Três é demais

Foto: Unocultural

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Algumas das produções que mudaram a história do cinema são trilogias. Não são raras entre as narrativas mais memoráveis da literatura aquelas que trataram de triângulos, amorosos ou não. Muitas das músicas mais icônicas da trajetória do rock têm apenas três acordes. Dos Ramones à Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Dom Casmurro ao Poderoso Chefão, de Ana Karenina a Star Wars (sou do tempo em que era mesmo uma trilogia), o número 3, cabalístico, por sinal, vem registrando uma presença constante e marcante, desde tempos imemoriais e nos mais distintos universos.

Um japonês, um argentino e um cabeludo. Uma mistura tão improvável quanto a música que eles fazem: instrumental. Um guitarrista virtuoso e com presença de palco, um baixista hábil que parece ter introjeado a cadência bem marcada do tango, porém, com fluidez e velocidade, e um baterista que é quase medieval, em parte pela cabeleira desgrenhada, em parte pela brutalidade com que disciplina sua bateria. Essa é a John Filme. Uma banda dos confins do velho Oeste Catarinense, mesma terra pródiga da célebre banda Repolho. Terra quase sem lei, onde sobrenomes ainda fazem diferença e onde se dão nomes engraçados para as bandas e suas músicas.

Akira (19), Gringo (22) e Nando (15). No palco, a impressão que se tem é que as idades se somam e então é como se um desses veteranos ou lendas do rock estivesse tocando. Não por acaso, eles se vestem de açougueiros. Faz sentido. Você sai do show em pedaços, tentando entender o que aconteceu e, acredite, leva um tempo até você se recompôr, talvez pela visceralidade da música, talvez pela disparidade entre aqueles rostos imberbes (e quase inocentes) e a música que fazem, intensa, endiabrada. O fato é que eles sabem, precisamente, onde acertar. Começam pelo estômago. Em alguns momentos é como se fosse um soco. Dependendo do momento são as pernas, que tentam insistentemente acompanhar a banda, o que é impossível. Eles também vão direto no coração quando querem, pra depois começar tudo novamente. No fim, é como se fosse uma sangria, com a diferença de que depois eles injetam música em você. E ela pulsa, bem forte.

Entre uma brincadeira e outra, entre piadas e performances não ensaiadas (e por isso autênticas e naturais) e entre sorrisos trocados entre eles próprios, o que denota uma cumplicidade que só amigos conhecem, por um momento você lembra que são só 3 garotos se divertindo, despretenciosamente. Mas logo que você se vê em meio ao transe novamente, começa a percebê-los grandes outra vez. Imensos, porque é isso que eles fazem, crescem até tornar qualquer lugar pequeno para eles, simplesmente porque eles são demais, porque não cabem em convenções ou rótulos. Não se trata apenas de sentido figurado, você sente a textura densa da música tomando conta do recinto, sente ela batendo no seu peito de forma desafiadora, como se quisesse puxar briga, percebe ela se instalando no seu entorno. Por isso você não consegue se mover, levantar ou mesmo olhar para o lado, porque não há espaço pra isso ao seu redor, posto que a música deles ocupa e toma para si toda possibilidade de existir.

Em se tratando de John Filme, 3 é mesmo demais, porque eles são demais. Um japonês, um argentino e um cabeludo. Pra que mais?