenário apinhado de edifícios que vejo ao olhar pela janela de minha casa, é reconfortante digirir por estradas que cortam espaço e onde a forma é minoria, numa inversão de proporções.

Em uma recente entrevista da revista Roling Stone, o reporter perguntava a Marcelo Camelo sobre uma determinada música de seu novo trabalho, pedindo que ele corrigisse sua interpretação se ela estivesse errada, ao passo que Camelo responde que jamais corrige interpretações.

Posso apostar que muita gente deve ter tomado essa atitude como arrogante. Mas, na verdade, é exatamente o oposto. É disso que se trata a arte: permitir perspectivas, possibilidades. A partir do momento que eu, por exemplo, digo sobre o que se trata um conto meu, estou matando o papel do leitor, pois tiro dele a possibilidade de tecer sua própria interpretação.

Nunca se teve tanto acesso à cultura. Mas, como uma galeria com milhares de paredes apinhadas de obras, sem nenhuma espaço entre elas, fica cada vez mais difícil distinguir o que é conteúdo e o que é parede.