Uma escola para fazer escola




Eu sou, assumidamente, uma nulidade absoluta em termos de localização espacial. Esqueço os caminhos mais simples, erro ruas, me perco mesmo em trajetos que faço com certa frequência. Por isso, procuro pelo endereço da escola no Google Maps, olho com atenção por alguns minutos. Depois, pergunto a minha esposa, a navegadora oficial da família, como chegar. Ela, já rindo porque sabe que vou me perder, explica: “depois do shopping, vira à esquerda no posto, depois esquerda de novo, anda umas duas quadras e dobra à direita… tu não vai achar”. Coloco as coordenadas no gps do celular, sigo as indicações e ao chegar próximo do destino, surpresa, já me distanciei dele. Paro pra pedir informações e descubro que passei pela lateral da escola e não a vi. De qualquer forma, chego no horário marcado e a primeira impressão que tenho é que a EEB Saad Antônio Sarquis é maior do que eu imaginava.

Chapecó está localizada no extremo oeste do estado de Santa Catarina. De acordo com o IBGE, tem uma população estimada de quase 200 mil habitantes, distribuídos em 626,060 km² de área total e 36,1 km² de área urbana. Seus indicadores sócio-econômicos estão entre os mais elevados do país com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0.790, sendo o 67º maior IDH municipal do Brasil e o 12º de Santa Catarina. Chapecó é ainda a capital: do oeste catarinense; das agroindústrias; do turismo e eventos de negócios; e do interior catarinense. A Escola de Educação Básica Saad Antônio Sarquis está localizada num bairro chamado Cristo Rei.

Há pouco mais de uma década, a escola era chamada de cadeião. Quem estudava lá não contava, pois tinha vergonha. Em termos de estrutura o Saad, é assim que as pessoas do bairro chamam a escola, era uma construção precária dividida ao meio por um córrego de esgoto que atravessava o terreno. Além disso, era alvo constante de depredações, marginais, traficantes e violência contra e entre alunos. Mas esse é o Saad do passado. Hoje, os alunos enchem a boca para dizer que estudam lá. Muitos dos formados no ensino médio estão sendo aprovados em universidades federais sem a necessidade de cursinhos pré-vestibular e a escola provavelmente seja uma das públicas mais concorridas da cidade. Em meio ao cenário desolador da educação pública no Brasil, a Saad Antônio Sarquis parece ter encontrado o caminho para fazer dar certo. E mais: fornecem as coordenadas para quem quiser aprender.

Os responsáveis por esse feito são uma equipe dedicada comandada por uma tríade de gestores de diferentes vocações que se complementam: Carlos Casonatto, diretor da escola praticamente desde de sua fundação e seus dois assessores, Paulo Sérgio Paz de Oliveira e Neusa Muller Ferreira Garcia, que integram a equipe desde 2008. Carlos é um gestor de mão cheia, Paulo tem um olhar único sobre as aplicações das questões pedagógicas no espaço de ensino e Neusa atua com uma sensibilidade ímpar junto aos alunos. Juntos, eles transformaram uma escola estigmatizada em um dos espaços mais prósperos de educação como transformação social, do tipo que Paulo Freire aplaudiria.

Carlos e Paulo me recebem e assim que começam a apresentar a escola algumas coisas se tornam evidentes para mim: 1) o Saad não é apenas um emprego, mas uma responsabilidade que assumiram para si como missão; 2) São extremamente competentes nessa tarefa; 3) Ambos têm muito a compartilhar. Enquanto caminhamos pelo saguão central, vou olhando para dentro das salas de aula e percebo que todas têm aparelhos de tevê e de ar-condicionado. Lembro de um comentário que ouvi há não muito tempo sobre uma renomada escola privada. Na ocasião, pais indignados questionavam o fato de uma das escolas mais caras da cidade não ter salas de aula climatizadas. Pensando nisso (e na imagem de escola pública sem recursos que já faz parte do imaginário coletivo no Brasil) pergunto o que fazem de diferente aqui se os repasses de verba, teoricamente, são os mesmos para todas as escolas. Logo compreendo que o diferencial está numa gestão inteligente dos recursos públicos associada a iniciativas próprias. Pra começar, a escola estabeleceu um sistema de contribuições espontâneas. Famílias com filhos entre o 1° e 9°, independente do números de filhos que estudem na escola, contribuem com R$ 5,00 por mês. Já alunos do ensino médio, que geralmente já trabalham, contribuem com R$ 7,00 mensais. Ninguém é obrigado a pagar e os valores são sugestões pautadas a partir da experiência da aplicação desses recursos. Periodicamente, há uma rigorosa prestação de contas para que todos vejam onde o dinheiro foi investido.

Então, qual a mágica, como convencer pais e alunos a contribuírem se a postura convencional nesses casos é achar que não se deve pagar nada justamente por se tratar de ensino público, ou seja, gratuito? A duras penas e ao longo de praticamente uma década a escola conduziu um trabalho de aproximação entre família e escola, estabelecendo uma APP (Associação de Pais e Mestres) que é hoje extremamente atuante. As assembleias, realizadas em horários que a comunidade possa realmente participar chegam a contar com a participação de cerca de 200 pessoas por turno, totalizando aproximadamente 600 participantes. Um número e tanto se tratando de uma escola com pouco mais de 800 alunos.

