Aqui não é Hollywood




Em sua autobiografia (Meu último suspiro) o diretor Luis Buñuel conta que, Em Zaragoza, além do pianista, que era responsável pela trilha sonora do filme, havia o explicador, que como o próprio nome sugere, tinha a função de ir explicando toda a ação em voz alta, de pé e ao lado da tela. Era o início do século XX e o cinema era uma experiência completamente nova. Ninguém jamais havia visto nada que se parecesse com aquilo, o que tornava perfeitamente justificável a presença do explicador.

Mais de um século depois, o cinema se consagrou como uma das principais formas de entretenimento. Movimenta somas astronômicas, criou um conglomerado de indústrias poderosas e alça desconhecidos à condição de estrelas, ao menos quando falamos de Hollywood. Porém, há uma coisa que ainda remonta ao século passado na história do cinema: o explicador.

A diferença é que agora ele não está mais ao lado da tela. Pelo contrário, foi incorporado ao filme e faz parte do próprio roteiro. Hollywood, ou melhor dizendo, a forma Hollywoodiana de fazer filmes estabeleceu fórmulas onde não há lugar para dúvidas. Tudo precisa ser explicado e respondido. Salvas as exceções, não há pontas soltas, lacunas ou perspectivas que permitam interpretações. E o ser humano, por natureza, é preguiçoso. É instintivo, nosso organismo é programado para economizar reservas, esperando pelo pior. E como pensar despende energia, juntamos o útil ao agradável, optando sempre pela opção que resultará em menos esforço.

Estamos mal acostumados. E pior: essa acomodação intelectual não está restrita aos filmes. Na verdade, se disseminou por entre todos os outros meios culturais. Na Praça é Nossa, um programa humorístico cuja primeira versão data de 1956, e ainda hoje existe (de forma sofrível no SBT), havia um personagem chamado Explicadinho. As piadas giravam sempre em torno do fato de que se tudo não fosse explicado nos “mínimos detalhes” (esse era o bordão do personagem) então todo o entendimento do discurso era comprometido. Má notícia: O mundo está cheio de Explicadinhos. E eles são a maioria.

Eis o motivo pelo qual a música sertaneja (e afins) faz tanto sucesso. Letras simples, facilmente assimiláveis e músicas com arranjos igualmente digeríveis. Os defensores do gênero, baixem as tochas, por favor. O que acontece com o sertanejo é algo que se aplica também ao Axé, Pagode, Funk, Britney Spears, Restart e assim por diante. Nesses casos, é comum quem questiona a qualidade desse tipo de música ser chamado de preconceituoso. Pois bem, preconceito, de acordo com o dicionário, significa “conceito formado antecipadamente e sem fundamento razoável”. Mais: a etmologia de preconceito está ligada à palavra prejuízo, que na língua portuguesa foi assumindo o sentido de ônus, mas na verdade, significa um pré-juízo, ou seja, fazer juízo de algo antecipadamente. Preconceito é um juízo preconcebido, ou seja, você julga antes mesmo de conhecer. Portanto, se preconceito é julgar antes de conhecer, e se eu já conheço a música sertaneja (e as outras), e ainda assim não gosto, está claro que não há aí preconceito, posto que tenho todo o direito de achar “meteoro da paixão” abominável.

Pela mesma razão, os livros de autoajuda são os campeões de vendas, figurando sempre nas listas dos best sellers. Respostas fáceis, na verdade, aquelas que as pessoas querem ouvir. Não há nada nas entrelinhas, nenhum conteúdo implícito que dê combustível para o inconsciente trabalhar. Desce fácil, sem esforço, sem pensar.

No filme Idiocracy (é difícil ignorar Hollywood) um soldado, cobaia de uma experiência de hibernação, acorda em 2505, em meio a uma sociedade completamente imbecilizada, o que faz dele um gênio, naquele contexto. É uma comédia, mas em essência, tem uma certa verdade eminente aí. Tenho uma filha de 1 ano e 1 mês. Me preocupa o mundo que ela vai encontrar daqui há alguns anos. As referências que ela terá à disposição e que consumirá (ou não), os lugares que irá frequentar, sua companhias, professores, as pessoas que vão participar da sua educação, da sua formação intelectual.

Há alguns dias, lembrei de Buñuel (e do cinema em Zaragoza) enquanto prestava atenção à babá preparando um lanche para ela. Basicamente, pedaços de frutas trituradas no mix. Sofia tem apenas 4 dentinhos e, obviamente, está apenas começando a aprender a usá-los, o que justifica, perfeitamente, o uso do mix, assim como o explicador, no cinema, no início do século XX, era justificável. Porém, fico imaginando qual será a hora certa de deixar as coisas menos fáceis para ela.

Tomando para mim uma fala de Marcelino Freire, eu escrevo para me vingar. Do quê? Isso só eu sei (e mutas vezez nem eu sei) e não vem ao caso contar, afinal, faz parte do processo que você, leitor, teça suas próprias teorias a partir da minha literatura. Dito isso, não me interessa um texto leve, saboroso, que desce fácil. Pelo contrário, gosto de pensar que ele pecisa ser mastigado, engolido, até regurgitado e finalmente digerido, ainda que não completamente.

Outro dia, vejo a babá preparando, novamente, uma das refeições da Sofia. Dessa vez, minha esposa intervem, orientando que aos poucos, ela vá triturando cada vez menos no mix, a fim de ajudar na sua mastigação. Sofia percebe que dá mais trabalho. Tira os pedacinhos de legumes da boca, tem preguiça, quer parar de comer. É o instinto agindo. Mas, pro seu próprio bem, ela precisa entender, desde cedo, que aqui em casa não é Hollywood.

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