Bela Lugosi is Dead

Parte 1




Em 1979, Bauhaus (a banda) lançava seu single de estréia cujo terceiro verso dizia “Bela Lugosi’s dead”, também nome da música, para algumas estrofes depois, “ressucitá-lo”, ainda que como morto-vivo, repetindo “Undead, undead, undead”. De fato, Lugosi, o ator húngaro que imortalizou Drácula no cinema e deu a cara dos filmes de terror em Hollywood por mais de uma década, já estava morto há 23 anos. Hoje, 55 anos depois de sua morte, e 32 depois da homenagem póstuma do Bauhaus, uma dupla de catarinenses, Renato Turnes e Jefferson Bittencourt, também quer ressucitar Lugosi.

Estão fazendo isso nos palcos, com a Trilogia Lugosi, uma sequência de peças que, embora não tenha relação direta com Lugosi ou com nenhum dos personagens que interpretou, leva seu nome por se tratar de três histórias que prestam uma homenagem ao gênero do terror. E, acredite, em tempos de epidemias globais, cidades submersas e nerds ressentidos e raivosos metralhando colegas, você pode até não se assustar mais com o Drácula de Lugosi, mas vai olhar por cima do ombro algumas vezes durante as peças só pra se certificar que seu pescoço está seguro.

A primeira da trilogia é Coração Delator, uma adaptação do texto homônimo de Edgar Allan Poe. A história trata de um assassino confesso que narra seu crime, cometido de forma brutal. O texto vai intercalando detalhes do assassinato com digressões psicológicas que remontam à memórias de uma infância conturbada e de uma amada, também já morta. Com uma produção simples (mas impecável) e uma atuação arrebatadora, o que teria tudo pra se tornar mais um desses mónologos pretensiosos e maçantes, se mostra uma experiência de imersão de grudar qualquer um na cadeira por 45 minutos e uma senhora aula de teatro.

Ao entrar na sala, tomada de “neblina,” você já se sente em algum dos becos soturnos dos contos de Poe. Através dela, a luz ganha textura, consistência, torna-se quase palpável. Bittencourt tem a mão afiada. Com a iluminação certa, nos lugares certos e nos momentos certos, a interpretação de Turnes ganha ainda mais em intensidade. E por falar nisso, é preciso dizer que ela faz juz ao texto de Poe. Turnes domina a narrativa, a explora ao máximo, sabe onde colocar casa pausa, cada grito, cada expressão.

Outro ponto que merece destaque são os elementos cênicos, que por si só, são poucos e simples, mas explorados de forma muito inteligente. Em Coração Delator, o palco conta com apenas uma cadeira, um pedestal de suporte para soro (ou, no caso da peça, uma bolsa de transfusão de sangue) e um baú, que, primeiro, é o elemento de ligação que está presente nas 3 peças e, segundo, assume diversas funções ao longos delas. Em inúmeros momentos, por exemplo, ele é a porta do quarto que, de tanto em tanto, o assassino abre para se certificar que a vítima já está dormindo.

Turnes já está em cena desde que o público entra, embora só seja possível destinguir como está e o que se faz a medida que a luz, gradualmente, vai permitindo essa revelação. Daí pra frente é uma crescente de tensão que termina de forma surpreendente. Uma peça brilhante que mostra que grandes produções nem sempre são determinantes pra construir um grande espetáculo. Saí do teatro achando que seria impossível a segunda peça ser melhor. Eu estava completamente enganado, mas falarei disso na segunda parte do texto.

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A biografia de Bela Lugosi conta que ele não começou no cinemas, mas nos palcos. E que, graças a uma grande atuação em uma peça onde interpretou o próprio Drácula, ele conseguiu seu primeiro papel no cinema, aquele que o imortalizaria. Diz ainda que Lugosi era viciado em morfina, devido a dores terríveis e constantes que sentiu durante a vida toda, ocasionadas por supostos ferimentos de guerra. Seja o que for, não posso deixar de pensar que se Lugosi pudesse assistir à trilogia batizada em sua homenagem, durante mais ou menos duas horas, talvez ele não precisasse da morfina.