Crítica | Elle (2016)

Quando comecei a assistir Elle achava que seria um drama chato e que as pessoas só estavam elogiando pelo fato de ser francês e de um diretor cult. Pensava que o filme iria focar apenas na questão do estupro da protagonista, mas a história vai bem além disso. Vai além de simplesmente retratar uma mulher que foi vítima de violência. É sobre uma mulher forte e madura de personalidade complexa que lida com seu passado transtornado, com seus amigos e familiares, tudo isso enquanto precisa lidar com o estupro que sofreu.

Michèle cria uma certa atração sexual pelo seu abusador ao decorrer da história. Ela não quer apenas seduzir, mas também provocar. Percebe-se isso quando ela decide convidar Patrick (o vizinho abusador) e sua esposa para o jantar de Natal em sua casa, mantendo não apenas o homem qual ela sente atração, mas também sua esposa por perto. E essa é a parte mais difícil do filme inteiro: é como ela lida com o seu estuprador que mora literalmente na casa da frente, pois não estamos acostumados a ver esse tipo de reação vindo de uma mulher que foi vítima de uma violência tão cruel.

Realmente não esperava que o filme tratasse o tema dessa forma, uma forma controversa mas ainda assim interessante.

“Vergonha não é uma emoção forte o suficiente para nos impedir de agir. Acredite.”

A personalidade difícil e manipuladora de Michèle fica clara quando vemos seu filho Vincent, um personagem lento e emocionalmente fraco, que é visto como fracassado e submisso à sua mulher. Ele enxerga no filho uma forma de mostrar que pode ser um bom pai e que não é um completo fracasso, demonstrando isso quando salva sua mãe do agressor.

Estamos acostumados a ver mulheres sendo vitimizadas e retratadas como pessoas fracas, que estão sempre submetidas a algum tipo de violência ou desdém. Michèle é exatamente o contrário pois ela parece se fortalecer com tudo que passou, lidando com os problemas de forma fria e calculista. Em um mundo onde vemos a crescente “ditadura do politicamente correto” nas redes sociais, isso parece incomodar bastante. O fato dela não ter deixado seu estilo de vida do lado e ter se tornado uma pessoa frágil e abalada cria uma polêmica exagerada acerca desse assunto.