Paulo e Carlos se alternam no discurso, prosseguem contando detalhes da escola e apresentando membros da equipe que eles fazem questão de enaltecer tornando evidente o reconhecimento do trabalho como uma união de talentos individuais. Não há espaço para disputa de egos nem afetações devido à hierarquias dos cargos. A cada início de turno, seja manhã, tarde ou noite, Carlos ou Paulo, quando não os dois, recepcionam cada um dos alunos na entrada da escola os cumprimentando. Não há membros inacessíveis. Em meio às tarefas cotidianas, eles circulam pela escola, conversam com alunos, professores. Na hora da merenda (que é terceirizada com uma empresa de nutrição/refeições) Carlos serve um por um dos alunos. Segundo ele, é uma maneira de estar próximo, mas também de garantir que todos tenham a oportunidade de se alimentar. Os alunos valorizam e reconhecem essa dedicação e isso se torna evidente pelo estado de conservação da escola, que sem exageros, parece ter acabado de ser construída. Ná há riscos, não há nada quebrado, tudo é extremamente limpo e reina um silêncio durante as aulas que torna difícil acreditar que estou em uma escola pública, tendo como referência as escolas públicas que vemos na mídia frequentemente e mesmo a escola estadual onde estudei durante toda minha formação básica de ensino fundamental e médio (na época, primeiro e segundo grau). Carlos me explica que diariamente há um trabalho de conscientização (essa palavra é mencionada muitas vezes em nossa conversa) para que os alunos entendam que como sujeitos do processo de ensino, são eles os primeiros que devem zelar pelo patrimônio e valorizar as pessoas que fazem parte desse processo, peças fundamentais para seu bom funcionamento. Quem quebra, por exemplo, deve pagar. Os pais são avisados e convidados a assumir a responsabilidade de arcar com os custos do conserto. Com esta máxima em mente, os alunos, além de entenderem que são responsáveis pelo espaço onde estão inseridos também acabam se tornando mais cuidadosos.

É fácil entender porque todos compram a proposta do Saad. Lá, alunos não são apenas números a avançarem num sistema mecânico que deva dar conta dos conteúdos previstos para o ano letivo. Cada um é visto de forma individual, sempre entendendo que a escola precisa ser inclusiva a ponto de tornar-se um veículo de transformação social. Como tal, precisa fazer diferença na vida das crianças e jovens que lá estudam. Partindo dessa premissa, o Saad adota um modelo de avaliações que dá diferentes oportunidades para que o aluno se recupere caso tenha tido um mau desempenho nas avaliações. A reprovação é um último recurso que só acontece quando realmente se mostra necessária. E, mesmo nesse caso, há um processo para entender o que pode ser feito de diferente para que esse aluno consiga avançar com propriedade em sua formação. O PPP da escola coloca assim “Todo aluno tem o direito de ter oportunidades para recuperar o mau desempenho que teve em determinada disciplina ou conteúdo. Entendemos por recuperação de estudos o processo didático pedagógico que visa oferecer novas oportunidades aos alunos para superar deficiências ao longo do processo ensino-aprendizagem. A recuperação será oferecida de forma paralela, sempre que for diagnosticada insuficiência durante o processo regular de apropriação do conhecimento e de competências pelo aluno. O resultado obtido na avaliação, após estudos de recuperação em que o aluno demonstre ter superado as dificuldades, substituirá a anterior, referentes aos mesmos objetivos, prevalecendo o maior resultado”.

Dentre suas diversas conquistas, em 2013 o Saad comemorou o primeiro ano da implantação de uma lei criada por seus alunos durante uma participação na 13ª edição do Projeto Parlamento Jovem da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), onde alunos de ensino médio de escolas públicas têm a oportunidade de atuarem como deputados por alguns dias. O projeto apresentado pelo Saad virou efetivamente lei em todo território catarinense em outubro de 2012 e determina que todas as escolas públicas estaduais e municipais e também as privadas são responsáveis por incluírem em seus planejamentos a temática do meio ambiente. Ao falarem sobre sua participação no projeto e mostrar o vídeo apresentado no evento, por sinal, feito pela própria equipe da escola, vejo Carlos se emocionar enquanto Paulo comenta “Ele se emociona quando fala sobre a escola, é uma vida dedicada a isso aqui”.

Falamos sobre outros detalhes, esclareço algumas dúvidas e quando a conversa se encaminha para o final, Carlos e Paulo pedem que agora eu fale, afinal, passei duas horas praticamente ouvindo. Respiro fundo, tento algumas palavras, minha voz embarga, os olhos marejam e peço desculpas. Não consigo falar. Seguro uma emoção represada que começa praticamente no instante em que entrei na escola pois identifico ali uma possibilidade real de esperança na educação. Não vai mudar a realidade do país, mas já vem mudando a realidade de muitas crianças e jovens que passam por ali. Penso na coragem dessas pessoas que muitas vezes se posicionam de maneira arriscada, numa cidade onde crimes políticos são recorrentes e onde a busca por uma oportunidade digna para esses alunos significa, com mais frequência do que deveria, bater de frente com nomes poderosos e organizações que comandam a cidade desde sua fundação. Me despeço com a promessa de buscar divulgar o trabalho da escola para que o exemplo inspire. Dou uma última olhada para a fachada da escola. No carro, desligo o gps com a certeza de que não vou mais esquecer esse caminho. Pelo retrovisor, vejo a escola se afastando, mas curiosamente, ela parece nunca ficar menor.

Fachada da escola.