O reflexo

acredito que angustia em partes é a forma de linguagem mais sincera que pode haver entre duas almas díspares, a dor se mostra diversas vezes como um laço (talvez dos mais fortes) que une as pessoas.
ainda quando eu era jovem, com meus medos de jovem e minhas ignorâncias clássicas, tinha sede pelo real como um andarilho desmotivado em um deserto de coisas e imagens. Eu ansiava por pingos de profundidade, ansiava pela verdade das coisas. Ainda nessa época eu vivia paixões individuais, alimentava amores sozinho apenas para me tirar do tedioso desconformo de viver em um mundo feito e organizado por outras pessoas. Dentro desses meus desastrosos encontros com a realidade, um em especial me mudou para o que um dia eu chamaria de ‘’eu mesmo’’.
Era tarde, não em relação ao tempo, mas em relação ao sol.
Eu devia estar no começo na minha adolescência, apesar de não aprovar muito as coisas que isso fazia menção na época. Era um dia qualquer, daqueles que você acaba sabendo que não vai se lembrar dele em alguns meses, eu estava em casa extremamente incomodado e ansioso com absolutamente nada. Agonizando silenciosamente na cama, corrompido com o veneno tedioso que mais tarde eu descobriria ter nome de doença. Lembro que tinha acabado de tomar meu 4 banho quando decidi sair de casa um pouco, queria ver um pouco da praia, todo mundo sempre adora falar do por do sol e eu queria tentar mais uma vez procurar suas formas de beleza. Eu botei uma roupa qualquer para pegar um elevador qualquer e ver um por do sol qualquer, com a esperança (hoje ainda não extinta) de que talvez o mundo me surpreendesse um pouco.
No caminho pro meu destino entregado ao acaso e ao por do sol eu vi coisas, vi caros com seus mecanismos químicos e mecânicos, vi mulheres de mãos dadas com rapazes que provavelmente não gostavam ou não estariam ali na próxima semana, vi o sinal de transito e suas ordens inquestionáveis, vi pessoas andando pra um lado e pro outro com objetivos pre definidos (senti um sentimento de pena misturado com inveja que as pessoas que pensam muito costumam sentir da irrelevância aleia do conidiano) e vi a praia enfim. Era bom ver algo aparentemente imutável além da teia relativista incompreensível que são os humanos e suas criações.
Eu sentei na areia e fiquei olhando pro mar, em partes contemplando e em partes procurando respostas, e o que eu vi foi muito melhor que resposta no final. Havia um garoto perto de mim, ele estava repetindo meu gesto de olhar o mar, podia ver a angustia nos olhos dele. Portanto tinha uma pequena diferença dele pra mim, ele tinha uma garota em seu colo aparentemente inconsciente, ele olhava pra ela de tempos em tempos como se estivesse se certificando que ela não iria desaparecer no ar. Ele não parecia feliz ou triste, mas toda vez que olhava pra ela ele dava um pequeno sorriso, um sorriso fraco mas não triste, um sorriso simples. Portanto, maioria do tempo ele encarava o mar, exatamente como eu, e foi nesse momento que eu percebi que a garota estava soluçando um pouco no colo dele, se contraindo em um choro baixinho que só ele conseguiria ouvir. Eu entendi algumas coisas naquele dia, voltei pra casa contente por ter visto algo sincero, voltei pra casa sabendo que o mar não acolia só as minhas angustias. Naquele dia eu vi duas pessoas conectadas pela dor e um mar aberto oferecendo suas ondas como resposta, naquele dia eu entendi um pouco mais de mim mesmo, do mundo e do mar.
diversas vezes voltei naquela praia e não consegui evitar lembrar do casal, acho que sempre vou lembrar do olho no garoto quando olhava pra ela e quando olhava pro mar. Refletia o respeito e admiração de quem consegue contemplar a a complexidade das coisas sem ferir sua beleza, refletia tudo que o mundo deveria ser.

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