Bela Lugosi is Dead

Parte 2

Jesse Eisenberg no filme The Double



A platéia faz um silêncio abissal. A única coisa que se ouve é a voz de Turnes, que havia começado a falar há não mais do que 2 minutos. Nesse momento, ouço risadas abafadas. Elas vem de duas meninas, sentadas, exatamente ao meu lado. As risadas ficam mais altas, a ponto das pessoas começaram a olhar pra trás. Tenho a impressão (mas talvez seja só mesmo uma impressão) de que Turnes improvisa e adapta o texto largando um “Pobre daqueles que riem”, o que desencadeia um verdadeiro, e agora, incontrolável ataque de riso nas adolescentes. Leva mais ou menos um minuto até que elas consigam retomar o controle. Vejo muitos maneios de cabeça, em sinal de reprovação, nas fileiras à frente.

***

Antes do espetáculo iniciar, tenho uma quase convicção de que seria pouco provável que este superasse o da noite anterior. A platéia se acomoda, as luzes se apagam e logo ouvem-se trovões, seguidos da voz projetada de Turnes que inicia o texto. Por algum tempo, só por ela é possível adivinhar onde ele está, até que uma luz muito tênue, pálida, surge, revelando um pedaço de rosto. Aos poucos, ela torna-se levemente mais intensa e, ali, por volta dos 10 minutos de peça, me dou conta de duas coisas: que aquela luz vem de uma vela, encoberta por um livro, e que eu estava completamente enganado quanto a achar que a segunda noite não superaria a primeira.

A peça que dá continuidade à trilogia Lugosi é Outsider, de H. P. Lovecraft, considerado um dos escritores de terror mais influentes do século 20. E não sou em quem diz, é Stephen King, que chamou Lovecraft de “o maior praticante do século XX do conto de terror clássico.” A história trata de uma criatura que a vida toda viveu aprisionada em um castelo sombrio, privada desde sempre da luz do sol ou da presença de outros seres humanos. Sua única companhia são os livros antigos. Em dado momento, e justamente inspirada por eles, ela decide escalar uma torre que acredita ser a forma de acesso ao mundo exterior. Daí para frente, trilha um caminho que a leva a encontrar uma criatura abominável e assustadora que é nada menos do que ela própria.

Se Turnes impressiona na interpretação do assassino em Coracão Delator, em Outsider vai além. Há claramente uma tensão progressiva que mostra uma escalada da primeira até à terceira peça (que será comentada no último texto dessa trilogia) e é a isso que me refiro quando menciono uma superação a cada noite. Não se trata de menos ou mais qualidade entre elas, mas sim do aspecto de construção narrativa que segue numa crescente. Imagine uma montanha russa. Coracão Delator e Outsider são os estágios de subida, quando você lentamente vai se dando conta do quão assustadora pode ser a experiência e do medo que começa a sentir. O homem que imitava a si mesmo, a terceira peça da trilogia, é a vertigem, o ponto onde você realmente começa a experimentar tudo aquilo que temeu por antecipação nos estágios anteriores. A produção de Bittencourt segue impecável e o baú, como comentado no texto anterior, funciona como elemento de conexão entre as 3 peças, usado aqui de forma brilhante e trazendo algo dentro dele que prefiro manter em segredo para não estragar a surpresa.

O duplo é um tema amplamente explorado em toda a literatura, antes mesmo de Freud teorizá-lo na psicanálise. Conhecido também como Doppelgänger (doppel, de duplo, réplica ou duplicata e gänger, de andante, ambulante ou aquele que vaga) de acordo com lendas germânicas, seria um monstro ou ser fantástico com o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa por ele escolhida ou que passa a acompanhar. Imita em tudo a pessoa copiada, até mesmo as suas características internas mais profundas. Comumente associado ao sinistro, o duplo nos mete medo porque reflete tudo aquilo que não queremos ou temos vergonha de ser. Se o monstro é o reflexo da criatura que não suporta sua própria imagem no espelho, ainda que não saiba se tratar dele próprio, nossos duplos são tudo aquilo que queremos esconder ou que não suportamos saber. E para uma trilogia que se propõe a ser uma homenagem ao gênero do terror, nada melhor do que fazer com que olhemos para nós mesmos.

***

Turnes encerra, faz as reverências e agradece ao público. Nesse momento, lembro de olhar as meninas ao meu lado. A primeira coisa que percebo é que não há mais nenhum traço de diversão em seus rostos, qualquer vestígio daquele ataque de riso sumiu completamente e, inclusive, parecem assustadas, quase catatônicas. Eu olho uma segunda vez e, por um instante, tenho a nítida impressão de não serem duas, mas apenas uma menina. Escolho ir embora sem ter certeza.