Estrela, estrela

Vitor Ramil




Talvez você saiba que ao olhar para as estrelas, não está as vendo realmente, mas sim, uma representação do que elas eram no momento em que sua imagem (luz) começa a viagem, da origem até nosso campo de visão. Dependendo do quão distante a estrela está de nós, esse trajeto pode durar centenas ou milhares de anos-luz para ser concluído, o que implica que a visão que temos pode corresponder até mesmo a uma estrela que já não mais existe.

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“O délibáb é um fenômeno extraordinário da planície húngara, tão semelhante às planícies do sul do nosso continente. Único em seu gênero, este tipo de espelhismo transporta paisagens muito distantes a horizontes quase desérticos, reproduzindo ante os olhos maravilhados do observador, em dias de calor, o desenvolvimento de cenas distantes. Um trem corre a toda velocidade, mas não se percebem ruídos da máquina, nem se escutam os apitos. Em realidade, tal cousa sucede porque o trem não está ali; talvez se encontre a mais de 100 km de distância. Mas o délibáb o atrai ao horizonte…”*

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As estrelas, como um délibáb, são representações de algo que já não corresponde ao presente. Podemos vê-las, mas pertecem a outro tempo e outro espaço, a exemplo do que são as próprias fotografias, que nos contam histórias de algo que já não está mais ali. O espetáculo de Vitor Ramil e Carlos Moscardini foi assim. Como estrelas, pareciam estar próximos, diante de uma constelação de espectadores encantados com a beleza daquilo que nos contavam. Como num délibáb, traziam histórias pertencentes a um outro espaço-tempo. Ora pelas milongas de Jorge Luis Borges, ora pelas de João da Cunha Vargas, nos chegavam cenas que iam das ruas de uma Buenos Aires mítica e seus compadritos, até o pampa gaúcho de um Rio Grande do Sul, com suas cores e objetos, que só a memória de um poeta poderia registrar. Ora quem aparecia era um Vitor Ramil do tempo de Pé de espora, Mango ou Tapera, ora da época de Querência, Semeadura ou Ramilonga. Canções apresentadas à perfeição, ainda mais encantadoras pela presença de palco de Vitor e Moscardini e pelo magnestismo entre eles próprios, divertindo a plateia e nos fazendo sentir no céu, afinal, perto das estrelas. E o que esperar delas, então, se não uma carreira brilhante?

Estrela, Estrela. Vitor Ramil, Carlos Moscardini. Chapecó estava estrelada nessa noite.

*Satolep, Vitor Ramil