Do que se era

André Ulle
Aug 22, 2017 · 1 min read

— Notou aquela senhora?

— Sim! O olhar dela até arrepia…

— Notou também esses olhos perdidos? Esse é um leitor, os leitores não gostam muito de chegar no meio de um diálogo e ficar sem entender muito bem o que está acontecendo. Por isso que eles ficam com esse ponto de interrogação gigantesco saltando da pupila.

— Mas eles sabem quem somos?

— A maioria deles não, são apressados, chegam procurando um monte de coisas, revirando as páginas em busca de um sentido. Alguns trazem seu coração nas mãos querendo algum tipo de cura, sabe? Parece uma epidemia, cada dia os casos de corações partidos são mais comuns entre eles.

— E sobre aquela senhora? Por que fica calada? E por que dessas rugas se nós, os poemas, nunca envelhecemos?

— Ela já embalou muitos romances, já brilhou debaixo das lágrimas de moças sonhadoras, e já fisgou o peito de muitos rapazes sensíveis. Mas hoje tudo anda meio seco, o amor é um estigma, as pessoas o paginam depressa demais, sem se dedicar ao tempo dos detalhes, dos gestos mais simples. Os olhares não foram feitos para calcular os riscos e dimensionar as profundidades, são apenas portais que permitem mergulharem uns nos outros. Sei que enquanto as pessoas permanecerem assim, tão distantes, isso e tudo o que somos nunca farão sentido algum.

Sem poder deixar de ouvir, chorava com os olhos de Neruda, quase inteiramente opacos, quase dementes.

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André Ulle

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Um menino envelhecendo.

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