Plástico

Roberto Panarotto




A etmologia define plástico, e por sua vez, plástica, que vem do grego plastiké, como o ato de plasmar; o conjunto das formas do corpo humano; a beleza de formas ou o processo de reconstituir uma parte arruinada ou deformada do corpo humano. Escolha qualquer uma dessas definições e elas servirão bem ao propósito de descrever alguma das camadas de Plástico (2014), o mais recente filme de Roberto Panarotto, um média-metragem.

Da mesma maneira, você pode escolher a qual referência prefere relacionar a narrativa. Se optar por Metamorfose (Kafka, 1915), vai identificar o processo de transmutação, descoberta e conflito pelo qual o jovem protagonista passa. Se escolher Morte em Veneza, livro de Thomas Mann, mas especialmente a adaptação para o cinema (Luchino Visconti, 1971) observará uma relação idealizada e pautada pela ausência de diálogos, onde a busca pela perfeição se dá através da forma e a estética diz tanto ou mais que as palavras. Se escolher Eraserhead (David Lynch, 1975) vai claramente associar Plastichead, o protagonista de Plástico, a Henry Spencer, um homem solitário, que vive num pequeno quarto suburbano em um cenário pós-industrial. Tanto um quanto o outro terão suas vidas modificadas a partir do momento em que conhecem as respectivas mulheres, jovens bonitas e sedutoras (Lolitas) com as quais estabelecerão uma relação.

As pistas estão em toda parte, até mesmo nas camisetas que o protagonista veste, que contam pictograficamente uma espécie de jornada do herói. Como o livro de Lewis Carrol, autor de Alice, em cima do criado-mudo sugere, é preciso seguir o coelho branco, permitir que os sentidos estejam receptivos para embarcar na viagem sensorial que Plástico propõe. Tal qual o pecado original, na primeira mordida que Plastichead dá em sua maçã, sentimos que daquele ponto em diante não há mais volta. Assim como um Alex (de Laranja Mecânica, Burgess, 1962 e Kubrick, 1971) ou um Syd Barret (Pink Floyd) ou o personagem de O Grito (Edvard Munch) acompanhamos a perda da inocência de um personagem que na tentativa de se aceitar ou descobrir-se acaba por sentir-se um peixe fora d´água (é notória sua sede insaciável ao longo do filme), deslocado, desesperado. Enquanto busca se relacionar com Isabel, presenciamos uma relação (como tantas outras) em que na ânsia de se estar junto culmina na perda da individualidade, um processo delicadamente representado através das cenas do espelho e chuveiro, um dos momentos mais poéticos do filme.

Seja na camiseta que escancara Doppelgänger, evocando a ideia do duplo e da esquizofrenia e pavor de ver-se fundindo em outra pessoa, seja nas cenas que representam simbolicamente a consciência em conflito, uma referência clara à Sala Vermelha de Twin Peaks (Mark Frost e David Lynch, 1990) Plástico, além de uma quase lisérgica experiência sinestésica, é uma profunda e bela reflexão a respeito de nossa própria condição de se relacionar com o outro sem ultrapassar a confusa fronteira do tornar-se o outro.

Como disse Rimbaud, “eu é um outro’.