Modos inacabados de morrer

Escrever é, em grande parte, um sonho voluntário, ao mesmo tempo abandonado e metódico, a sensação de que assistimos à história que estamos imaginando enquanto a contamos.
Antonio Munõz Molina

Prólogo

Você tem treze anos. Os membros crescem em uma relação díspar, como se estivessem competindo entre si, mas fossem muito diferentes nas competências que os fazem avançar. Os pés crescem mais rápido que as próprias pernas; o nariz dispara com larga vantagem em relação ao resto dos demais elementos que constituem a face; os braços se alongam de uma maneira que faz o tronco parecer pequeno demais para os anexos que carrega. Aqui e ali, pelos começam a surgir sem um padrão aparentemente definido: pernas, braços, axilas. A sombra de uma barba começa a se pronunciar timidamente. Na barriga, um rastilho de pólvora.

Com treze anos, talvez você pense em garotas. Talvez você pense em garotos.

Talvez você não saiba muito bem o que pensar ou, até mesmo, pensar seja a última coisa que você cogite quando o assunto são garotas. Ou garotos. Talvez seus pés enormes e desproporcionais ainda não estejam crescidos o suficiente para chegar do outro lado da linha. O lado em que você tem convicção de certas coisas, o lado em que você já avançou o suficiente para não sentir falta daquilo que precisa deixar para trás ou para se sentir atraído por tudo aquilo que ainda está por vir. Talvez você ainda não tenha avançado o suficiente, mesmo com seus pés enormes, para saber o que é a língua de uma garota, ou de um garoto, operando movimentos circulares e molhados dentro da sua boca.

Vagando por essa área nebulosa em que você já não é mais exatamente o que era, mas também não é plenamente o que pode vir a ser seu brinquedo predileto compete em grau de lembrança com imagens de pessoas nuas.

Talvez brinquedos e pessoas nuas coexistam nos mesmos pensamentos. Com treze anos, as coisas mais disfuncionais podem passar pela sua cabeça. Entretanto, uma delas jamais deveria. Com treze anos, você não poderia pensar em morrer. Você não poderia querer morrer. E como seria de se esperar, com treze anos, você sabe pouco ou praticamente nada a respeito da eficácia das diferentes maneiras de acabar com a própria vida. Não há internet.

Além disso, o manual completo do suicídio só será escrito daqui a alguns anos.

Então, talvez devido à facilidade de acesso à arma de seu pai, talvez por ser mesmo uma das formas mais frequentes e conhecidas de se matar, você escolhe o tiro na cabeça. Você conhece o lugar: no quarto de seus pais, em cima do guarda-roupa, sob as caixas empoeiradas com fotos e documentos antigos. Resoluto, com o revólver enrolado em uma camiseta surrada, você caminha até seu quarto. O coração, provavelmente, num ritmo tão acelerado quanto a velocidade da explosão que o projétil pode alcançar na hora do disparo. Você não pretende deixar nenhum tipo de carta, até mesmo porque, de acordo com seu entendimento dos fatos, o bilhete deixado por Valerie já explica parte do problema. O restante você não pode deixar que saibam. Portanto, não há nada a dizer a ninguém.

Você abre a boca com relutância, procurando não olhar para baixo, para evitar o contato visual com a arma.

Sente o gosto metálico e a mão trêmula. O dedo vacilante. O gelado do metal contra o palato é a enunciação da própria morte abrindo passagem, com uma única bala, para chegar até o seu cérebro de treze anos. Você se recosta na cadeira em frente à escrivaninha, apoiando a cabeça no encosto. Fecha os olhos e, no exato instante em que tensiona o indicador para puxar o gatilho, cai em sono profundo, como já havia acontecido algumas vezes antes e como aconteceria tantas outras deste momento em diante, durante toda a sua vida.

Então, pateticamente, você é acordado por Agnes, que o sacudindo com violência, grita seu nome alto o suficiente para que você a ouça, mas não a ponto de seus pais, no andar de baixo, quererem subir para ver o que está acontecendo. Você não sabe por quanto tempo apagou, provavelmente não muito. A arma caída sobre seu colo. No bolso da camisa, a ponta do bilhete que se insinua. O bilhete assinado por Valerie.

Agnes está ofegante, as mãos trêmulas, explicando que sua mãe a deixou subir. Então, você chora todo o choro represado até este momento. Chora por ter fracassado em tentar acabar com a própria vida, por ter pensado em acabar com a própria vida, chora por Lupi, chora por Agnes ter presenciado essa cena, e por Valerie ter ido embora na hora em que você mais precisava dela. Limpando suas lágrimas com as palmas das mãos, Agnes apenas diz baixinho que tudo vai ficar bem. Uma garota de treze anos. Ela o abraça ternamente, e você cai em sono profundo mais uma vez. Seu nome é Santiago.


Parte 1

Sua carteira fica na última fileira, junto às amplas janelas que ocupam toda a extensão da lateral da sala de aula. Agnes senta-se uma classe à sua frente, e Lupi uma atrás. O relógio marca oito horas e cinco minutos. Isso significa que se passaram apenas trinta e cinco minutos de aula. Faz sol. Devido à posição do prédio, até aproximadamente às nove da manhã a luminosidade atinge em cheio todo o espaço. Em dias muito quentes, no verão, é preciso baixar as cortinas. Não é o caso hoje. O clima está ameno e, conforme os raios de sol atravessam o vidro, gentilmente acariciam seu rosto e destacam as partículas de poeira suspensas no ar. Você olha ao redor e seus colegas também parecem em estado de suspensão, como se ainda não tivessem acordado.

Você procura prestar atenção ao que o professor diz, mas tem a nítida impressão de que suas palavras se tornam cada vez mais distantes até que começam a reverberar.

