Queda da própria altura
Sérgio Tavares
Imagino Sérgio se movendo velozmente e com desenvoltura. Ele ginga e desfere golpes precisos contra um oponente invisível. Alternando os punhos cerrados, golpeia o teto-solo rubro, de couro desgastado e quebradiço, criando uma cadência rítmica. Massacra um pobre sparring em um ringue surrado de uma academia de cores desbotadas e cheiro de suor impregnado em cada canto.
Agora sinto sua presença, caminhando de cabeça baixa pelos corredores solitários que levam ao lugar do embate. Entretanto, não há plateia, nem treinador, nem lindas mulheres de biquini carregando placas que sinalizam o número do round. Ninguém grita seu nome. Tampouco o meu. Somos apenas e eu ele. Eu versus Sérgio. Sua narrativa versus meus temores mais abissais.
Posicionados em corners opostos, nos estudamos com cautela, mensurando expressões que possam denunciar fraquezas, inseguranças. Ouço o tilintar do metal contra metal da sineta. Nos encontramos no centro e tocamos de leve as luvas com certa reverência e respeito.
Sérgio parece seguir um traçado invisível no ringue, como se seus pés tocassem apenas marcações precisas dos passos de uma dança veloz e perigosa. Lança mão de um lirismo que me hipnotiza, me arrasta. Narra o cotidiano com uma destreza que desconcerta. O oco da vida no que ela tem de mais simples e ao mesmo tempo mais assustador. Pressinto o perigo, de fato sei que o golpe é inevitável e ainda assim não consigo evitar entrar em seu jogo.
A primeira sequência de jabs é apenas um alerta, um vislumbre da ruína. Linha após linha me espanta o fato de ele ter sempre algo de muito relevante a dizer. Constatações que estremecem minha base, enfraquecem minha defesa.
Sinto o primeiro gancho, na linha da cintura, com a dor de quem perde algo. Não uma perda qualquer, mas do pior tipo possível: a ausência daquilo que nunca se chega a ter de fato, das coisas que nos doem mais que tudo pois no campo da idealização não tiveram a oportunidade de nos frustrar, nos decepcionar ou nos trair.
A sineta reverbera anunciando o fim do primeiro round. Arranco o protetor da boca. Bocejo um pouco de água cuspindo o sangue que tinge o chão. Sérgio parece impassível, ileso. Voltamos. A cada nova investida dele sinto que os golpes alcançam dimensões metafísicas. Atravessam a carne e abalam convicções, estremecem pilares que eu pensava estarem firmes a essa altura da vida. Não é preciso nem mesmo que ele se esquive, não contra-ataco.
Penso nos grandes. Ali, Marciano, Sugar Ray, Tyson. Também penso em Cortázar e começo a me perguntar se narrativas longas, realmente, vencem por pontos, pois a cada página que viro a sensação iminente do nocaute ganha corpo. Subitamente, passo a perceber seus movimentos em slow motion e ainda assim sem tempo hábil ou condições de reagir. É como se Sérgio esquadrinhasse a geometria formada por minha guarda e através dos punhos vacilantes, posicionados a frente do rosto, fosse capaz de identificar a precisa janela para desferir o golpe derradeiro.
Percebo-o tomando impulso conforme o fim se anuncia. Sinto o impacto do direto em meu maxilar. Voo através do ringue, descarrilhando palavras e sentenças cortantes. Aterrizo com o peso das descobertas mais doloridas pesando sobre os ombros. Mas caio de pé, apenas pelo tempo suficiente para tombar em uma queda da minha própria altura. Beijo a lona com dentes estraçalhados, contando fraturas, hemorragias e hematomas. Mas encerro a luta eufórico e convicto de que a grande literatura jamais nos deixa sair ilesos e de que perder, nesses casos, significa vencer.
Queda da própria altura | Sérgio Tavares | Confraria do vento | 244 páginas
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