Então você olha novamente para a janela e percebe que o tempo mudou bruscamente. A luz calorosa e aconchegante dá lugar a um cinza-chumbo que escurece a sala, ao mesmo tempo em que o vento espalha um cheiro de chuva. Depois de dois estrondos que fazem os vidros vibrarem a ponto de parecerem próximos de quebrar, começa a chover intensamente. O vento cresce em força e, primeiro, começa a espalhar todos os papéis dentro da sala, para em seguida bater portas de armários e balançar violentamente as cortinas. Uma das folhas superiores da janela atrás de você colide contra a esquadria de metal e se estilhaça, espalhando vidro por todos os lados. O professor orienta que todos se protejam embaixo de suas carteiras. Chove cada vez mais.

Você dá uma última olhada para fora antes de se abaixar e vê que o nível da água subiu com uma velocidade espantosa. Logo, tem tempo apenas de gritar antes de ver uma enorme onda, carregada de destroços, vir em sua direção. No momento em que a parede de água atinge a sala, você sente ser arrastado para baixo e, submerso, é jogado de um lado para outro. Tenta subir à superfície, mas a cada movimento é arremessado e sente outros corpos colidindo contra o seu. Ao mesmo tempo em que a grande massa de gente, coisas e a própria sala movem-se em um turbilhão, você percebe que tudo e todos são impelidos à frente. Sem ar e, em uma última tentativa desesperada de subir, você consegue emergir e toma todo o fôlego possível para, já respirando, olhar ao seu redor.

Você flutua solitário em meio a um oceano de destruição e silêncio. Um arquipélago de morte em que você é a única coisa viva.

Aos poucos, a voz do professor começa a reverberar novamente. Parece vir de todos os lados e gradualmente torna-se mais audível e próxima de você. Soa como se dissesse seu nome. Começa de maneira gentil, mas firme, até tornar-se um grito pronunciado de forma grave e resoluta, que ordena: Santiago, acorde!

É o horário de intervalo na escola.

Você conhece todas as crianças que estudam lá, e todas elas conhecem você. Primeiro, por causa dos estranhos ataques de sono que você tem tido ultimamente e, segundo, porque é mesmo uma cidade pequena. Como a maioria das escolas, seu espaço se constitui de pavilhões que circundam uma grande área central onde todos se reúnem antes das aulas e no intervalo. Você está precisamente no meio. Ouve o burburinho, o grande aglomerado de sons, ruídos e vozes indistinguíveis do coletivo. Uma profusão de cheiros, cores e movimentos no seu entorno. Talvez pela superexposição a uma miríade de estímulos, talvez pelo próprio medo antecipatório à situação ou talvez pelo medo de sentir medo, uma descarga de adrenalina percorre seu corpo, antecedendo o blackout.

Você perde todo o controle dos músculos e sua queda o põe arqueado, como uma letra C, bem no centro do pátio.

Lentamente, o burburinho vai cessando, as pessoas se afastando, até que você se torna uma ilha, isolado, cercado por um tanto de nada e, mais ao longe, por um mar de gente que agora suspende o tempo em silêncio absoluto. Em meio à pequena multidão que o circunda, uma única menina atravessa o nada para chegar até você. Valerie coloca a mão sobre seu ombro, o balança lentamente até que você acorde. A escola explode em gargalhadas, gritos e piadas que você ouve entrecortadas, distinguindo partes de apelidos cruéis, insinuações irônicas. Você se levanta tão rápido que quase derruba Valerie, atravessando o nada como se corresse sobre a água, abrindo caminho em meio às ondas de pessoas que desferem golpes e xingamentos enquanto você passa através delas.


Estas são as primeiras páginas de Modos inacabados de morrer, romance vencedor do concurso Maratona Literária, da editora Oito e Meio. O livro narra a história de Santiago, da infância a sua vida adulta, mostrando as descobertas pela qual passa ao se descobrir portador da narcolepsia, uma doença que, em condições severas, faz com que pessoas durmam contra a própria vontade, independente de hora ou local.

Seu lançamento oficial acontece no dia 6 de dezembro, no Rio de Janeiro.

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Veja o texto da escritora Moema Vilela sobre Modos inacabados de morrer.

Você sabe o que é ter treze anos, e vivenciar as asperezas da escola, e se apaixonar pela primeira vez, e ter um corpo que não lhe pertence completamente, que nem sempre obedece ou acomoda. Por isso, enquanto Santiago, o protagonista de Modos inacabados de morrer, não consegue se habitar de todo, premiado na loteria da vida com a inadequação extra da narcolepsia, nós, os leitores, vamos entrando na intimidade dessa juventude que todos encontramos em nós. Capturados pelo ritmo da narrativa, pelas delicadezas deste romance de formação e também pela escolha do autor, saborosa e ainda um tanto rara, de contar a história na segunda pessoa. Aqui, o livro bebe do Bildungsroman moderno e das narrativas contemporâneas que também elegem esta perspectiva narrativa, dialogando, por exemplo, com um dos melhores contos de David Foster Wallace de uma maneira bem íntima.

Entranhados neste “você” que é outro e é nosso, somos carregados cada vez mais dentro da história, enquanto, para Santi, a excitação das novas experiências o arranca para fora de si. Chorar, sentir medo, nadar, até rir pode lhe roubar o controle, apagar sua luz. Pode também deixá-lo à mercê da narrativa dos outros, com suas violências. Com seu perigo. O entrelaçamento das vidas dos personagens vai se desvelando no tempo e nos modos do amadurecimento: devagar e veloz, e sempre com impacto. O autor renova a tensão na mesma constância e regularidade com que o mar lança suas ondas. Sem descanso. Saímos banhados, encharcados de vida.

Moema Vilela